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Full text of "Verdades indiscretas [microform]"

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LIVSARIA  CASTIIHO 

Rua  S.  Jas4 114-Teiephone  5466  c. 


NO  PRELO: 


ife 


PASQUINADAS 


A.  -*' 


CARIOCAS 


POR 


LIBRARY  OF  THE 

UNIVERSITY  OF  ILLINOIS 

AT  URBANA-CHAMPAICN 


869o9 

T63v 

1S20 


Verdades  Indiscretas 


ANTONIO  TORRES 


VLRDflDES 
INDISCRETflS 


2^  edigao 
(5.«  Milhelro) 


J  1  !  I  '  1  !  (  ij  (  t  ^ '; 


RIO  DK  JANEIRO 

lilTBABIA   CA8TI1.HO 

A.  J.  DE  CA8TILH0  — Editor 

RUA  S.  Josft,  114 
]090 


V 


Laisaea  dire,  laissez-vous  bl&mer,  con- 
-o  dAmaer,  empriaoner,  lalsaez-voitB  pendre, 
3  V  ni»ia  pnbliez  votre  penaSe.  Ce  n'est  paa 
^  un  droit,  c'eat  un  devoir,   etroite  obliga- 

tion de  quiconque  a  une  pena^e,  de  la 
produire  et  mettre  au  jour  pour  le  bien 
commun.  La  veiite  est  toate  k  toua.  Ce 
que  TOua  connaisaez  utile,  bon  k  aavoir 
pour  un  cbacun,  voas  ne  le  pouvez  taire 
^n  coQBcience.  Jeuner,  qui  trouva  la  vac- 
cine, etlt  ete  un  franc  acel^iat  d'en  garder 
une  heure  le  secret ;  et  comme  il  n'y  a 
point  d'homme  qui  ne  croie  sea  id^eea 
utiles,  il  n'y  en  a  point  qui  ne  soit  tenu 
de  les  eommuniquer  et  rSpandre  par  tous 
moyens  k  lui  poasiblea.  Parlor  eat  bien  ; 
ecrire  eat  mieuz;  imprimer  eat  ezceliente 
choae.  Une  pensee  d€duite  en  termea  courts 
et  dairs,  avec  preuves,  documenta,  ezem- 
ples,  quand  on  I'imprime,  c'eat  un  pam- 
phlet et  la  meilleure  action,  courageuae 
souvent,  qu'  homme  puisae  £fure  au  mon- 
de.  Car,  si  votre  pensSe  eat  bonne,  on  en 
profite ;  mauvaise,  on  la  corrige,  et  I'ont 
profite  encore.  Mais  I'abua...  sotiae  que 
ce  mot ;  cenz  qui  I'ont  invents  ce  aont  ceuz 
qui  vraiment  abusent  de  la  prease,  en  im- 
primant  ce  qa'ila  veulent,  trompant,  calom- 
niant  et  emp<gcbant  de  rep^fid^e.  Quand 

ila  orient    centre   lea  pa^hleta ila 

ont  leurs  raiaona  admirabiea.  J'ai  lea  mien- 
nea  et  vonrlraia  qu'on  en^t  davantage, 
que  cbacun  pubMt  tout  ce  qu'il  pense  et 
salt !  Lea  jSauitea  auaai  criaient  centre 
Paaeal  et  I'euaaent  appele  pampbletaire, 
xoais  le  mot  n'ezistait  paa  encore;  ila  I'ap- 
pellaient  tis&n  d'enfer,  la  m^me  choae  en 
atjlecagot.  Celaaignifie  toujoura  un  hom- 
me qui  dit  vrai  et  ae  fait  ^couter. 


Patjl-Lottib  Cottbibb 
Pamphlet  des  Pamphlets. 


.V- 


PREFACIO 


Questdo  fechada  fez  o  editor  de  ter  um 
prefacio  para  este  livro ;  e  eu,  obediente  como 
costumo  ser  para  com  quern  me  falla  branda* 
mente,  aqui  estou  a  escrever  o  famoso  prefacio, 
posto  que  sem  atinar  muito  nitidamente  com  a 
utilidade  e  menos ainda coma  necessidade delle. 
Com  effeito,  este  livro  e  feito  de  coisas  ha  muito 
tempo  escriptas,  sendo  Ineditas  umas,  e  outras 
jd  publicadas  em  jornaes.  Si  me  perguntarem 
por  que  altas  razoes  publico  este  livro,  respon- 
derei  que  isto  fago  somente  por  me  ter  o  editor 
Ojfferecido  comprar  uma  edigdo  de  folhas  avul- 
sas^  que  eu  por  ventura  tivesse  dentro  das  mi- 
nhas  pastas  e  das  minhas  gavetas.  Caso  quei- 
ram  saber  o  que  penso  do  volume,  direi  que  ndo 
penso  delle  mais  mal  do  que  o  que  por  ventura 
possam  pensar  os  meus  mais  encarnigados  des- 
affectos.  Dei-Ike  o  titulo  de  Verdades  Indiscre- 
tas,  embora  ndo  ignorando  ser  essa  uma  ex- 
pressdo  pleonastica,  pois  quern  diz  verdades 
commette  sempre  indiscregdo .  .  .  A  linguagem 


VIII 

em  que  o  escrevi  pode  nao  ser  das  mais  primo- 
rosas,  mas  dots  attributes  ha  que  ninguem  Ihe 
poderd,  sem  manifesta  injustiga,  negar :  sin- 
ceridade  e  franqueza.  Escrevendo  para  ser  lido 
por  homens,  claro  estd  que,  embora  evitando  o 
termo  vulgar,  desprezo  euphemismos  e  circum- 
loquios  sempre  que  a  verdade  me  parece  exigir 
a  expressdo  clara,  secca  e  por  vezes  rude.  Nao 
tenho,  cuido  eu,  necessidade  de  dizer  mais  a 
r^speito  destas  paginas,  que  —  pobre  de 
mim,  I  — jamais  cogitdra  de  dar  d  estampUy  si 
nao  me  houvera  appctrecido  um  editor  provi- 
dencial  e  bastante  tem^erario  para  adquiril-as 
e  imprimil-as.  Deus  o  ajude  e  o  publico  o  fa- 
vor ega,  afi^n  de  que  esse  honrado  e  corajoso  ho- 
mem^y  sem  motivos  para  arrependimento,  com- 
pre  futuramente  ao  pobre  escriptor  o  resto  da 
papelada  que  elle  ainda  possue  nas  gavetas  e 
no  csrebro .  .  . 

Kio  de  Janeiro,  15  de  setembro  de  1920. 


NOTA  i>ESTA  2.*  EDipAO  —  O  exito  obtido  por  este  liyro 
(dois  mil  ezemplares  exgottados  em  qaioze  dias,  qaasi  que  s6  no 
Rio  de  Janeiro)  nem  o  esperava  o  aator,  nem  o  adivinh^ra  o 
editor.  Eia  porque  sae  agora  a  segunda  edigao,  Antor  e  editor 
agradecem  ao  publico  o  apoio  que  Ihes  t£m  dado.  Negta  edi^&o 
corrigiram-se  erros  tjpographicos  que  escaparam  &  revis&o  na 
primeira ;  assim  como  tanibem  e  possivel  qae  erros  n&o  apparc- 
cidos  na  primeira  surjam  nesta.  Una  e  outros  mereoerfto  indul- 
gencia  do  leitor. 

A.  T. 


Z^-'Z^^-y-;      -.J>r'--'- 


A'  maneira  de  Pangloss 


Hontem,  no  cemiterio  de  S.  Francisco 
Xavier,  tentou  suicidaf-se  um  velho  esculptor, 
e  deixou  em  carta  os  motives  que  o  leva- 
ram  a  sahir  volurttariamente  die  uma  vida  em 
que  entrou  sem  ser  consultado,  como  toda 
a  gente .  .  .  Depois  de  narrar  hessa  carta  as 
suas  desditas,  disse  elle:  «PArece  que  nesta 
terra  os  vagabundos  e  os  ladrdes  t6m  mais 
garantia  do  que  os  homens  hanestos.»  HSto 
parece,  nao,  senhor :  6  c&tto.  Ha  uma  solMa- 
riedade  tao  extraordinaria,  tao  perfeita  enire 
OS  vagabundos  e  os  ladrdes,  que  nao  s6mente 
elles  t^m  todas  as  garantias,  como  ainda  sac 
OS  maiores  pregadores  de  moral  para  os  ou- 
tros.  E  si  tivermos  a  ingenuidade  de  quefer 
resistir  d  matilha  inirene,  anriscamo-nos  a  ir 
parar  na  Detengao,  porque  a  policia  e  favora^ 
vel  aos  vagabundos  e  aos  ladroes.  Em  caso  de 
conflicto  entre  homens  honestos  e  sujeitos  de 


2  VERDADES    INDISCRETAS 

consciencia  cauterisada,  vencerao  fatalmente 
OS  ultimos,  si  a  policia  for  chamada  a  decidir 
o  pleito.  De  maneira  que,  em  casos  taes,  a 
solugao  parece  ser :  ou  assentar  praga  de  va- 
gabundo,  ou  imitar  o  esculptor.  Samuel  Smi- 
les aconselharia  o  trabalho,  o  esforgo,  a  virtu- 
de.  Pedro  Kropotkine  talvez  aconselhasse 
meios  violentos.  Jesus  Christo  aconselharia 
paciencia.  O  sr.  Teixeira  Mendes  lembraria  a 
altruismo  e  a  obrigagao  de  cada  um  ser  vir- 
tuoso afim  de  concorrer  para  o  triumpho  do 
regimen  pacifico-industrial.  Esses  conselhos. 
tern  todos  o  defeito  de  ser  muito  solemnes. 
Para  nao  ser  esmagado  pelos  vagabundos  e 
ladroes,  o  melhor  e  ir-lhes  cada  qual  cedenda 
quanto  for  possivel  do  que  contiver  a  sua  bolsa» 
e,  depois  disso,  fazer  como  Figaro :  rir-se 
delles  e  de  tudo,  de  peur  cH en  pleurer. . .  Nesr- 
tes  tempos  tristes,  o  riso  e  o  unico  reducto  dos 
infelizes.  Vivera  quem  for  capaz  de  rir.  Nao  se 
trata  aqui  do  riso  vulgar,  mas  do  riso  interior. 
Pode  um  homem  estar  serio  e,  entretanto,  com 
a  alma  desfeitaem  risadas  interminaveis.  Esta 
maneira  de  rir  nao  desopila  o  bago,  mas  con- 
sola  o  espirito.  Ainda  e  a  melhor  maneira  de 
viver  nestes  tempos  asperos :  nao  se  enthu- 
siasmar  pela  grandeza  da  Patria,  que  p6de  ser 
instrumento  nas  garras  de  espertalhoes :  nao 


A    MANBIRA    DB    PANGI^OSS.  .  .  3 

desesperar  do  future  da  Patria,  porque  esse 
desespero  tambem  p6de  servir  de  gazua  para 
espertalhoes  de  outro  grupo.  Rir  para  viver. 
A  vida  nao  e  das  coisas  mais  agradaveis,  mas 
tambem,  por  outro  lado,  talvez  nao  valha  a 
pen  a  morrer.  .  . 


A  Gentileza  Britannica 


Appeteceis  saber  como  os  inglezes  cos- 
tumam  communicar  a  um  cidadao  que  elle  vae 
ser  enforgado  ?  Em  pleno  tribunal,  o  lord- 
chief  Justice,  imitado  pelos  outros  tres  juizes, 
coUocou  um  quadrado  de  panno  preto  sobre 
o  gorro  pardacento,  e,  refere  um  jornalista 
parisiense,dirigindo-se  a  Sir  Roger  Casement, 
Ihe  disse  muito  amavelmente  : 

« — David-Roger  Casement,  lejury 
a  delibere  sur  votre  cas  et  decide  que 
vous  etiez  coupable  du  crime  abomi- 
nable de  haute  trahison.  La  sentence 
de  la  cour  est  que  vous  soyez  pendu 
par  le  cou  jusqu'a  ce  que  vous  soyez 
mort.  Que  le  Seigneur  ait  pitie  de  vo- 
tre ame . » 

Em  vernaculo,  quer  isto  dizer :  «  Da- 
vid-Rogerio  Casement,  deliberaram  os  juizes 


6  VERDADES    INDISCRETAS 

acerca  de  vosso  caso  e  decidiram  que  sois  reo 
do  abominavel  crime  de  alta  trahigao.  E'  i»en- 
tenga  da  algada  que  sejais  enforcado  pelo  pes- 
C090  at^  a  morte.  Tenha  o  Senhor  piedade  da 
vossa  alma  » 

Sem  querer  entrar  no  exame  de  meritis 
desta  deeisao,  devemos  convir  nisto — que  os 
inglezes  sao  fidalgos  quando  tern  de  com- 
municar  a  um  cidadao  que  elle  e  um  trahidor 
e  que  como  tal  sera  enforcado.  Interessante 
aquelle  (njusqud  ce  que  vous  soyez  mort — en- 
forcado pelo  pescogo  ate  a  morte ».  Isso  re- 
vela  o  espirito  pratico  britannico.  Quando  se 
diz  a  um  sujeito — «0  senhor  vae  ser  enfor- 
cado» — ainda  Ihe  pode  restar  alguma  espe- 
ranga,  ou  de  ser  enforcado  pelo  p^,  ou  ainda 
de  viver,  mesmo  depois  do  carrasco  Ihe 
haver  sapateado  sobre  o  pesco90  ;  mas  os  in- 
glezes, que  nao  querem  enganar  a  ninguem, 
que  fazem  questao  de  lealdade  ate  a  morte,  di- 
zem  graciosamente  ao  reo:  aMeu  amigo  — o 
seu  crime  exige  castigo  exemplar ;  o  senhor 
vae,  pois,  ser  enforcado  pelo  pesco^o .  .  .  ate 
morrer,  note  bem.  A  legislagao  ingleza,  sobre 
ser  a  mais  liberal  do  universo,  e  tambem  e  por 
isso  mesmo  uma  das  maissabias.  Si,  portanto, 
julga  necessario  avisar  ao  reo  de  que  seu  en- 
forcamento  sera  «ate  morte»,  e  porque,  de 
certo,  isso  e  de  necessidade  provada  pela  ex- 


A   GENTILBZA   BRITANNICA  7 

periencia,  ao  menos  na  Inglaterra.  Quanto 
^  mim,  essa  clausula  era  inteiramente  desne- 
<:essaria.  Por  isso,  6  sabios  juizes  inglezes,  si 
algum  dia  eu  tiver  de  ser  enforcado  ahi  na 
livre  Inglaterra  ((juod  Deus  avertat!)  podeis 
perfeitamente  supprimir  na  sentenga  o  «  pelo 
pescogoD  eo  aate  amorte)).  Basta  dizer-me : 
«0  senhor  vae  ser  enforcado».  Nao  precise 
de  mais  para  meu  governo .  .  . 


Litteratura  Hermista 


Nunca  sera  demais  insistir,  em  se  tra- 
tando  das  poesias  do  sr.  Hermes  Pontes,  na 
necessidade  de  estudar,  de  emancipar  o  espi- 
rito  de  toleimas  amorosas,  na  necessidade  de 
ser  homem,  de  pensar  como  homem,  de  viver 
como  homem,  de  collocar  o  orgulho  masculine 
acima  de  ephemeras  paixonetas,  de  levantar 
a  fronte  para  os  sonhos  grandes,  de  algaro  co- 
ragao — pelas  forjas  de  Vulcano! — acima  das 
mulheres !  Limite-se  cada  um  a  colhel-as  ele- 
gremente  de  passagem,  como  fructos  madu- 
ros,  si  f6r  possivel ;  nao  sendo  possivel,  nesse 
caso,  buscar  outras,  outras  e  mais  outras,  pois 
mulheres  nao  faltam  neste  mundo. 

Todo  homem,  e  certo,  tem  na  sua  vida. 
um  momento  em  que  a  por9ao  inferior  de  sei^ 
ser  se  rende  aos  amavios  do  sentimentalismOr 
mas  esse  periodo,  para  homens  de  pensa- 
mento,  passa.  Passa,   ou   deve  passar.  Si  nao 


10  VKRDADES   INDISCRKTAS 

passar  por  si,  compete  a  cada  um  dominar-se, 
agarrar  o  coragao  pelos  ventriculos  e  subju- 
gal  o  sem  piedade ;  encostal-o  as  paredes  do 
seu  arcabogo  como  um  adversario  futil,  um 
troca-tintas  piegas,  e  bradar-lhe,  de  maneira 
que  elle  nao  tenha  coragem  de  replicar: 
aAquieta-te,  imbecil!  Homem  que  nao  tiver 
for^a  para  tanto  e  indigno  de  pensar.  Gastar 
vida,  papel  e  tinta  a  ruminar  velhas  magoas 
amorosas,  como  no  tempo  do  fallecido  Casi- 
miro  de  Abreu,  pode  agradar  a  meninas  ane- 
micas,  avatares  de  Mimi  e  de  Margarida  Gau- 
tier;  mas  nao  pode  absolutamente  commover 
a  espiritos  serios  e  a  coragoes  graves.  Escri- 
ptor  que  tiver  nas  costas  esse  crime  deve  peni- 
tenciar-se,  afastar-se  quanto  antes  dessa  via 
mala  perditionis  e  entrar  nos  caminhos  da 
contemplagao,  do  pensamento,  das  exaltagdes 
masculas  deante  da  Vida,  procurando-lhe  no- 
vas interpretagoes ;  ou  assimilando  as  antigas 
e  cantando-as  em  versos  que  as  meninas  de- 
testam  mas  a  Immortalidade  recolhera  nas  do- 
bras  da  sua  clamyde.  O  sr.  Hermes  Pontes, 
em  vez  de  procurar  abeberar-se  nas  Castalias 
antigas  a  nos  legadas  pelos  espiritos  immen- 
sos,  que  forjaram  todo  o  pensamento  contem- 
poraneo,  dobra-se  para  dentro  de  si  s6,  con- 
vencido  de  que  s6  por  si  p6de  encontrar  em 


I^ITTBRATURA  HKRMISTA  11 

si  motivos  d'arte.  Esta  provado  que  isso  nao  e 
possivel ... 

Quando  sae  de  si  e  para  mastigar  ma- 
goas  iterativas,  isto  e,  magoas  que  se  repetem 
numa  monotonia  de  velhas  traquitanas  su- 
bindo  morros  em  cremalheiras.  Percorra-se  o 
seu  ultimo  livro  Miragem  do  Deserto.  E'  urn 
deserto  sem  miragens  nem  oasis.  Si  salvarmos 
Crepusculo,  Buena  Dicha,  Nevoa  e  Attracgdo 
do  Abysmo,  quatro  composigoes  soffriveis,  o 
resto  da  brochura  e  um  desastre  rimado.  Nem 
estructuraharmoniosa  do  verso,  nem  imagens 
poeticas,  nem  elevagao  de  pensamento,  nem 
toques  de  sensibilidade,  nada  que  se  deva  ri- 
gorosamente  exigir  no  livro  de  um  poeta  que, 
ao  seu  apparecimento,  foi  saudado  como  um 
heroe. 

C^o  monotono  e  o  areal  sem  termo,  insert©, 
Entre  um  barbaro  mar  e  uma  terra  selvagem. ! 

Como  se  v^,  ja  na  primeira  pagina,  te- 
mos  um  areal  ainserto))  entre  um  mar  e  uma 
terra.  E'  patente,  tratando  se  de  uma  idea 
vasta,  a  impropriedade  do  verbo  inserir . 
Nao  se  insere  um  areal  entre  a  terra  e  o  mar 
como  se  insere  um  artigo  entre  um  commu- 
nicado  e  um  annuncio.  O  sr.  Hermes  Pontes 
inseriu  mal  o  pobre  areal. 


12  VERDADES  INDISCRETAS 

Subi  aos  cumes  e  ao  planalto, 

para  eximir-me 
do  meu  peccado  original 

Onde  estd  a  poesia  destes  versos  ?  Entao 
um  poeta  sobe  aos  cumes  para  «eximir-se» 
do  peccado  original?  Isto  nunca  foi  lingua- 
gem  de  artista ;  isto  e  linguagem  de  funccio- 
nario  publico.  Si  o  sr.  Hermes  Pontes,  no 
exercicio  de  seu  cargo  de  praticante  dos  Cor- 
reios,  requeresse  inquerito  administrativo  para 
eximir-se  da  responsabilidade  de  quafquer 
delicto  por  ventura  havido  na  sua  sec9ao,  faria 
muito  bem;  e  melhor  faria  ainda  si  deixasse 
de  escrever,  para  eximir-se  da  responsabili- 
dade de  tao  maus  versos. 

Quern  e  Chopin  para  o  sr.  Hermes  Pon- 
tes ? 

E'  o  Reflector-sonoro  do  gemido 

Do  Mar  a  debater-se  contra  o  cdes . 

U'  o  Interpretador  do  Arrulho  e  do  Rugido, 

Que  entende  o  corafao  inentendido 

De  todos  OS  tres  Reinos  Naturaes. 

Chopin  €  o  deus-mendigo,  soberano 
Das  grandes  almas  sobrenaturaes  ; 
E'  o  escaphandrista  magico  do  oceano 
Das  Tristezas,  das  Scismas  e  dos  Id^aes. .  . 
O'  quintessencia  harmonica  do  Ruido  ! 
O'  Bramido  !  O'  Gemido  ! 

Pobre  Chopin !  Nao  Ihe  bastava  a  sua 
melancolia  immensa !  Nao  Ihe  bastava  ter  tido 


I,ITT«RATURA    HBSMISTA  13 

a  desgraga  de  ser  amante  de  George  Sand ! 
Faltava-lhe  ainda  soffrer  a  injustiga  de  ser  ta- 
chado  de  areflectora  e  «escaphandrista»  pelo 
sr.  Hermes  Pontes!  Francamente,  Chopin 
tinha  motives  profundos  para  escrever  a  Mar- 
cha  funebre ,  .  . 

A  verdade  e  que  esta  Miragem  do  De- 
serto,  quando  nao  e  uma  lamuria  viscosa  em 
torno  de  raparigas  voluveis,  parece  um  pam- 
phleto  metrificado  contra  os  grandes  homens. 

Visao  de  sabio,  olhar  de  Medio,  olhos  de  orago, 
Vede  que  a  natureza  em  madrasta  se  esfez 
Ao  por  Beethoven  surdo,  e  Desmosthcnes  sfago, 
E  Milton  c^go,  em  meio  ao  torvelhinho  inglez ! 

E  o  c^go  viu  o  que  nao  ve  qualquer  —  o  Poema. . . 
E  o  surdo  ouviu  o  que  ningucm  de  outrora  ouvia. . . 
E  o  &rego  declamou  a  Eloquencia  Immortal  I 

Exactamente !  E  por  causa  de  tudo  isso 
o  poeta  escreveu  prosa  rimada,  Satis  loquen- 
tiaSy  sapientiae parum.  Muito  loquela  para  nao 
dizer  grande  coisa.  E'  impossivel,  porem,  citar 
tudo  quanto  e  prosa  neste  livro  de  versos. 
Salvo  as  excepgoes  ja  apontadas,  seria  neces- 
sario  citar  todo  o  livro,  principalmente  a  parte 
sentimental,  em  que  ha  verdadeiras  comichoes 
de  vulgaridades  e  chatices  —  o  que,  ate  certo 
ponto,  e  natural,  poise  impossivel  hoje  emdia 
fazer  versos  amorosos  sem  cair  de  quatro  pes 
no  atoleiro  bituminoso  das  expansoes  sedigas. 


14  VERDADKS  INDISCRBTAS 

Por  isso  e  melhor  nao  os  escrever;  ou,  quando 
nao  seja  possivel   deixar   de  escrevel-os  (diz 
Horacio  que  certos  sujeitos,  si  nao  puderem 
versejar,  enlouquecem — aut  insanit  homoaut 
versus  facit),  nesse  caso  fagam  presente  delles 
as  namoradas,  mas  pelos  cornos  de  Satanaz ! 
— nao  OS  publiquem  !  Raios  nos  partam,  si  um 
•homem,  attingindo   a  certa  idade,   nao  tiver 
obriga^ao  de  curar-se  de  toleimas  lyricas.  Nem 
me  venham   dizer  que  Victor  Hugo  envelhe- 
ceu  a  fazer  versos  de  amor.  Isso  era  muito  in- 
teressante  no  tempo  delle,  que  appareceu  em 
1830.  Hoje  OS  poetas,  quando  nao  sao  depu- 
tados,  causidicos  e  tabelliaes,  envelhecem  a 
pensar  coisas  graves  e  bellas,  como  o  grande 
Verhaeren.  Ja  e  tempo  de  sanear  o  campo  lit- 
terario,   alimpando-o   dessa   malta  chorosa  e 
menineira  de  Macieis  Monteiros .  .  . 


Moeda  falsa  e  paradoxo. . . 


O  homem  do  dia  e  um  certo  Albino  Men- 
des,  que.  com  grande  estardalhago  policial, 
aqui  chegOQ  hontem,  preso  como  fabricante 
de  moeda  falsa.  De  todos  os  crimes,  e  o  da 
moeda  falsa  o  menos  antipathico,  pelos  menos 
para  nos  outros  que  nao  dispomos  de  capitaes 
sujeitos  a  concorrencia  da  moeda  nao  autori- 
sada  por  lei.  Comprehendo  perfeitamente  que 
OS  capitalistas  tenham  ao  moedeiro  falso  o 
mesmo  santo  horror  que  tem  os  padres  aos  he- 
rejes,  o  mesmo  horror  profissional  que  t^m  os 
medicos  aos  charlataes,  o  mesmo  odio  que  t^m 
OS  verdadeiros  escriptores  aos  plagiarios,  a 
mesma  raiva  que  t^m  as  senhoras  casadas  as 
mulheres  de  vida  alegre.  Tudo  se  resume  em 
afastar  concorrentes . . .  O  odio  do  padre  pelos 
herejes  provem  menos  do  zelo  pela  salvagao 
das  almas  do  que  do  desejo  de  afastar  um  con- 
corrente  na  lucta  pela  vida.  Si  os  medicos 
perseguem  os  outros  charlataes,  e  mais  porque 
OS  charlataes  desviam  dinheiro   da  sua  bolsa 


16  VKRDADES    INDISCRETAS 

<io  que  por  amor  a  vida  do  seu  semelhante . 
Si  OS  escriptores  bradam  ds  armas  contra  o.s 
plagiarios,  e  por  temerem  que  estes  vendam 
mais  livros  do  que  elles.  Si,  finalmente,  as  mu- 
Iheres  casadas  detestam  as  meretrizes,  e  me- 
nos  por  espirito  de  pureza  do  que  por  amor 
proprio  offendido  e  tambempor  temerem  cer- 
tos  prejuizos  de  caracter  intimo .  .  .    A  Socie- 
dade  considera  amor  legitimo  o  casamento. 
Tambem  so  considera  legitimo  o  dinheiro  que 
leva  a  assignatura  autbentica  do  poder  publico; 
de  onde  decorrem,para  ella,  o  devere  o  direito 
-de  perseguir,  por  meio  de  certas  autoridades, 
OS  individuos  que  tern  bastante  intelligencia 
para  imitar  a  moeda  autorisada  pelo  Estado . 
Ora,  OS  falsificadores  de  moeda  estao  para  a 
Moral  assim  como  as  meretrizes  estao  para  o 
Amor.  Ha  individuos  eminentes  que  se  revol- 
tam  contra  o  amor  em  familia  e  nem  por  isso 
sao  perseguidos.  Como  entao  perseguir  os  que 
se  revoltam  contra  a  moeda  autorisada?  Si  nao 
perseguem  as  prostitutas,  que  sao  revoltadas 
contra  o  amor  autorisado  pelo  Estado,  porque 
perseguir  os  que  se  revoltam  contra  o  dinheiro 
autorisado  pelo  governo  ?  Tolerar  mulheres 
que  (na  opiniao  da  Sociedade)  falsificam  o 
amor,   e   crime  um    pouco  maior  que  tolerar 
homens  que  falsificam  moeda.  Portanto,  met- 
ier na  cadeia  os  moedeiros  falsos,  porque  cor- 


MOEDA    FALSA   E   PARADOXO ...  17 

Tompem  o  dinheiro,  e  nao  metter  egualmente 
na  cadeia  as  mulheres  que  corrompem  os  co- 
ragoes,  e  incongruencia.  O  crime  capital  dos 
moedeiros  falsos  e  enganar  o  proximo,  dan- 
do-lhe  dinheiro  falso,  para,  dest'arte,  viver  a 
custa  da  collectividade,  sem  auxilial-a  com  o 
seu  trabalho.  As  meretrizes  tanibem  vivem  de 
illudir  o  proximo,  dando-lhe  falso  amor,  nao 
trabalhando,  vivendo  parasitariamente,  e, 
mais,  disseminando  calamidades  e  fugindo  a 
finalidade  da  mulher,  que  e  a  maternidade . 
Como,  pois,  explicar  que  se  deixem  em  paz 
as  cortezas  e  se  persigam  os  moedeiros  falsos.^ 
E'  que  a  Sociedade  nao  e  sentimental,  mas 
puramente  interesseira ;  em  vez  de  cultivar  o 
amor  prefere  cultivar  a  avareza.  Os  artigos 
do  Codigo  que  perseguem  os  moedeiros  fal- 
sos foram  inspirados  por  Harpagon.  Uma  das 
faces  mais  curiosas  da  psychologia  humana  e 
-esse  respeito  pelo  dinheiro,  a  que  nao  esca- 
pou  o  proprio  Jesus  Christo.  No  dia  em  que  os 
j  udeus  Ihe  apresentaram  uma  moedacom  a  effi- 
gie  de  Cesar  e  Iheperguntaram,  com  segunda 
intengao,  si  era  permittido  pagar  tributo  ao  Ro- 
mano, elle,  o  pobre,  o  abnegado,  o  desprendi- 
do,  o  desprezador  pratico  do  dinheiro  e  refor- 
mador  da  natureza  humana,  respondeu  que  era 
dever  dar  a  Cesar  o  que  era  de  Cesar  e  a  Deus 
o  que  era  de  Deus — Reddite  ergo   qucs  sunt 


18  VERDADES    INDISCRETAS 

Casaris  Ccesari  et  qucB  sunt  Dei  Deo .  .  . 
Elle  teve  piedade  da  adultera ;  perdoou  a  Ma- 
gdalena ;  condemnou  o  divorcio ;  teria  per- 
doado  ao  proprio  Judas  si  o  trahidor  Ihe  ti  vesse 
pedido  perdao ;  enfrentou  o  poder  dos  tetrar- 
chas,  a  majestade  dopovo  romano,  o  orgulho 
do  Synhedrio  e  a  crueldade  dos  supplicios ; 
proclamou-se  Deus  deante  de  Jehovah  e  de 
Jupiter  Capitolino !  Mas  deante  da  moeda 
sonante,  deante  do  dinheiro,  do  aureo  dinheiro 
que  elle  desprezava,  do  omnipotente,  do  in- 
vencivel  dinheiro  que  Cesar  extorquia  a  seus 
patricios,  Christo  nao  tergiversou :  mandou 
dar  o  dinheiro  a  Cesar.  .  .  Dizer  que  elle  o  fez 
por  medo  e  estulticia,  porque  a  sua  attitude 
ulterior  provou  que  elle  nao  temia  nem  astor- 
turas  nem  a  morte.  Como  explicar  entao  que 
Jesus  Christo  tenharespeitadotantoaproprie- 
dade,  embora  decorrente  de  actos  de  tyrannia 
que  deviam  repugnar  a  sua  natureza  miseri- 
cordiosa?  Si  elle  era  apenas  homem,  o  facto 
se  explica  facilmente  pela  sua  nacionalidade 
de  judeu  ;  si,  porem,  elle  era  realmente  Deus, 
nesse  caso  entramos  francamente  no  dominio 
do  mysterio.  .  .  E  aqui,  insensivelmente,  che- 
gamos  a  umacuriosa  conclusao :  a  Sociedade, 
com  todaasua  hypocrisia,  fechando  os  olhos 
d  prostitui9ao  e  perseguindo  os  moedeiros  fal- 
sos,  nao  faz  mais  que  imitar  a  Jesus  Christo ! 


Zodiaco 


A  critica  ja  disse  o  que  se  podia  dizer  do 
Zodiaco,  livro  de  versos  do  sr.  Da  Costa  e 
Silva.  Toda  a  imprensa  ja  o  elogiou  e  justa- 
mente.  O  sr.  da  Costa  e  Silva  sabe  trabalhar 
o  seu  verso.  Conhece  a  sua  lingua — avisrara 
in  terra  aliena.  Tern  o  sentimento  da  medida 
e  exprime-se  com  clareza.  Evita  trope90S  e 
pedrougos  que  costumam  desfeiar  livros  de 
poetas  alias  apreciaveis.  O  seu  livro  esta  cheio 
de  aliteragoes  e  sonancias  que  sao  novidades 
para  o  nosso  idioma.  Aprendeu-as  o  poeta, 
sem  duvida  alguma,    em  Emilio  Verhaeren . 

£^m  altos  brados  desvairados, 
Passam  os  ventos  nos  descampados, 
As  avalanches  em  turbilhao, 
Imprecando,  bramando,  solujando, 
Num  coro  formidando, 
Pela  amplidao. 

Toda   esta  Ventania,  que  e  trabalho  de 


20  VERDADES  INDISCRETAS 

'fino  lavor,  esta  cheia  de  repercussoes  verhae- 
renianas.  Por  vezes,  o  amor  a  musica  e  a  tor- 
tura  da  onomatopea  sans  en  avoir  lairidjL^xxx 
o  poeta  deslisar  num  vicio  a  que  os  gramma- 
ticos  chamam  collisao,  e  vem  a  ser  a  repetigao 
frequente  da  mesma  consoante /«r^  obter  cer- 
ios  effeitos  onomatopaicos. 

Exemplo,  tirado  do  Redemoinho  : 


De  repente 

O  redemoinho  rapido,  revolto 

E  desenvolto,  volteia,  envolto 

No  vortice  envolvente 

Do  p6  que  sobe  sacudido,  solto 

No  aereo  ambiente. 


Como  se  ve,  e  uma  simples  e  pura  logo- 
machia.  O  sr.  Da  Costa  e  Silva  e  antes  de 
tudo  um  descriptivo  !  Quanto  seria  preferivel 
que  elle  fosse  mais  subjectivo  !  E  elle  o  pode- 
ria  ser  muito  mais,  si  o  quizesse.  A  Escalada, 
Nature za  Sofffredora  e  A  Vertigem  dizem 
bem  alto  da  sua  f6r9a  emotiva.  Nessas  compo- 
sigoes  e  que  ha  verdadeira  poesia^  isto  e,  emo- 
gao  traduzida  por  imagens  que  nos  dei- 
xam  entrever  uma  personalidade  que  vibra 
deante  do  espectaculo  do  mundo.  Rythm&s 
da  Vida,  Imagens  da  Naturesa,  Poemas  da 
Flora,  Poemas  da  Fauna,  Minha  Terra  e 
alguns  poemas  de  outras  divisoes  do  livro  sao 
como  OS  poemas    symphonicos    do   maestro 


ZODIACO  21 

Nepomuceno :  admiraveis  pelas  difficuldades 
technicas  vencidas,  mas  frios  e  inemotivos . 
Em  resume  :  mais  bemfeitos  do  que  propria^ 
mente  bellos.  Os  aspectos  da  Natureza  que  nos 
apresenta  nelles  o  sr.  Da  Costa  e  Silva  chegam 
ate  nos  inanimados  como  si  nos  fossem  dados 
por  pelliculas  cinematographicas.  Levada 
pelo  seu  horror  a  pieguice,  suppondo  que  a 
alma  de  um  poeta  nao  nos  interesse,  elle  im« 
pessoalisa-se  demasiadamente.  E'  um  erro. 
Um  poeta  vale  justamente  pelo  bocada 
d'alma,  da  sua  alma,  que  elle  for  capaz  de  tra- 
duzir  em  imagens.  O  essencial  e  que  essa 
alma  seja  elevada. 

Tem-se  estranhado  que  no   livro  ao   sr. 
Da  Costa  e  Silva  nao  haja  uma  palavra  para 
a  Mulher.  Isso  revela,  a  meu  ver,  uma  face  da 
superioridade  intellectual  do  poeta.  Provavel- 
mente  (e  nisto  estamos  de  accordo)  elle   esta 
convencido  que  a  mulher  e  um  thema  gasto . 
Ja  inspirou  o  que  podia.  Ja  deu  o  que  tinha  de 
dar.  .  .  O  mundo,  isto  e,  o  ceo,  as  aguas,    as 
montanhas,  as  florestas   e  todos  os  animaes 
(menos  a  mulher)  e  que  ainda  podem  offere- 
cer  ao  poeta  motivos  d'alta  contemplagao . 
Sob  estes  ceos  azues  e  escampos,  sob  este  sol 
canicular,  no  meio  desta  vertigem  de  c6res,  6 
impossivel  espiritualisar  uma  mulher.  Temos 
de  cahir  fatalmente  na  sensualidade  pura.  Ora 


22  VBRDADES    INDISCRBTAS 

a  sensualidade  nao  p6de  ser  motive  de  poesia 
verdadeira.  Zarathustra,  na  primeira  parte  do 
seu  livro  diz : 

(cAmo  a  floresta.  E'  difficil  viver  nas  ci- 
dades,  onde  sao  muito  numerosos  os  que 
estao  no  cio. 

«Nao  e  melhor  cahir  entre  as  garras  de 
um  facinora  do  que  nos  sonhos  de  uma  mu- 
Iher  ardente  ? 

«E  olhae,  pois,  para  esses  homens:  oseu 
olhar  o  testemunha — nao  conhecem  nada  me- 
lhor no  mundo  do  que  deitar-se  com  uma 
mulher. 

«Elles  tem  lama  no  fundo  d'alma  e  ai 
delles  si  a  sua  lama  tiver  espirito! 

«Si  ao  menos  fosseis  uma  besta  perfeita, 
mas  para  ser  uma  besta  e  preciso  ter  a  inno- 
cencia ! 

« Aconselhar-vos-hei  eu  extinguir  os  vos- 
sos  sentidos?  Aconselho-vos  a  innocencia  dos 
sentidos. » 

Assim  falava  Zarathustra.  Mas  comoche- 
gar  a  ter  a  innocencia  dos  sentidos  sob  a  ac9ao 
de  um  clima  que  a  todos  os  momentos  nao 
convida  a  outras  attitudes  sinao  as  da  sensua- 
lidade? Naturalmente  frio,  impassivel  por  in- 
dole (e  a  objectividade  exaggerada  dos  seus 
versos  oprova  exuberantemente),  o  sr.  Da 
Costa  e   Silva    nao    podia  ser  um  exaltado 


ZODIACO  23 

deante  da  mulher.  Como  Zarathustra,  elle  sabe 
por  instincto  que  a  exaltagao  deante  da  mu- 
lher e  signal  de  pouco  saber.  <(E  como  sabe- 
mos  poucas  cousas,  diz  Zarathustra  na  segun- 
da  parte,  amamos  do  fundo  do  cora9ao  ospo- 
bres  de  espirito,  principalmente  quando  sao 
mulheres  mogas.»  Assim  falava  Zarathustra  e 
assim  e  que  pensa  provavelmente  o  sr .  Da 
Costa  e  Silva.  Porque  censural-o  por  tal?  Dei- 
xemos  que  o  censurem  as  mulheres .  .  . 


A  castidade  do  nu 


Assistindo  hontem  a  exhibigao  de  uma 
fita,  Castidade,  notava  quanto  ainda  estava- 
mos  longe  daquella  ingenuidade  grega  que 
em  Sparta  permittia  a  rapazes  e  raparigas,  in- 
teiramente  nus,  participar  de  jogos  gymnasti- 
cos.  Nao  nos  esque9amos  de  que  gymnos 
quer  dizer  nu.  A  fita  a  que  alludo  e  tudo 
quanto  ha  mais  simples  e  puro.  Tanta  pureza 
chega  a  ser  ate  monotona,  dessa  monotonia 
de  templos  protestantes,  brancos  e  desnudos, 
a  mais  alarmante  das  formas  de  monotonia  at6 
hoje  inventadas.  Entretanto,  antes  de  exhibir- 
se  a  fita,  foi  necessario  submettel-a  a  alta  e 
esclarecida  apreciagao  da  policia,  que  e,  entre 
nos,  a  ultima  autoridade  chamada  a  proferir 
o  seu  veredictum  em  materia  de  esthetica.  Fe- 
lizmente  a  policia,  segundo  parece,  nao  achou 
indecentes  zs  poses  plastiques  de  Miss  Andrey 
Munson . 


Hb  VBRDADES   INDISCRKTAS 

Para  se  ter  idea  da  forga  dos  preconcei- 
tos  christaos  de  que  estamos  todos  imbuidos, 
basta  dizer  o  seguinte:  Miss  Musson,  que  se 
apresenta  candidamente  nua,  nuncada  a  fren- 
te  para  o  espectador;  esta  sempre  de  costas; 
ou  quando  muito,  de  perfil  ! 

Ora,  senhores,  eu  nao  sei  si  a  parte  tra- 
zeira  de  umamulhersera  mais  casta  do  que  a 
dianteira .  .  .  Restos  ainda  de  preconceitos,  os 
mesmos  preconceitos  que  nos  fazem  nao  co- 
rarmos  deante  de  um  pirralho  nu,  mas  nos 
obrigam  a  disfar9ar  e  olliar  para  outro  lado, 
si  e  uma  menina  de  dois  annos.  .  . 

Uma  vez  que  o  corpo  seja  bello  e  esteja 
€m  attitudes  castas,  qualquer  das  suas  faces  6 
digna  de  ser  vista  por  quern   quer  que    seja . 
Naturalia  non  sunt  turpia  . 

A  educagao  catholica,  baseada  em  pre- 
conceitos quasi  bi-millenares,  incute  no  nosso 
^spirito  que  a  idea  de  nudes  e  identica  a  de 
immoralidade.  Ora,  antiquissimos  canones, 
do  tempo  de  Santo  Agostinho,  diziam  que  o 
«corpo  humano  e  a  maisbella  das  creagdesde 
Deus.»  Mas  a  reacgao  do  christianismo  con- 
tra o  mundo  romano  inspirou  a  seus  prosely- 
tos  o  horror  pelo  nu,  como  por  tudo  que  con- 
stituia  a  serenidade  olympica  da  Belleza  anti- 
^a.  Os  christaos  ricos,  depois  de  dar  os  seus 
haveres  aos  pobres,  com  estes   se   nivelavam: 


A   CASTIDADB   DO   Vt  27 

e  todos,  ligadospelo  mesmo  ideal  de  salvar  a 
sua  alma  derrubando  os  idolos,  vinculavam-se 
no  mesmo  horror  inconsciente  pela  nudez  e 
pelos  banhos. 

Quebravam-se  idolos;  destruiam-se  am- 
phitheatros;  derribavam-se  altares;  incinera- 
vam-se  pergaminhos;  democratisava-se  o  mun- 
do.  E  como  as  thermas  eram  os  logares  em 
que  homens  e  mulheres  se  reuniam  para  to- 
mar  banho  e  ser  friccionados  com  perfumes 
da  Arabia  e  toda  sorte  de  unguentos  precio- 
sos  do  Oriente,  os  christaos  derrubavam  as 
thermas.  certos  de  que  exterminavam  focos  de 
perdigao,  mal  sabendo,  na  sua  cegueira  de 
illuminados,  que  o  exterminio  de  cada  um 
desses  f6cos  de  perdi9ao  do  espirito  traria  a 
abertura  de  um  foco  de  pestillencia  para  des- 
truigao  do  corpo.  Mas .  .  .  ^md  prodest  ho- 
mini  si  munduin  nniversum  lucretur,  anima 
vero  sua  detrimentum  patiaturf  A  philo- 
sophia  da  iMiTAgAo  de  Christo  e  o  reflexo 
daquelles  tempos  barbaros ... 

A  Renascenga  reagiu  contra  esses  pre- 
conceitos.  Em  Franca  chegaram  a  abrir-se  ba- 
nheiros  publicos  onde  homens  e  mulheres  se 
banhavam  mis.  Mas  veio  a  contra-reac9ao  do 
Grande  Seculo,  e  tudo  recaiu  no  que  era  ante- 
riormente.  Tanto  assim,  que,  nas  vesperas  da 
Revolu9ao  Franceza,  raras  eram,  em  Paris,  as 


28  VERDADES    INDISCRETAS 

damas  da  aristocracia  que  tivessem   banheira 
no  seu  gabinete  de  toalete  1 

Hoje  ja  existe  por  toda  parte  uma  pro- 
ficua  reac9ao  contra  semelhantes  preconcei- 
tos.  A  Allemanha,  a  barbara  Allemanha,  que 
esta  sempre  na  vanguarda  de  todas  as  campa- 
nhas  civilisadoras,  da  o  bello  exemplo  de  lu- 
ctar  contra  isso  com  esse  enthusiasmo  e  com 
essa  disciplina  de  que  ella  tem  o  segredo.  O 
lago  de  Wannsee,  nos  suburbios  de  Berlim, 
e  um  freibad,  banho  popular  onde  se  encon- 
tram  diariamente  rapazes  e  mo9as,  de  calgoes 
justinhos,  folgando  na  agua,  como  tritoes  a 
porfiar  com  as  nymphas .  .  . 

Mais  ainda,  o  dr.  Kuster,  velho  medico 
e  conselheiro  intimo  de  medicina,  fundou  em 
Berlim,  em  1909  a  sociedade  dos  amigos  da 
lu2,  o  Freya-Bund,  que  defende  o  direito  de 
andar  nu.  Essa  sociedade  possue  uma  revista 
interessante,  Der  Licht-Freund,  e  um  terre- 
no  rigorosamente  fechado,  nos  suburbios  de 
Berlim,  onde  os  associados  de  ambos  os  se- 
xos  passam  diariamente  algumas  horas  com- 
pletamente  nus,  jogando  tennis,  criquet^  etc. 
Nao  e  qualquer  pess6a  admittida  como  socio; 
para  tanto,  o  candidato  sujeita-se  a  minucio- 
sa  syndicancia  sobre  a  sua  vida,  os  sens  habi- 
tos,  o  seu  caracter,  os  sens  antecedentes  mo- 
raes,  etc.E' precisoserhomem,  ou  mulherde 


A    CASTIDADE   DO   NU  29 

incorruptivel  moralidade  para  poder  andar  nii 
e  ser  socio  do  Freya-Bund.  As  vantagens  hy- 
gienicas  e  espirituaes  desses  exercicios  de  nu 
ao  ar  livre  sao  extraordinarias  e  indiscutiveis. 
Ainda  estamos  longe  de  poder  fundar 
uma  sociedade  nesses  moldes.  Os  nossos  ra- 
pazes  sao  facilmente  inflammaveis  e  mal  edu- 
cados  para  formarem  uma  sociedade  como  a 
do  dr.  Kuster.  Alem  disso  os  nossos  precon- 
ceitos,  nesse  sentido,sao  ainda  muito  vivos. 
Em  compensagao,  as  meninas  vao  ao  cinema 
ver  umas  detestaveis  prostitutas  como  Pina 
Menichelli,  umas  repugnantes  tuberculosas 
como  Francesca  Bertini,  e  leem  as  frioleiras 
hediondas  de  Marcel  Prevost  e  as  babosei- 
ras  idiotas  de  Madame  Gyp .  .  . 


^ 


O  Bacillus  Lyrlcus 


Chamo  a  attengao  dos  poderes  compe- 
tentes,  devidamente  representados  pelas  re- 
partigoes  encarregadas  de  combater  endemias 
nocivas  ao  desenvolvimento  da  raga,  para  a  se- 
cular endemia  lyrica  que  amenisa  a  nossa  ju- 
ventude.  Emquanto  as  nossas  profissoes  re- 
muneradoras  definham  por  falta  de  bragos^ 
j ovens  patricios,  atrazados,  cretinisados  pela 
absorpgao  lenta  de  Casimiro  de  Abreu  (into- 
xicagao  feita  atravez  de  muitas  geragoes  de 
poetas  amorudos  e  trovadores  imbeds);  re- 
tardados  no  seu  desenvolvimento  d'homens; 
dissorados  naquelles  centros  do  psychismo 
superior  em  que  se  forjam  as  complexas  armas 
espirituaes,  merce  das  quaes  se  affirma  a  digni- 
dade  masculina,  ou  seja  —  a  soberania  da 
macho  sobre  a  femeada  sua  especie;  jovens 
patricios  dao  aos  seus  contemporaneos  o  de- 
primente  espectaculo  que  e  um  grupo  de  pe- 


32  VERDADES    INDISCRETAS 

quenos  animaes  dominados  por  uma  especie 
de  cio  choroso  e  amulherado,  sem  coragem  de 
affirmar-se  perante  o  objecto  de  seus  desejos 
sinao  por  meio  de  estrophes  plangentes,  de 
timbre  obsolete  e  accordes  infantis,  versos  sem 
virilidade,  gemidos  de  emasculados  e  ais  poe- 
ticos  que  estariam  ao  alcance  de  qualquer  eu- 
nucho  do  Sultao,  si  aos  eunuchos  dado  fosse 
commetter  o  desaforo  de  rimar  versos  a  rapa- 
rigas . 

Esta  nos  casos  o  sr.  Guilherme  de  Al- 
meida, poeta  paulista,  que  acaba  de  dar  a  es- 
tampa  um  volumezito  de  versos  que  tem  o 
tituio  melifluo  e  lambisgoia  de — Nos.  E'  a 
historia  massante  e  frivola  dos  amores  do 
poeta  e  uma  rapariga  qualquer.  Litteraria- 
mente  sao  versinhos  bem  medidinhos  e  cho- 
chinhos,  sem  uma  so  idea,  sem  nota  emotiva, 
sem  nenhum  arranco  para  ospincaros  do  ideal, 
sem  signal  desses  impetos  luminosos  que 
arrastam  uma  alma  para  as  espheras  altos  e 
grandes  em  que  as  estrophes  de  um  poema 
esvoa9am  como  fagulhas  que  rastream  de  au- 
rifulgencias  todo  o  espago .  .  . 

Ora,  uma  vez  que  nao  se  pode  dizer  nada 
novo  acerca  do  amor,  para  quepublicar  livros 
tao  anemicos? 


O   B4CII.I,US    I,YRICUS...  33 

Quando,  velhos  e  tristes,  na  memoria 
Rcbuscarmos  a  triste  e  velha  historia 
Dos  nossos  pobres  cora95es  defunctos, 

Que  estes  versos,  nas  horas  de  saudade, 
Prolonguem  numa  doce  etemidade 
Os  poucos  mezes  que  vivemos  juntos. 

Em  que  e  que  interessard  a  humanidade 
a  historia  dos  beijos,  abra90s  e  correlatas  pa- 
tifarias  que  o  poeta  e  sua  amada  fizeram  jun- 
tos? Dirao  talvez  que  esse  amor  e  um  desses 
sentimentos  candidos  que  pov6am  de  illusoes 
loda  uma  adolescencia  e  projectam  claroesate 
para  alem  da  edade  madura.  Mas  isso  mesmo 
nao  desperta  interesse  a  nenhum  espirito  se- 
rio.  Nao  digo  novidade  nenhuma,  affirmando 
que  taes  sentimentos  puros  lyriaes  sao,  na 
sua  essencia,  a  mesma  vibragao  dynamica  que 
leva  um  jumento  a  correr  um  dia  inteiro  pe- 
los  prados  atraz  da  sua  femea,  e  transfigura 
um  cavallo,  eri^ando-lhe  a  crina,  tornando-lhe 
o  pello  reluzente,  dilatando-lhe  as  narinas,  fa- 
zendo-o  nitrir,  pondo-o  d'olhos  accesos  como 
<:arbunculos  em  brasa,  vibratilisando-lhe  to- 
dos  OS  musculos,  que  adquirem  malleabilidade 
<ie  laminas  d'a90,  quando  o  seu  lan9arote  o 
poe  em  contacto  com  egua  de  boa  raga.  Ora., 
collocados  em  paralello  os  amores  do  cavallo 
e  OS  amores  humanos,  os  doicavallo  sao  muito 


34  V^RDADES   INDISCRETAS 

mais  bellos  do  que  os  namoros  de  poetinhas 
que  nem  ao  menos  tern  coragem  para  affir- 
mar-se  perante  as  suas  dulcineas. 

Sonhamos .   Quando  um  dia  eu  for  velhinho , 
Hei  de  encontrar-te  velha  no  caminho. . . 
E  juntos,  cambaleando,  aos  solavaucos, 

N6s  levaremos,  pela  tarde  calma, 
Toda  uma  primavera  dentro  da  alma, 
Todo  um    inverno  de  cabellos  brancos.  . . 

Francamente,  e  ou  nao  e  infinitamente 
mais  interessante  o  cavallo?  O  cavallo,  quan- 
do Ihe  chega  o  tempo,  ama,  simplesmente, 
animalmente,  bellamente,  como  sedeve  amar 
quando  se  tem  boa  saude  e  prazer  de  viver. 
Ama  e  nao  faz  versos.  Ninguem  que  se  preze 
vae  dizer  a  sua  diva  que  algum  dia  hao  de  an- 
dar  cambaleando  e  aos  solavancos  pelas  es- 
tradas,  como  quem  volta  d'alguma  farra  bem 
regada  a  zurrapa  e  alimentada  a  tremogos. 

Vaes  lendo.  E,  emquanto  a  tua  mao  folheia 
O  livro,  eu  vejo  que,  de  quando  em  quando, 
Estremecendo,  sacudindo,  arfando, 
Teu  corpo  todo  num  delirio  anceia. 

Mas,  senhores,  tudo  isto  e  vulgar.  Qual-^ 
quer  costureira  esperta  esta  sujeita  a  semelhan- 
tes  accidentes.  Toda  a  gente  esta  mais  ou  me- 
nos farta  de  saber  que  uma  rapariga  quando 
anda  de  amores  com  qualquerrapazelho  (uma 


O    BACILLUS    LYRICUS.  .  .  35 

vez  que  em  casa  Ihe  faltem  os  paes  com  o  cor- 
rective moral  do  chicote)  le  sempre  alguns  li- 
vritos  que  Ihe  empresta  o  seu  namorado.  No 
caso  vertente,  quero  dizer,  no  caso  da  rapari- 
ga  que  anda  enrabichada  pelo  poeta,  si  ella^ 
durante  a  leitura,  estremece,  sacode-se,  arfa  e 
tern  o  corpo  todo  a  delirar,  como  diz  elle  na 
sua  algaravia  de  collegial  cheio  de  sentimen- 
talismo,  ja  se  sabe  o  que  a  rapariga  estara  a 
ler  em  extase:  si  nao  for  Les  Uemi-Viergbs, 
do  imbecilissimo  e  engenheirissimo  Marcel 
Prevost,  sera  com  certeza  aquella  scena  do 
Primo  Basilic,  em  que  Ega  de  Queiroz  nos 
mostra  o  canalha  do  romance,  durante  as  ex- 
travagancias  com  a  prima,  na  equivoca  e  su- 
percivilisada  posigao  de  quem  se  levanta  de  es- 
tar  de  joelhos,  ainda  meio  incendiado,alisando 
OS  bigodes  e  lambendo  os  beigos.  .  . 

Felizmente,  ahi  pelo  meio  do  volume^ 
da- nos  o  poeta  a  grata  nova  de  que  a  rapariga 
se  foi  embora. 

Quiz  dar-te  mais  :  tu  nada  mais  quizeste, 
Pelo  bem  que  te  fiz  pade90  agora 
A  saudade  do  mal  que  me  fizeste. 

A  la  bonne  heurel  A  rapariga  safou-se . 
Tera  feito  bem?  Certo.  fez  bem  a  si  propria, 
mas  fez,  sem  o  querer,  grande  malao  poeta  e 
is  letras  patrias.  Ficamos  sabendo  que  a  vida 


36  VKRDADBS   INDISCRETAS 

de  ambos  era  assim  uma  especie  de  vida  de 
canarios  em  viveiro  : 

Kra  assim  :  era  beijo  sobre  beijo, 
AbraQO  sobre  abra9o. . .  Um  s6  desejo 
Nunca  tiveste  que  nao  fosse  o  meu. 

O  mal  do  joven  rimador  paulista  foi  sup- 
per ter  descoberto  a  polvora  quando  beijava 
e  abragava  a  sua  bella  Rosina.  Considere  o 
sr.  Guilherme  de  Almeida  que  os  amores  de 
toda  a  gente  sao  perfeitamente  eguaes  aos 
seus  amores.  .  .  E'  sempre  assim:  beijo  so- 
bre beijo,  abra^o sobre  abrago  e.  .  .  le  reste 
en  consequence.  A  esse  respeito  nao  ha  mais 
novidade  alguma.  Tudo  quanto  se  p6de  fazer 
em  materia  de  amor  ja  esta  feito,  E,  si  o  sr. 
Guilherme  de  Almeida  f6r  capaz  de  inventar 
acerca  deste  particular  algum  prazer  novo, 
pode  tirar  patente  de  invengao  e  garanto-lhe 
que  tera  estatua  ao  lado  dos  maiores  genios 
da  humanidade.  Apenas  com  uma  condi9ao : 
nao  fazer  versos  molhando  a  penna  em  agua 
de  fl6res  de  laranjeira  assucarada,  como  o 
mallogrado  cretino  Casemiro  de  Abreu,  cuja 
alma  tenha  Satanaz  sempre  entre  os  cornos... 


0  paradoxo  legal 


Olympia  do  Oriente  e  uma  senhora  que 
se  tern  annunciado  ao  mesmo  tempo  como 
cartomante  e  modista.  Um  destes  dias,  porem, 
a  policia  visitou  o  escriptorio  de  Olympia,  a 
rua  da  Assemblea,  onde  nao  encontxou  nem 
tesouras,  nem  fazendas  finas,  nem  f6rmas  de 
chapeo,  nem  manequins.  Em  compensagao 
encontrou  um  baralho  de  cartas  de  tirar  a  sor- 
te,  um  gallo  e  uma  figa ...  A  policia  empal- 
mou  o  baralho,  o  gallo  e  a  figa — «instrumen- 
tos  de  superstigao))  —  e  sahiu  convencida  de 
haver  ganho  o  seu  dia.  Olympia,  consideran- 
do  a  sorte  do  baralho,  do  gallo  e  da  figa,  e 
nao  possuindo  infelizmente  outra  figa  maior 
para  offerecer  a  policia,  achou  mais  prudente 
requerer  habeas-corpus  preventivo  —  o  que 
fez.  Ojuiz  pediu  informa9oes  ao  Chefe  de 
Policia,  que  Ih'as  deu  logo,  minuciosas  e  ter- 
minantes.  O  principal  argument©  em  que  o 


38  VBRDADES    INDISCRBTAS 

Chefe  de  Policia  se  estriba  para  perseguir 
Olympia  e  «principalmente  a  aprehensao  de 
cartas  e  objectos  de  superstigao  que  arreca- 
dou,  como  o  gallo,  a  figa,  etc.*  (Textual). 
Ora,  senhores,  o  dr.  Aurelino,  perseguindo 
as  cartomantes,  e  muito  mais  antipathico  do 
que  o  cardeal  de  Torquemada  quando  fazia 
queimar  herejes,  judeus,  criminosos  politicos, 
feiticeiros,  adivinhos,  bruxos  e  bruxas  nos 
quemaderos  das  Hespanhas.  O  cardeal  de  Tor- 
quemada, o  Conde  de  Tolosa,  o  Geral  dos 
Dominicanos,  Mestre  Conrado  de  Marpurgo 
e  Sua  Santidade  o  Papa  perseguiam  a  super- 
stigao  em  nome  de  um  principio — principio 
egualmente  supersticioso  se  oquizerem — mas 
sempre  um  principio.  As  Constituigoes  Apos- 
tolicas  eram  perfeitamente  logicas  perseguin- 
do nigromantes,  cartomantes,  etc..  A  Consti- 
tuigao  da  Repnblica,  nao.  O  art.  167  do  Co- 
digo  Penal  Brasileiro  e  que  e  uma  excrescen- 
cia  na  legislagao  republicana.  Ou  aRepublica 
reconhece  officialmente  uma  seita  religiosa  e 
entao  pode  perseguir  as  outras  seitas  e  as  su- 
perstigoes  congeneres  em  nome  da  seita  offi- 
cial (o  que  me  parece  perfeitamente  licito),  ou 
entao  nao  reconhece  officialmente  nenhuma 
seita  e  nesse  caso  tem  de  cruzar  os  bragos 
deante  de  todas.  Perante  a  logica  e   a  razao 


O  PARADOXO   LEGAL  39 

liumana,  um  crucifixo,  como  instrumento  de 
<:onsolo  e  de  milagres,  naotem  a  menordiffe- 
reiiQa  de  uma  figa.  O  que  faz  o  crucifixo  set 
<iifferente  de  uma  figa  6  a  devo^ao  de  cada 
um.  Objectivamente,  o  crucifixo  e  a  figa,  como 
instrumentos  de  religiao,  identificam-se.  Eu 
admitto  e  respeito  o  crucifixo,  porque  desde 
pequeno  me  inculcaram  essa  crenga;  tambem, 
ci,  intimamente,  nao  deixo  de  ter  certo  res- 
peito pela  figa,  que  nos  livra  de  muita  coisa 
inexplicavel .  .  .  Como  o  dr.  Papus,  creio  em 
tudo  quanto  nao  vejo  e  respeito  tudo  quanto 
dgnoro .  .  .  Ha  individuos  que  nao  se  ajoelham 
deante  de  um  crucifixo,  mas  tremem  deante 
de  um  gallo  e  cobram  animo  deante  de  uma 
figa.  Agora  pergunto  eu  :  a  Republica,  que 
nao  admitte  officialmente  o  crucifixo,  pode 
perseguir  officialmente  a  figa?  Creio  que  nao. 
A  figa  so  pode  ser  perseguida  em  nome  do 
crucifixo  catholico,  do  crescentilunio  mussul- 
mano,  etc.. — Persigo  em  nome  da  sciencia? 
respondera  a  Policia. — Perdao!  Que  sciencia  ? 
As  sciencias  exactas?  O  Estado  nao  tem  nem 
p6de  ter  preferencia  por  sciencia  alguma.  Li- 
vre  e  o  ensino;  liberrimas,  as  opinioes.  O 
art.  157  persegue  o  espiritismo  em  nome  da 
sciencia,  ji  que  o  nao  pode  perseguir  em  no- 


40  VKRDADES    INDISCRKTAS 

me  da  Religiao.  Nao  o  pode  perseguir  abso- 
lutamente.  Ha  muita  gente  que  considera  o- 
espiritismo  uma  sciencia.  O  espiritismo  6,  a. 
meu  ver,  uma  seita  religiosa;  portanto  so  pode 
ser  perseguido  em  nome  de  outra  seita.  Scien- 
cia e  razao;  religiao  e  sentimento;  nao  se 
p6de  perseguir  uma  seita  religiosa  em  nome 
da  sciencia,  porque  isso  seria  condemnar  o~ 
sentimento  em  nome  da  razao.  Eu  nao  de- 
fendo  o  espiritismo  da  rua  Rudge,  nam  a  figa. 
de  Olympia  do  Oriente.  E'  razoavel  que  o  Es-^ 
tado,  sendo  o  mais  forte,  persiga  o  espiritis- 
mo e  a  figa,  que  sao  mais  fracos.  O  que,  po- 
rem,  se  deve  exigir  e  que  o  Estado  se  faga 
frade  para  poder  perseguir  com  justiga  e  lo- 
gica.  Que  e  superstigao  theologicamente?  Su- 
persti^ao  e  o  facto  de  attribuir  alguem  a  cer- 
tas  causas  certos  effeitos  nao  proporcionados 
com  as  causas  a  que  sao  attribuidos.  Attribuir, 
pois,  a  uma  figa  o  poder  de  inspirar  paixao- 
ou  de  livrar  de  quebrantos  e  uma  superstigao, 
que  a  policia  persegue;  mas  nesse  caso  por- 
que nao  persegue  tambem  os  que  ajoelhanv 
deante  de  uma  cruz  afim  de  pedir  allivio  para, 
as  almas  do  Purgatorio  ?  Perante  a  Sciencia, 
que  parece  ser  o  sustentaculo  da  policia,  ha. 
tanta  rela9ao  entre  uma  figa  e  uma  paixao, 
como  entre  uma  cruz  e  as  almas  do  Purgato^ 


d  PA.RADOXO   h^Gkl,  41 

rio,  entes  cuja  existencia  nao  esta  scientifica- 
itiente  provada,  experimentalmente  demon - 
strada.  Nao  protest©,  portanto,  contra  aperse- 
guigao;  saliento  apenas  a  falta  de  logica  poli- 
cial, aponto  a  incoherencia  republicana. 


Homens  e  abelhas 


Escrevendo  La  Vie  des  Abeilles,  fez 
Maurice  Maeterlinck  um  verdadeiro  poema  em 
torno  da  vida  dessas  « castas  bebedoras  deor- 
valho — chastes  buveuses  de  roseey),  como  diz 
elle.  Nao  ha,  em  todo  o  genero  animal,  entes 
que  mais  humilhem  os  homens.  Ja  nao  me  re- 
firo  ao  facto  das  abelhas  so  produzirem  mel, 
ao  passo  que  os  homens,  ordinariamente,  s6 
distilam  fel.  O  extraordinario,  incomprehensi- 
vel  nas  abelhas  e  a  sua  abnegagao.  Quando  ve- 
mos  um  enxame  abandonaruma  colmeia  e  sup- 
pomos  que  sao  as  novas  abelhas  que  vao  para  a 
Vida,enganamo-nos.E' justamente  o  contrario 
quese  da.  As  velhas  abelhas,  as  que  ja  traba- 
Iharam,  deixam  a  nova  gera9ao  o  fructo  de  seu 
trabalho — a  cera  e  o  mel — e  partem  sem  des- 
tino  certo,  a  construir  nova  colmeia,  sem  sa- 
ber em  que  arvore  iraorepousar,nem  que  ven- 
davaes  virao  colhel-as  durante  a  viagem.  Nao 


44  VERDADES  INDISCRETAS 

e  mysteriosa  essa   abnegagao?   Entre  os  ho- 
mens,  nem  os  paes  sao  capazes  de  ser  tao  ab- 
negados  para  com  os  proprios  filhos.  Ja  nao  qui- 
zeramos  n6s  que  os  paes  abandonassem  aos  fi- 
lhos, de  um  dia  para  o  outro,  todo  o  fructo  do 
seu    trabalho.   Mas    seria    encantador     que 
ao  menos  as  velhas  geragoes  que  nos  gover- 
nam,  e  cujo  governo  absolutamente  nao   nos 
satisfaz,  abandonassem  OS  seuspostos  as   no- 
vas geragoes,  compromettendo-se  estas  a  fazer 
o  mesmo  ageragao  que  daquiavinte  ou  trinta 
annos  estivesse  em  condi9oes  de  fazer   a  feli- 
cidade  do  paiz?  Isto  me  parece  justo,  porque 
o  governo  deve   fazer    a  felicidade  do  paiz. 
Mas    que    e  o  paiz?  Sao  os  velhos?  Nao. 
Sao  OS  novos.   Os  velhos  estao  perto  de  par- 
tir  para  nunca  mais  voltar.  Pertencem  ao  pas- 
sado.    A  nos  cabe,  por  direito,  a  direc^ao  do 
presente,  e,  por  dever,  a  previsao  do  futurO . 
Portanto,  o  paiz  somps  nos. 


i 


A  festa  da  Melancolia 


As  nossas  batalhas  de  confetes  se  notabi- 
lisam  por  nao  terem  confetes.  Nesse  caso, 
uma  vez  que  os  confetes  entram  nessas  bata- 
lhas com  tanta  parcimonia,  d^em-lhe  outro 
nome :  aBataIha  dosEmpurroes».  Chamarba- 
talha  de  confetes  a  uma  festa  em  que  elles 
pouco  apparecem  e  falta  de  bom  senso.  yap- 
pelle  un  chat  un  chat  et  Rollet  un  frippon, 
como  dizia  o  defunto  Boileau . . .  Ha  ainda  um 
outro  nome  que  se  podia  perfeitamente  ajustar 
a  esses  ajuntamentos  de  povo  na  Avenida:  «a 
festa  da  Melancolia. »  Quem  quizer  ter  idea  da 
grande,  da  immensa  melancolia  nacionaldeve 
vir  ver  uma  batalha  de  confutes.  Entao  ter^ 
occasiao  de  observar  aspectos  curiosos ;  na 
calgada,  bem  no  meio-fio,  homens  e  mulheres 
enfileiradas,  algumas  com  creanga  de  mamma 
ao  coUo,  e  olhando  todos,  muito  serios  e 
muitos  graves,  para  os  carros  onde  tambem 


46  VERDADBS    INDISCRETAS 

passam  cavalheiros  muito  graves  ao  lado  de 
damas  orravissimas.  Hontem  ate  havia  um  se- 
nhor  de  tratamento  fcomo  dizem  as  donas  de 
pensao)  vestido  de  preto,  sobrecasaca,  collete 
branco  e  cartola  lustrosa,  sim,  senhores,  cartola 
luzidia  a  meia-noite  em  batalha  de  confetes ! 
Mas  prosigamos  :  na  calgada,  gente  seria ;  nos 
automoveis  e  carros,  com  algumasexcepgoes, 
gente  que  apenas  sorri  (e  que  sorriso  de 
ra9a  fatigada  de  aindanao  existir! .  .  .),  gente 
que  apenas  sorri  e  passeia  como  si  estivesse 
de  tarde  na  Avenida  Beira-Mar.  Nos  interval- 
los  deixados  pelos  vehiculos  e  ainda  nos 
passeios,  vem  entao  a  multidao  dos  passean- 
tes,  pobre  gente  que  se  aperta  e  se  acotovela... 
para  divertir-se.  E'  nesses  logares  que  se  en- 
contram  os  rapazes  da  moda,  2,jeunesse  doree. 
A  nossa. jeunesse  doree  vem  para  a  Avenida  dis- 
posta  a  divertir-se  muito.  Como,  por^m,  nao 
ha  entre  elles  ideas  a  respeito  de  diver- 
soes,  nem  dinheiro  com  que  possam  custear 
novidades,  entao  adoptam  um  meio  facil  e 
economico  de  divertir-se :  formar  o  que  se 
chama  um  amonomio»  e  sahir  ululando  coisas 
em  calao.  E'  a  mais  enc3inta.dora,  jeunesse  do- 
ree deste  continente.  A  nao  serem  esses  rapa- 
zes, que  dizem  chufas  as  senhoras  e  dao  alguns 
berros  de  meia  em  meia  hora,  os  demais  pas- 
seantes  andam   pela   Avenida,  serenamente 


A   FBSTA   DA   MBI.ANCOI.IA ...  47 

e  gravemente,  como  se  perlustrassem  alame- 
das  de  S.  Joao  Baptista  ou  do  Caju  em  dia 
de  Finados.  Alids  ja  tenho  observado  que 
nos  cemiterios,  em  dia  de  Finados,  ha,  entre 
OS  visitantes  de  tumulos,  certa  alegria  algo 
elegante,  talvez  per  ser  discreta.  .  .  De- 
mais,  dd-se  um  facto :  em  dois  de  novembro 
as  fl6res  sao  mais  abundantes  nos  Campos 
Santos  do  que  os  confetes  e  serpentinas  ahi 
na  Avenida  em  dias  de  festa .  .  .  Mas  fagamos 
ponto  aqui.  A  nossa  melancolia  e  tal,  que  co- 
mecei  estas  linhas  com  a  intengao  de  tratar 
de  uma  festa  carnavalesca  e  acabo  tratando 
de  coisas  funebres.  Nao  ha  como  resistir  aos 
fados.  .  . 


Carne  para  canh^o 


Os  Jornaes  censuram  a  attitude  de  urn  ra- 
paz  que,  ainda  se  arriscando  a  per der  os  direi- 
tos  de  cidadania,  allegou  motives  de  crenga 
religiosa  para  ficar  isento  do  sefvigo  militar . 
Nao  ha  muitos  dias  o  juiz  da  1?  vara  de- 
negou  habeas-corpus  a  um  outro  que  preten- 
dia  fugir  ao  servigo  militar  pela  mesma  porta 
que  tem  dado  entrada  no  governo  de  estados 
a  varios  cidadaos  fracamente  prestigiados  nas 
urnas.  Aventuro-me  a  perguntar  si  podemos 
condemnar  tao  soberanamente  esses  rapazes 
pelo  facto  denao  quererem  perder  doisannos 
inutilmente,  a  ouvir  toques  de  cornetas  e  ru- 
fos  de  tambores,  a  enervar-se  na  vida  dissol- 
vente  das  tarimbas,  para  sairem  aptos  a  serem 
o  que  seriam  fatalmente,  sem  dois  annos  de 
caserna :  carne  para  canhdo .  .  .  Sim,  os  bra- 
sileiros  estao-se  preparando   exclusivamente 


50  VSRDADES   INDISCRETAS 

paraisso.  Um  exercito,  salva  a  opiniao  dosge^ 
neraes  pacificos  e  dos  poetas  bellicosos,  nao- 
se  compoe  apenas  de  soldados  e  officiaes.  Or- 
gamento  da  guerra  tern  duas  verbas :  Pessoat 
e  Material.  Ora,  por  emquanto  estamos  lyri- 
camente  preparando  pessoal,  sem  cogitar  do 
materiaL  isto  €,  das  carabinas,  das  bayonetas^ 
dos  canhoes  pezados,  dos  canhoes  leves,  das. 
metralhadoras,  dos  transportes,  das  ambulan- 
cias,  dos  viveres,  dos  fardamentos,  dos  medi^ 
camentos,  dos  arreios  para  a  cavallaria,  da  re-^ 
monta,  emfim  de  tudoisso  que  justifica  aexis- 
tencia  de  uma  repartigao  pomposa  e  dispen- 
diosa  que  ac6de  ao  nome  de  Intendencia  da 
Guerra.  Si  tivefmos  de  pelejar  contra  qual- 
quer  povo  —  quod  Deus  avertat  —  dentro  de 
pouco  tempo  ficaremos  desprovidos  de  espin- 
gardas  e  de  polvora ;  de  maneira  que  os  corn- 
bates  terao  de  cessar  da  nossa  parte,  nao  tal- 
vez  por  falta  de  combatentes,  mas  por  falta  de 
armas.  A  forma9ao  dos  exercitos  hoje  em  dia 
deixou  de  ser  problema  de  heroism©  para  ser 
questao  economica,  financeira  e  industrial. 
A  Inglaterra  poude  levantar  em  pouco 
tempo  um  exercito  de  cinco  milhoes  de 
homens,  porque  tinha  la  na  sua  ilha  os  recur- 
sos  industriaes  capazes  de  armar  esses  cinco 
milhoes  de  individuos.  Os  turcos  sao  soldados. 
por   indole,  por   tradi^oes  e  por  educa9ao ; 


CARNB    PARA    CANHAo.  .  .  51 

aldm  disso  sao  mais  numerosos  que  os  ingle> 
zes  e  nada  disso  os  impede  de  serem  derrota- 
des.  Porque?  Porque  nao  t^m  armas  e   nao 
t^m  a  consciencia  militar  moderna.  Os  russos 
sao  bons  soldados  e  numerosos  como  pragas 
de  gafanhotos,  o  que  nao  impediu   que  elles 
tivessem  de  ser  derrotados  por   Hindenburg, 
esse  avatar  dos  velhos  deuses   scandinavios» 
essa  moderna  e   truculenta  encarna9ao  dos 
Wottans  e  dos  Sigfrieds,   paes  e  irmaos  de 
Walkyrias ...  A  Franca,  a  AUemanha,  a  In- 
glaterra,  o  Japao,  a  Italia  e  os  Estados  Unidos 
sao  potencias  de  guerra,  porque  sao  potencias 
industriaes,economicas  e  financeiras.  Nos  que- 
remos  ser  potencia  respeitada  so  porque  dis- 
pomos  de  academicos  enthusiastas  e  de  poetas 
eloquentes.  Si  a  Italia  nao  tivesse  os  seus  esta- 
leiros  e  fabricas  de  Spezzia  e  de  Liorno,  a  ima- 
ginagao  de  Gabriel  d' Annunzio  nao  seria  mais 
efficiente  do  que  os  discursos  do  sr.  Olavo  Bi- 
lac.  .  .  Deixemo-nos,  pois,  depatranhas  e  pa- 
triotadas.    Emquanto  nao  formos  capazes  de 
aproveitar  o    ferro  de  Minas  para  fundirmos 
coura9as  de  navios  e  canhoes  para  as  nossas 
fortalezas  e  montanhas,  inutil  serd  pensar  em 
formar  exercito.  A  campanha  que   se  fez  em 
prol  da  forma^ao  de  contingentes  de  parada, 


52  VSRDADES   INDISCRETAS 

seria  muito  mais  util  e  proficua,  si  tivesse  sido 
feita  em  prol  da  abertura  de  fundi^oes  de  ferro 
para  as  carretas,  bronze  para  os  canhoes  e 
ago  flexivel  para  a  lamina  das  espadas .  .  . 


Edouard  Drumont 


E4ouard  Drumont,  que  acaba  de  fallecer 
em  Paris,  era  o  que  se  p6de  chamar  um  ho- 
mem.  Iniciou  a  sua  carreira  de  publicista  sob 
a  direc9ao  de  Emile  de  Girardin  de  quern  diz 
elle  que  era  muito  parco  nos  ordenados  que 
pagava,  mas  generoso  quando  se  tratava 
de  pagar  transportes  para  os  seus  reporteres 
fazerem  algum  service  de  importancia.  Dru- 
mont foi,  em  toda  a  suavida,  um  extraordina- 
rio  homem  de  combate.  O  primeiro  livro  com 
que  appareceu,  em  1881,  La  France  Juive, 
provocou  uma  celeuma  espantosa  em  Paris . 
E'  curioso  acompanhar  o  interesse  que  AI- 
phonse  Daudet  tinha  por  esse  livro,  que  elle 
ja  conhecia  antes  de  publicado.  Drumont,  du- 
rante muito  tempo  antes  da  publica9ao  do  li- 
vro, treinava-se  no  jogo  da  espada,  na  sala 
d'armas  de  Daudet.  Eram  diarios  os  exerci- 
cios  que  elle  fazia  ora  com  o  proprio  Daudet, 


54  VBRDADBS  INDISCRKTAS 

ora  com  Albert  Duruy,  ora  com   outros   ami- 
gos.  Diarios  e  prolongados.  Quando  salam  da 
sala,  havia  pelo  menos  meia  duzia  de  floretes 
quebrados.  Madame  Daudet,  que  ignorava  os 
motivos  occultos  daquelles  exercicios,  nao  po- 
dia comprehender  a  raiva  com  que    o  joven 
jornalista,  se  atirava  a  elles.  Daudet  costuma- 
va  dizer :  <!.Eh!  Drumonf  a  raison  de  s  entrai- 
ner.  Le  livre  qu  il  est  en  train  de  pub  Her  sera 
une  grosse  affaire. m  Que  livro  seria  esse?    La 
France  Juive.  Exposto  d  venda,  contra  a  ex- 
pectativa  do  autor  e  dos  amigos,  os  jornaes 
nada  diziam.  Daudet  os  percorria  a  todos  dia- 
riamente.  O  livro  iria  morrer  assim?   Um  livro 
como  aquelle,  dois  volumes  repletos  defactos 
e  informagoes  ineditas  sobre  os  altos  banquei- 
ros  dajudiaria,  sobre  os   ministros   vendidos 
aos  judeus,  sobre  os    jornalistas    venaes .  .  . 
Mas  uma  bella    manha,    Alphonse    Daudet 
abriu  o  Figaro,  anciosamente  comosempre,  e 
la  encontrou  a  nota  official  da  folha,  o  famoso 
grypho,  que  hoje  e  escripto  por  Alfred  Capus 
e  que  naquelle  tempo  era  escripto  por   Ma- 
gnard,  o  primeiro  successor  de  Villemessant . 
O  grypho,  por  entre  elogios  ao  talento  do  au- 
tor, fazia  veladas  defesas  das  victimas  de  Dm- 
mont,  muito  ao  de  leve,  com  muita  amabili- 
dade,  com  luvas  de  pelliea,  alisando    o  pello 
ao  autor,  extranhando,  pedindo  licenga  para 


SDOUARD   DRUMONT  55 

lextranhar  a  acrimonia  com  que  eram  tratadas 
certas  personalidades  eminentes  do  regimen 
Tepublicano .  .  .  Alea  facta  erat.  No  mesmo 
dia  OS  exemplares  do  livro  voaram.  E  no  dia 
tseguinte  o  sr.  Arthur  Meyer,  director  do  Gau- 
loisy  mandava  suas  testemunhas  a  Drumont . 
Este  acceitou  radiante  o  desafio.  Emfim,  ia  ter 
<ieante  de  si  um  judeu,  um  judeu  authentic© 
^m  cujas  carnesia  entrar  a  lamina  da  sua  espa- 
<ia.  Mas  Arthur  Meyer,  durante  o  assalto,  con- 
tra todas  as  regras  da  cavallaria,  conseguiu 
agarrar  com  a  mao  esquerda  a  espada  de  Dru- 
monte  feril-o  assim,eitrai5ao,na  coxa  do  mesmo 
lado.  Ora,  a  Fran9a  e  a  mae  da  cavallaria.  Os 
jornaes  datarde  noticiaram  o  caso.  Constituiu- 
se  um  tribunal  de  honra,  para  examinar  le  coup 
de  la  main  gauche.  E  o  proprio  Meyer  teve  de 
reconhecer  que  procedera  muito  mal...  D'ahi 
para  ca,  Edouard  Drumont  foi  em  Franga,  du- 
rante quasi  metade  de  um  seculo,  um  Torque- 
mada  armado  de  uma  penna,  em  vez  de  estar 
^rmado  com  as  fogueiras  da  Inquisi^ao.  Toda 
^  sua  vida  foi  consagrada  a  combater  os  ju- 
deus.  O  seu  nome  tornou-se  popular  em  toda 
^  Franga,  atravez  do  lapis  dos  caricaturistas, 
<}ue  nao  se  fartavam  de  pintal-o  deante  de  um 
bouillon,  espetando  judeus  com  um  garfo  im- 
menso  e  devorando-os  como  um  cannibal .  .  . 
JElle  p6de   ter  commettido  erros  e  excessos 


56  VERDADES   INDISCRBTAS 

nos  combates  que  feriu.  Os  seus  livros  e  os 
seus  artigos  de  jornaes  eram  violentissimos.  O 
que,  porem,  ninguem  pode  negar  e  que  este 
homem  foi  um  dos  mais  sinceros,  valentes  e 
apaixonadps  francezes  que  jamais  viveramsob 
o  ceo  de  Franga . 


A  Academia  em  ses$llo 


A  Academia  Brasileira  de  Letras  esta  em 
f6co.  As  tres  vagas  ja  existentes  tern  prpdu- 
zido  o  surprehendente  effeito  de  colloc^l-^  na 
berlinda  jornalistica, durante  quasi  dois  m^zes. 
Deixemos,  entretanto,  de  lado  a  quesjap  das 
candidaturas  e  tratemos  da  sessao  academic^ 
realisada  ha  dois  dias . 

Compareceram  a  reuniao  ^penas  seis  im- 
mortaes,  que  estiveram  a  cavaquear  sobre  o 
regulamento,  sobre  a  politica,  sobre  a  batalhsi 
de  Verdun,  sobre  a  crise  economica  e  sobre  o 
DiccioNARio  DE  Brasileirismos.  Uma  sessao 
encyclopedica,  que  acabou,  como  sempre,  in- 
fructifera  e  inoffensiva.  Porque  as  sessoes  da 
Academia  tem  isto  de  bom:  ordin&riamente 
sao  infructiferas.  Praticamente,  valem  tanto 
como  as  sessoes  do?  clubes  literarios  dos  rapa- 
zes  das  provincias ... 

Pe9amos  a  Deus  que  a  Academia  seja 


58  VISRDADBS  INDISCRETAS 

sempre  assim:  pregui^osa  e  inutil.  Da  unica 
sessao  em  que  os  academicos  se  reuniram 
para  resolver  coisas,  sahio  um  monstro:  a  re- 
forma  orthographica.  A  pretexto  de  facilitar 
o  ensino  da  escripta,  nivelou  a  Academia  os 
intellectuaes  e  os  vendeiros.  Que  nosimporta 
a  nos,  senhores,  que  o  vendeiro  ali  da  esqui- 
na  escreva  caxorro  com  :*:  ?  Devemos  acom- 
panhal-o  ?  Nao .  Deixemos-lhe  a  inteira  res- 
ponsabilidade  da  sua  graphia  lusitana .  .  . 

A  Academia  pensa  de  modo  contrario . 
Uma  vez  que  o  vendeiro  ache  difficuldade  no 
emprego  do  ph,  o  que  os  intellectuaes  devem 
fazer  nao  e  disseminar  a  instrucgao,  afim  de 
instruir  o  vendeiro  mas  sim,  desaprender  a 
sua  orthographia  e  escrever  como  elle!  Chama- 
se  isto — simplificagdo  orthographica . 

Os  academicos  nao  viram  que  a  escripta 
dos  intellectuaes  e  uma  das  maneiras  pelas 
quaes  elles  se  destinguem  dos  demais  homens. 
Nao  comprehenderam  que  a  Academia,  refor- 
mando  a  orthographia,  democratisava-se,  isto 
^,  achatava-se  ;  e  Academia  democratica  nao 
e  Academia  nem  coisa  alguma.  O  simples  fa- 
cto de  ser  uma  selec9ao  faz  della  uma  aristo- 
cracia.  Portanto,  ou  seja  aristocratica,  ou  nao 
exista.  O  engragado  €  que,  ao  mesmo  tempo 
que  simplificavam  a  escripta,  complicavam  o 
fardamento.  Atiravam  pela  janella  o   diccio- 


A  ACADBMIA  SM    SKSSlO  59 

nario  etymologico  e  mandavam  buscar  espa- 
dins  e  chapeos  armados ... 

£  sao  taes  homens  que  pensam  em  fazer 
um  DicciONARio.  Fagamos  votos  para  que 
semelhante  diccionario  nunca  venha  a  luz . 
Fique  quieta  a  Academia.  Nada  de  estroinices, 
nada  de  brincadeiras  inconvenientes  com  a 
lingua  materna,  que  e  uma  coisa  s^ria . 


n^ 


A  morte  da  peccadora 


I 

Aquella  senhora  em  quern  o  maiido,  te- 
nente  do  Exercito,  disparou  algUns  tifds  de 
rev6lver,  morreu  hontem  na  Santa  Casa,  de- 
pois  de,  segundo  dizem  os  jornaes,  ter-se  re- 
conciliado  com  o  seu  Deus.  O  que  ha  de  in- 
teressante  na  sua  morte  e  que  a  infeliz,  con- 
forme  o  depoimento  dos  matutinos,  «expirou 
tranquillamenteB.  Quern  sabe  se  exaggeraste, 
6  divino  Flaubert,  quando  fizeste  Emma  Bo- 
vary  morrer  naquella  agonia  estertorante,  sob 
a  influencia  do  arsenico,  e  cheia  de  remorsos, 
e  tendo  visoes  dantescas,  e  apavorada,  como 
si  jd  soffresse  em  vida  os  supplicios  infernaes  ? 
Quem  sabe  si  a  razao  nao  estava  ao  lado  de 
Alphonse  de  Lamartine,  que  achou  exagge- 
rado  o  castigo  que  impuzeste  a  Emma  Bovary, 
cujo  crime  afinal  se  reduzia  a  tao  pouco  ?.  .  . 
Como  a  sociedade  ainda  e  incomprehensivel ! 
Nao  ha  homem  nenhum  que  tenha  a  coragem 


62  VB&DA.DSS   INDISCRBTAS 

de  condemnar  esse  official.  Pois  que!  Ella 
teve  a  prova  de  que  a  esposa  o  atrai9oava  I 
Mais  ainda :  ella  propria  confessou  o  seu  pec- 
cado !  Em  casos  taes  —  dil-o  o  Codigo  e  a  So- 
ciedade  o  applaude  —  fica  ao  marido  o  direito 
de  castigar  a  esposa  para  lavar  a  sua  honra  ! 
Valha-nos  Deus!  A  honra,  si  e  que  ella  en- 
tra  realmente  nessas  coisas,  ficaria  perfeita- 
mente  salvaguardada  com  o  repudio,  puro  e 
simples,  da  adultera.  Esta  solugao  tambem  jd 
6  acceita  pela  Sociedade  e  tem  a  vantagem 
de  ser  muito  menos  incommoda  do  que  q 
assassinate  da  esposa  leviana .  Passados  al^ 
guns  mezes,  o  marido  se  teria  esquecido  jd  da 
tragedia,  ou  pelo  menos  a  lembranga  della  es- 
taria  amortecida  no  seu  espirito.  Nao  ha  como 
o  tempo  para  apagar  maguas  de  amor.  Te- 
nhamos  confian9a  no  tempo  que,  nestas  como 
em  outras  circumstancias,  e  o  unico  remedio 
infallivel.  Nao  tenhamos  illusoes:  o  assassi- 
nato  da  esposa  adultera  e  mais  um  desconsolo 
que  vem  attingir  o  marido.  Entao,  sendo  este 
militar,  tem  mil  modos  de  remediar  a  situa- 
gao,  salvando  a  sua  dignidade,  sem  ter  neces- 
sidade  de  appellar  para  as  armas .  Uma  com- 
missao  nas  fronteiras,  por  exemplo.  As  obrir 
ga96es  do  servi90  militar,  que,  «sob  o  chicote 
das  fronteirasv,  sao  muito  mais  graves,  con- 
stituem  derivativo,  cuido  eu,  de  primeira  or- 


A   MORTB  DA   FKCCADORA  63 

dem  para  fazer  olvidar  as  infidelidades  de  uma 
mulher.  Depois  ha  o  estudo.  Creio  que  era 
Chateaubriand  que  dizia  nao  haver  d6r,  por 
mais  violenta,  que  resistisse  a  um  quarto  de 
hora  de  leitura.  E'  uma  profunda  verdade. 

Entretanto .  .  .  Entretanto,  apezar  de  to- 
dos  conhecermos  estas  coisas,  nao  podemos 
deixar  de  dar  razao  ao  marido  que  mata  a  in- 
fiel  por  esse  simples  facto  a  que  Napoleao 
chamava  affaire  de  canape,  affaire  de  coin  de 
salon  / .  .  .  Porque  serd  que,  sendo  nos  tao  ci- 
vilisados,  damos  razao  ao  marido  que  mata 
em  taes  casos  ?  E'  que  a  civilisagao  nossa  ain- 
da  €  uma  crosta  muito  superficial.  Chegado  o 
momento  de  applicar  estes  principios,  parece 
dar-se  na  nossa  intelligencia  um  eclypse  de 
todas  as  ideas  que  a  civilisagao  pouco  a  pouco 
impoz  a  nossa  incoercivel  selvageria  interior ; 
parece  que,  em  momentos  taes,  reb6am  no 
nosso  cora9ao  todos  os  gemidos  da  floresta 
primitiva  e  estrugem  gritos  de  todas  as  feras 
com  que  conviveram  os  nossos  ancestraes; 
e  tudo  isso,  como  uma  grande  caudal  esca- 
choante,  corre  por  declives  ignorados  do  nos- 
so ser ;  e  entao  as  Leis,  os  Codigos,  a  Caval- 
laria,  a  gentileza,  tudo  desapparece  no  vortice 
tremendo,  innundado  pelo  diluvio  interior  de 
barbaria  mysteriosamente  desencadeado  pelo 
simples  olhar  de  uma  mulher  voluvel .  .  . 


Q  pdraidoxo  dat  f^i 


Uma  actrizita  ia  representar  quando  o 
pae  a  raptou  a  porta  do  theatro.  O  caso,  yi. 
amplamente  divulgado,  interessaria,  si  nao 
fosse  vulgar.  Porque  afinal,  depois  de  tudo, 
verificou  se  que  a  raptada  ja  era  casada,  divor- 
ciada,  com  26  annos  e  dois  filhos.  Uma  sem- 
saboria,  como  se  ve ,  .  . 

O  mais  interessante  e  a  nossa  organisa- 
^ao  social.  Um  pae,  ao  saber  que  a  filha  vae 
entrar  para  o  theatro,  temendo  que  ella  se 
perca  no  meio  das  suas  semelhantes,  refeGlve 
raptal-a  e  leval-^a  para  casa.  A  filha  gftta  <|ue 
ainda  ha  juizes  em  Berlim  e  com  effeito  appa- 
rece  por  entre  aquillo  tudo  um  sujeito  de 
oculos  que  diz  ao  pae : 

—  O  Sr.  nao  pode  impedir  a  sua  filha 
de  viver  nas  caixas  de  theatro. 

—  Mas,  senhor  homem  da  lei,  as  caixas 
de  theatro  sao  conventilhos  ! 


66  VKRDADES    INDISCRKTAS 

—  Mas  sao  permittidos  por  nos.  Neste 
mundo  s6  6  immoral  aquillo  que  n6s  prohibi- 
mos.  Ora  n6s  permittimos  que  haja  caixas  de 
theatres.  Logo,  sao  perfeitamente  familiares- 
Demais  sua  filha  tern  26  annos  e  dois  filhos. 
Portanto.  .. 

—  Mais  uma  razao,  senhor  juiz,  para  que 
eu  nao  a  queira  numa  caixa  de  theatro.  E^ 
preferivel  que  uma  virgem  entre  nesses  meios. 
antes  que  uma  mae ;  porque  a  virgem  e  s6 ; 
a  mae  tem  os  filhos.  Declaro-lhe,  pois,  Sr. 
Juiz,  que  nao  quero  ver  perdida  a  mae  dos 
meus  netos. 

—  Pois  eu  Ihe  declare  que  permitto  ^ 
mae  de  seus  netos  perder-se  quantas  vezes 
quizer,  retruca  o  homem  da  lei,  concertando  os 
oculos.  E  si  o  senhor  resistir,  tenho  a  men 
lado  a  forga .  .  . 

Nao  e  deliciosa  essa  organisagao  social 
que  prohibe  uma  menor  de  disp6r  do  que  e 
muito  seu,  e  Ihe  da  licen^a  para  fazer  o  que 
entender  no  dia  em  que  ella  f6r  mae,  isto  6> 
quando  ella  merece  maiores  cuidados  ? 


O  quinto  mandamenta 


O  que  faz  suppor  que  no  Rio  se  assassina 
demais  6  a.  importancia  que  osjornaes  dispen- 
sam  is  noticias  de  assassinatos.  No  Rio  nao 
se  mata  demasiadamente.  Mata-se  o  que  i 
possivel.  E  nao  se  mata  mais,  porque  nao  se 
deseja.  O  Rio  e  cidade  santa.  A  protec9ao 
que  Deus  nos  dispensa  e  escandalosa.  Temos 
uma  Saude  Publica,  que  pouco  se  incommoda 
com  a  hygiene,  e,  apezar  disso,  vamos  viven- 
do  mais  ou  menos  livres  de  epidemias.  Pro- 
tecgao  divina .  .  .  Com  o  policiamento  dd-se  o 
mesmo.  Guardas-civis — escassos ;  soldados — 
poucos  e  mal  distribuidos.  Pois  apezar  disso 
vamos  vivendo  como  Deus  e  servido.  Li  uma 
vez  por  outra  o  Dente  de  Ouro  da  uma  facada 
no  Canella  Secca^  mas  isso  nao  tem  importan- 
cia. E'  para  distrahir  um  pouco  os  leitores  dos 
jornaes.  De  quando  em  vez  tambem  o  Ca- 
nhoto  combina  com  o  Mao  de  Gato  um  assalto 


68  VERDADES   INDISCRETAS 

a  uma  joalheria  ou  a  umacasa  de  familia.  Rou- 
bam  algumas  joias  e  roupas  servidas  e  safam- 
se  docemente.  Que  tern  isso  ?  Nada.  Peque- 
nos  prejuizos,  em  comparagao  do  muito  que 
OS  criminosos  podiam  fazer  no  Rio  si  o  qui- 
zessem.  Si  nao  fossemos  gente  de  b6a  indole, 
ja  nao  morava  ninguem  nesta  cidade.  E  que- 
rem  a  provade  que  somos  gente  b6a?  Basta  con- 
siderar  o  quanto  nos  impressionamos  ainda  por 
ter  um  valente  qualquer  baleado  um  compa- 
nheiro  na  Gambda;  e  tanto  nos  impressiona- 
mos que  OS  jornaes  abrem  columnas  com  esse 
facto  minimo.  Si  o  publico  nao  ligasse  impor- 
tancia  a  isso,  os  jornaes  nao  o  explorariam . 
E'  claro.  E  dessa  importancia  que  os  jornaes 
dao  aos  assassinatos  e  que  parece  nascer  a 
convicgao,  em  que  estao  muitos,  de  que  no 
Rio  se  mata  demasiadamente.  E'  engano. 
Ainda  nao  se  mata  o  que  se  devia  matar  em 
relagao  a  falta  de  instrucgao  e  de  policia.  Fu- 
turamente,  tenhamos  fe  em  Deus,  havemos 
de  matar  muito  mais.  .  . 


O  14  de  tlulho 


Si  Mirabeau  podesse  resuscitar,  tomar  o 
trem  ate  o  Havre,  ou  Bolonha,  ou  Bordeos, 
e,  num  desses  portos,  entrar  num  paquete,  vir 
ao  Rio,  descer  ali  no  caes,  simplesmente,  mo- 
dernamente,  como  fez  Anatole  France,  eu  s6 
desejava  uma  coisa:  que  com  elle  viesse  tam- 
bem  Augusto  Comte. 

Num  dia  14  de  julho  como  este,  um  gru- 
po  de  patriotas  foi  a  Bastilha,  velha  prisao 
de  Estado  naquelle  dia  defendida  por  um 
punhado  de  soldados  mais  ou  menos  somno- 
lentos.  Esse  grupo  tomou  a  cidadellasem  gran- 
de  esfor^o,  soltou  os  presos  (crimes  commuos) 
que,  segundo  parece,  nao  chegavam  a  dez. 
Ficou  assim  fundadaa  Fraternidade.  Fundada 
a  Fraternidade,  parece  houve  muita  genteque 
nao  concordou  com  ella.  Os  homens  da  Revo- 
lugao.para  garantirem  a  estabilidade  dos  senti- 
mentos  fraternaes  no  Universo  em  geral  e  na 


70  VKRDADBS  INDISCRETAS 

Fran9a  em  particular,  montaram  por  isso  uma 
guilhotina  e  declararam:  «Quem  nao  f6r  frater- 
nal mire-se  neste  espelho ! »  Si  nao  mentem  as 
chronicas,  muitos  milhares  de  homens  e  mu- 
Iheres  nao  foram  fraternaes,  porque  a  guilho- 
tina funccionou  diariamente  em  toda  a  Franga, 
durante  muito  muito.  Ora  bem  —  um  dos 
maiores  impecilhos  que  encontrava  a  Frater- 
nidade  eram  os  padres.  Os  padres  eram  frater- 
naes ;  mas  a  sua  fraternidade  era  diiferente  da 
dos  revolucionarios.  Por  exemplo ;  os  revolu- 
cionarios,  por  causa  da  sua  fe,  degollavam;  os 
padres,  por  causa  da  sua  f^,  queimavam.  Di- 
vergencia  de  systema  somente ;  mas  em  mui- 
tos casos  €  impossivel  distinguir  o  systema  do 
fundo  da  questao.  Naquelles  tempos  essas  e 
outras  coisas  se  confundiam.  Os  61hos  da  Re- 
volu9ao,  pois,  degoUaram  padres,  frades  e 
freiras;  e  decretaram  que  nao  havia  mais  Deus. 
Dixit  insipiens  in  corde  suo  :  Non  est  Deus  / 
S6  existia  a  Razdo,  Mas  era  precis©  symboli- 
sar  materialmente  a  deusa  Razdo.  Como?  Pe- 
garam  de  uma  rapariga,  tiraram-lhe  a  roupa  e 
a  collocaram,  dizem  que  nua,  no  altar-m6r  de 
Notre  Dame.  Nunca  a  razao  humana  foi  tao 
bem  representada.  Uma  mulher  nua  e  a  razdo 
pratica  em  todo  o  seu  esplendor . . .  Ora,  pas- 
sam-se  cento  e  poucos  annos.  Si  Mirabeau 
viesse   ao   Rio,  podia  ler  nos  jornaes  que  os 


O    14   DK  JUI.HO  71 

seus  patricios  domiciliade^  no  Rio  mandaram 
celebrar  hoje  uma  missa  por  alma  dos  france- 
zes  mortos  na  guerra.  O'  manes  de  Demou- 
lins,  de  Robespierre,  de  Marat,  de  Danton ! 
Quem  venceu  ?  V6s,  ou  as  freiras  do  Carmelo 
que  mandastes  degollar?  E  Comte  ?  Comte  iria 
^almamente  ali  ao  tempio  da  rua  Benjamin 
Constant  e  diria  ao  sr.  Teixeira  Mendes : 
«Desce  desse  pulpito,  filho.  Cada  vez  menos 
OS  vivos  sao  governados  pelos  mortos.  O  ho- 
anem  se  agita  e  a  Egreja  o  conduz ...» 


Quelque  chose  de  vierge 


Dizem  que  o  maestro  Messager  fez,  em 
palestra,  referencias  pouco  amaveisao  Brasil. 
Nesse  caso,  sejamos  nos  amaveis  para  com 
elle.  E'  simples,  civilisado,  parisiense.  Parece 
que  o  que  mais  aborreceu  aos  jornalistasfoia 
facto  de  Messager,  falando-lhe  Isadora  Dun- 
can das  nossas  aflorestas  virgensu,  terrespon- 
dido:  Oh!  ouif  il  faut  bien  qu  on  trouve  ici 
quelque  chose  de  vierge!  Messager  pareceu  du- 
vidar  de  que  pudesse  haver  aqui  quelque  chose 
de  vierge.  Dahi,  asreclamayoesdos  confrades. 
Pensando  bem,  nao  ha  razao  para  zangas^ 
Neste  mundo  tudo  se  explica  naturalmente . 
Messager  vein  de  Paris,via  Buenos- Ayres.  Ora 
em  Paris,  sabe-o  toda  a  gente>  e  muito  difficil 
e,  por  isso  mesmo,  muito  raro  encontrar  quel- 
que chose  de  vierge — o  que  tambem  se  ex- 
plica,  sem  ser  preciso  recorrer  a  altos  syste- 
mas  de  metaphysica .  .  .    Um  homem  que  vi-^ 


74  VSRDADBS    INDISCRBTAS 

veu  sempre  dentro  da  grande  civilisagao  de 
Paris  estd  tao  pouco  habituado  a  qualquer  coi- 
sa  virgem,  vegetal  ou  nao,  que,  em  chegando 
aos  tropicos,  duvida  de  que  exista  semelhante 
fragilidade  mesmo  nas  florestas...  Em  Fran9a 
existe  uma  floresta,  que  se  chama  Fontaine- 
bleau.  Dizem  que  e  bella.  Mas  ja  esta  percor- 
rida,  explorada,  devassada  em  todos  os  senti- 
dos,  de  deante  para traz  e  de  traz para deante... 
Assim  e  tudo  em  Paris.  Nao  ha  quadro,  morto 
ou  vivo,  que  nao  tenha  sido  exhibido;  nao  ha 
livro,  diirino  ou  humano,  que  ji  nao  tenha  sido 
aberto  e  folheado  em  todos  os  sentidos,  pelo 
direito  e  pelo  avesso;  nao  ha  industria  que 
nao  seja  conhecida;  nao  ha  bainha  que  nao 
leve  espada;  nao  ha  petit  capital  que  nao 
tenha  sido  ou  nao  esteja  sendo  explorado  em 
grosso  ou  a  varejo;  nao  ha  medalha  que  nao 
seja  conhecidissima,  quer  no  verso  quer  no 
reverso .  .  .  Em  Paris  €  assim .  Porque  exigir 
agora  que  Messager  admitta,  sem  mais  exame, 
que  exista  aqui  quelque  chose  de  vierge?  Pois 
si  elle  nao  conhece  'chorographia  nem  flora 
brasileira! .  .  .  Francamente  e  exigir  muito 
do  intellecto  de  um  cavalheiro  que  afinal  s6 
€studou  musica.  .  . 


Amizade  criminosa 


Haveri  quern  condemne  a  Roberto  Leite 
da  Silva,  o  roubador  dos  autos  no  Supremo 
Tribunal;  haverd  quern  o  condemne,  o  que 
nao  me  admira,  pois  por  muito  menos  do 
que  isso  foi  crucificado  Jesus  Christo.  Entre- 
tanto,  e  preciso  dizer  que  Roberto  e  um  typo 
raro.  Amizade  assim,  tao  intima,  tao  ardente 
e  dedicada,  6  amizade  grega.  Traz-nos  a  men- 
te  vagas  reminiscencias  de  Pylades  e  Orestes, 
de  Pythias  e  Damon .  .  .  Bem  sei  que  os  jui- 
zes  julgam  secundum  allegata  et  probata;  e  € 
justamente  por  isso  que  um  juiz  me  causa  tan- 
to  medo  como  uma  fera;  porque  a  fera  me 
ataca,  levada  pela  cegueira  do  seu  instincto 
carnivoro;  o  juiz  me  condemna,  levado  pela 
cegueira  do  seu  instincto  juridico.  E'  um  ani- 
mal perigoso.  Embora  as  diligencias  poli- 
ciaes  tenham  provado  i,  saciedade  que  Rober- 
to s6  tentou  roubar  os  autos  para  inutilisal-os 
e,  por  esse  meio,  livrar  um   amigo  da  prisao 


76  VERDADES    INDISCRETAS 

em  que  se  acha,  os  juizes  com  certeza  hao  de 
querer  condemnal-o.  Pois  que!  Entao  seri 
possivel  absolver  um  individuo  que  tentou 
burlar  pelo  roubo  a  ac^ao  da  Justiga  Publica, 
orgao  autorisado  e  legitime  da  Sociedade  ? 
Mas,  senhores,  o  homem  agiu  por  amizade:  o 
movel  desse  delicto  foi  tudo  quanto  ha  de 
mais  nobre  e  humane.  Que  e  que  constitue  a 
trama  psychologica  do  crime?  A  inten9ao  cri- 
minosa.  Ora,  a  dedicagao  ao  amigo,  que  foi 
o  movel  deste  delicto,  nao  6  intengao  crimi- 
nosa,  pelo  contrario,  e  virtude  spartana.  Nada 
disso  vale  perante  o  juiz,  porque  o  Codigo 
nao  cogita  da  amizade  como  attenuante .  De 
amicitia  non  curat  praetor.  De  maneira  que, 
si  Roberto  tiver  a  felicidade  de  ser  julgado 
por  juizes  que  tenham  o  senso  da  equidade\ 
talvez  nao  o  condemnem  a  fortes  penas;  mas, 
si  tiver  a  desventura  de  cair  nas  garras  de  jui* 
zesque  sejam  integros  e  rectilineos  cultores 
da  Justiga  (isto  e,  do  Codigo),  esta  perdido . 
Entretanto,  ser  amigo  do  Mai  e  muito  mais 
difficil  do  que  ser  amigo  do  Bem.  Ter  solida- 
riedade  com  o  amigo  na  pratica  da  virtude  e 
facil  e  commodo;  p6de  at^  levar  a  um  nicho; 
mas  ter  solidariedade  com  o  amigo  na  pratica 
do  crime,  isso,  sim,  e  que  e  heroico,  porque 
representa  sacrtficio  immediate,  pelo  menos^ 
da  liberdade. 


As  criangas 


Nao  fui  a  Festa  da  Crian^a.  Leio.porem, 
nos  jornaes  que  essa  festa  excedeu  a  todas  as 
espectativas.  Bemdigamos,  pois,  os  coragoes 
dos  que,  durante  algumas  horas,  conseguiram 
fazer  feliz  a  creanga.  Mas,  deuses  do  Olym- 
po,  porque  martyrisar  a  petizada  com  dois 
discursos,  como  fizeram  nessa  tremenda  festa? 
Dois  discursos  e  nao  sei  quantos  hymnos !  A 
criangas,  no  dia  da  sua  festa,  nao  se  falla .  Si 
se  organisa  uma  festa  de  criangas,  fagam-nas 
brincar  a  vontade,  deem-Ihes  musica,  cinema, 
carrossel  e  doces  em  quantidade.  Si  quizerem 
ser  praticos,  ao  mesmo  tempo  que  derem  do- 
ces e  balas  as  criangas,  abram  creditos  nas 
pharmacias  e  nos  consultorios  para  os  paes  que 
forem  pobres .  .  .  Mas,  pelo  amor  de  Deus, 
nada  de  discursos.  Tambem  ja  fui  creanga  e 
detestava  os  discursos  que  me  fallavam  da  Pa- 
tria  e  de  outras  coisas  desagradaveis.   A  Pri- 


78  VBRDADBS   INDISCRBTAS 

mavera  e  uma  figura  de  rhetorica  muito  inte- 
ressante;  mas  num  discurso,  quando  somos 
crian^as,  a  Primavera  e  peor  do  que  o  Verao . 
Efazer  as  criangas  cantar  hymnos  patrioticos ! 
Ha  muita  gente  que  dd  uma  importancia  su- 
persticiosa  aos  hymnos  como  inspiradores  de 
patriotismo.  E'  um  engano.  O  Francez  nao 
tem  patriotismo  por  vir  cantando  a  Marse- 
Iheza  desde  a  infancia,  nao;  pelo  contrario, 
elle  canta  a  Marselheza^^otc^^  €  patriota. 
Quando  eu  era  menino,  cantei  na  escola  mui- 
tas  vezes  um  hymno  ignominioso  que  co" 
mega: 

Seja  um  pallio  de  luz  desdobrado 
Sob  a  vasta  amplidao  destes  c^os . . . 

Pois  ate  hoje  nao  consegui  estimarseme- 
Ihante  cantoria.  Em  resumo  :  reunir  criangas 
num  theatro  para  fazel-as  ouvir  oradores  e 
cantar  hymnos  patrioticos  e  martyrisal-as . 
Festas  de  criangas  devem  realisar-se  em  par- 
ques  ejardins,  com  toda  aliberdadede  acgao 
e  grande  quantidade  de  confeitos.  A  crianga 
estima  acima  de  tudo  estas  duas  coisas  deli- 
ciosas :  liberdade  e  assucar .  .  . 


A  tortura  do  perfume 


«Porque  nao  escreves  contra  o  aperto  de 
mao  aos  conhecidos?  Com  este  calor,  e  hor- 
rivel.  Macs  suadas,  algumas  viscosas ...»  Di- 
ziam-me  hontem  estas  coisas.  De  facto  aper- 
tar  macs  suadas  e  um  supplicio,  mas .  .  .  Ha 
no  aperto  de  mao  uma  tortura  muito  mais  viva 
do  que  a  de  apertar  maos  humidas  de  suor :  e 
a  tortura  da  recordagao  pelo  perfume.  Suc- 
cede  frequentemente  apertarmos  a  mao  a  uma 
mulher  (pouco  importa  que  seja  casada,  ou 
solteira),  de  quern  nao  podemos,  ou  nao  deve- 
mos  nos  lembrar.  Voltamos  para  a  casa,  ou 
para  a  redac9ao ;  assentamo-nos  a  nossa  mesa 
de  trabalho ;  come^amos  a  escrever,  mas  nao 
conseguimos  ligar  ideas.  Ha  em  nos  qualquer 
coisa,  indefinivel  e  mysteriosa,  que  nos  desvia 
o  espirito  para  incertos  rumos.  O  desabrochar 
de  uma  id^a  e  logo  perturbado  por  esse  quid 
secreto.  Accendemos  o  charuto,  chegamos  4 


80  VERDADES  INDISCRETAS 

janella,  olhamos  a  paizagem.  O  effeito  e  ma- 
gico:  as  ideas,  esclarecendo-se,  come^am  a 
brotar  de  novo  com  espontaneidade,  viveza. 
Voltamos  a  mesa,  tomamos  da  penna,  come- 
^amos  a  escrever  e .  .  .  o  primitivo  phenome- 
no  repete-se  :  as  ideas  fogem  docemente  mas 
fogem  de  vez,  desapparecem.  Entao  nos  nos 
voltamos  para  dentro  de  nos  mesmos  e  come- 
gamos  a  fazer  o  exame  de  consciencia.  «Por- 
que  nao  possotrabalhar?»  Mas  o  proprio  exa- 
me e  perturbado ;  ate  que  afinal  descobrimos 
instantaneamente  a  causa  da  perturbagao  :  e 
o  perfume  extranho  que  a  nossa  mao  traz  em 
si,  perfume  que  nao  sabemos  de  onde  nos 
veio .  .  .  Ah !  sim  !  vem  daquella  senhora  cuja 
mao  apertamos  na  Avenida.  Em  casos  taes  o 
recurso  e  simples :  lavar  as  maos.  E'  o  que 
fazemos  e  voltamos  para  a  nossa  mesa,  certos 
de  poder  emfim  trabalhar.  Engano :  o  perfu- 
me foi-se ;  mas  a  lembran9a  da  mulher  foi 
despertada .  .  .  E  a  lembranga  de  uma  mulher 

4  mais  subtil  do  que  qualquer  perfume  da 
Arabia.  Pica  dentro  de  nos,  transformada  ja 
^m  Idea.  Antes  era  o  perfume  que  a  fazia 
lembrada ;  agora  e  ella  que  se  assemelha  a 
11  m  perfume,   a  aquelles  fortes  perfumes  para 

05  quaes,  dizia  Baudelaire,  todo  corpo  e  po- 
roso . 


A  TORTURA   DO   PBRFUMB  81 

II  est  de  forts  parfums  pour  qui  toute  mati^re 
Kst  poreuse.  On  dirait  qu'ils  p^netrent  le  verre... 

Assim,  certas  mulheres :  a  sua  recorda- 
^ao  nos  e  transmittida  pelo  perfume ;  e  depois 
se  transforma,  ella  propria,  em  perfume  sub- 
tilissimo,  que  penetra  no  nosso  ser  como  cer- 
tas essencias  que  se  innoculam  ate  no  crys- 
tal..  . 


Escandalo ! 


Certo  cinema  estd  annunciando  uma  fita 
em  que  uma  mulher  «nao  teme  desnudar-se, 
alheia  a  fascina9ao  que  produz  a  carne ...» 
Nao  me  admira.  Foi  Eva  (dentre  as  mulheres 
cujos  nomes  a  historia  conservou)  que 
inaugurou  esse  systema.  Muita  gente  poderd 
ficar  escandalisada  por  haver  uma  senhora 
«que  nao  teme  desnudar-se,  alheia  d  fascina- 
9ao,  etc ...  »  Eu,  nao.  Tudo  depende  da  for- 
magao  da  consciencia  della.  Santa  Maria  Egy- 
pciaca  fez  mais  do  que  desnudar-se :  entregou 
o  seu  corpo  a  uns  marinheiros .  .  .  sem  pec- 
car.  E'  verdade  que  isto  e  muito  difficil .  E 
Anatole  France,  na  Rotisserie  de  la  Reine 
P^DAUQUE,  tern  a  este  respeito  uma  pagina 
deHciosa.  O  padre  Jeronymo  Coignard  conta 
aos  amigos  da  Rotisserie  este  episodio  da 
vida  da  santa  e  explica  como,  gragas  a  pureza 
de  suas  intengoes,  tinha  feito  sem  peccar  o 


84  VERDADKS   INDISCRSTAS 

que  outras  nao  conseguem  realisar  sem  arris- 
car  a  alma .  .  .  Entao  a  mae  de  Jacques  Tour- 
nebroche,  une  sainte  et  sage  femme,  exclama 
pouco  mais  ou  menos :  « Ah !  eu  nao  me  atre- 
veria  a  isso !  Sem  peccar !  E'  precise  ser  mui- 
to  santa  parachegar  a  tal  perfeigao!))  Tudo, 
pois,  depende  da  formagao  da  consciencia, 
que  e  coisa  singularmente  elastica.  Entre  os 
romances  de  Voltaire  ha  um  que  e  a  histo- 
ria  de  Cosi  Sancta,  uma  austera  e  formosa 
creatura  que  commetteu  conscientemente  tres 
adulterios  que  valeram  por  actos  heroicos  de 
virtude,  e  justamente  por  isso  foi  ella  canoni- 
sada !  Bem  entendido,  factos  assim  sao  exce- 
pgoes.  Digo  isto,  precavidamente,  porque, 
apezar  de  nao  haver  ainda  no  calendario  nem 
uma  santa  brasileira,  temo  que  alguma  das 
minhas  patricias  queira  obter  agraga  de  Deus 
nas  condigoes  de  Santa  Maria  Egypciaca,  ou 
ser  canonisada  pelos  mesmos  motivos  que  va- 
leram uma  aureola  e  um  nicho  a  Cosi  Sancta... 


Destemperos  de  Linguagem 


Ja  se  tern  dito  muitas  vezes  que  a  nossa 
imprensa,  no  que  toca  aos  habitos  adoptados 
entre  gente  limpa,  regrediu.  Os  jornaes  anti- 
gos  nao  usavam  da  virulencia  adoptada  hoje. 
Nao  posso  dar  testemunho  disso,  porque  nao 
fui  leitor  dos  jornaes  antigos.  Mas  nao  havera 
uma  razao  que  explique  esse  phenomeno  de 
regressao  da  nossa  imprensa?  Parece  que 
ainda  e  preciso  recorrer  a  lei  de  Taine :  o 
meio.  .  .  A  imprensa  nao  e  mentora,  mas 
simples  reflexo  da  opiniao.  DiziaEmilio  de  Gi- 
rardin  que  um  jornal  e  feito  muito  mais  pelos 
seus  leitores  do  que  pelos  sens  redactores.  E' 
perfeitamente  exacto.  Os  jornaes  nao  pro- 
curam  crear  correntes  de  opiniao,  mas  apenas 
adivinhar  para  que  lado  ira  o  publico,  afim  de 
adherir .  .  .  E  como  o  publico,  no  maior  volu- 
me da  sua  massa,  ainda  e  grosseiro,  os  jor- 
naes serao  fatalmente  grosseiros,  para  pode- 


86  VERDADES    INDISCRBTAS 

rem  agradar  e  ter  saida ...  Os  jornalistas 
francezes,  por  exemplo,  raramente  alteiam  a 
voz.  Porque?  Porque  o  nivel  mental  e  social 
dos  seus  leitores  nao  exige  brados  para  poder 
comprehender  razoes ;  basta  por  isso  que  os 
jornaes  indiquem,  ds  vezes  numa  simples  sug- 
gestao,  o  que  Ihes  parece  mais  acceitavel . 
Aqui  s6  e  ouvido  quem  grita.  Estamos  numa 
terra  de  surdos  intellectuaes .  .  .  E  a  pro- 
posito  de  destempero  de  palavras,  li  no 
Journal  um  caso  elucidative.  Foi  chamada 
a  juizo,  em  Paris,  uma  mulher  do  povo  que, 
brigando  com  uma  sua  visinha,  de  janella  para 
janella,  disse,  no  auge  da  colera,  esta  phrase : 
Si  ton  mari  est  creve  sur  le  fronts  cest  bien 
fait!  A  offendida  queixou-se  d  policia.  Tes- 
temunhas  affirmam  que  a  rapariga  proferira  a 
phrase .  Ora  o  marido  da  injuriada  morreu  ha 
alguns  mezes  na  guerra.  Em  vista  disso,  o 
juiz  condemnou  a  accusada  por  intemperance 
de  langage  a  seis  dias  de  prisao  e  a  pagar  cem 
francos  a  offendida  por  damno  moral ;  e  o 
Journal  approva  muito  a  energia  do  juiz,  que 
nao  deixou  ficar  sem  vinganga  a  viuva  d!un 
brave  mort  pour  la  France,  bravo  aliis 
obscurissimo  e  humilde.  Este  facto  dd  id^a  do 
que  se  exige  na  Franga,  quanto  a  medida  que 
se  deve  observar  no  jogo  das  palavras,  mesmo 
quando  se  injuria .  .  . 


O  nu  symboUco. .. 


Chamava-se  Serafim  Dias  e  era  um  sym- 
bolo  nacional.  Tendo  bebido  mais  do  que 
Ihe  permittiria  a  Escola  de  Salerno,  ou  ain- 
da  a  Universidade  de  Coimbra,  foi  Serafim 
ao  largo  do  Rocio,  saltou  o  gradil  da  es- 
tatua  de  Pedro  I,  o  Libertador,  grimpou  como 
um  simio  pelos  indios  e  pilastras  acima  e  attin- 
giu  o  cavallo.  Era,  entretanto,  pouco  para  o 
civismo  de  Serafim.  Um  cidadao,  quando 
chega  a  tal  estado  de  enthusiasmo  patriotlco, 
carece  de  mais.  Serafim,  nao  contente  de  ca- 
valgar  o  cavallo,  entendeu  que  convinha  aman- 
sar  o  cavalleiro ;  e  la  se  foi  pelo  imperador  a 
riba  ate  o  capacete,  onde  se  assentou  tao  com- 
modamente  como  um  prelado  na  sua  cadeira 
prelaticia.  Essa  quieta9ao,  por^m,  durou  pou- 
co. Si  grande  era  o  desejo  de  descansar  do 
esforgo  da  subida,  maior  era  o  endiusiasmo 
de  Serafim,  que  se  levantou  e  ficou  de  p^  so- 


88  VBRDADES   INDISCRETAS 

bre  o  imperial  chapeo  armado,  isto  depois  de 
arrancar  toda  a  roupa  que  trazia  (e  que  nao 
era  muita),  a  ponto  de  poder,  si  soubesse  la- 
tim  bradar  como  Job  :  Nudus  egressus  sum  e 
ventre  matris  me<B !  Mas  em  vez  desta  ti- 
rada  biblica,  Serafim,  de  pe,  sobre  a  cabega 
do  Libertador,  bradou  aos  quatro  ventos  da 
praga:  «Sempre  fui  monarchista  e  admirador 
de  Dom  Pedro  I,  que  deu  liberdade  a  esta 
terra !»  Ca  em  baixo,  o  povileo,  numeroso  e 
compacto  a  ponto  de  interromper  o  transito, 
apoiava  e  ria-se .  O  nosso  povo,  sempre  que 
se  trata  de  applaudir  discursos  patrioticos,  tem 
o  singular  costume  de  sublinhar  cada  apoiado 
com  uma  gargalhada.  Mas  o  enthusiasmo  de 
Serafim  ainda  nao  estava  satisfeito.  Do  Capi- 
tolio  a  Rocha  Tarpeia,  segundo  ja  proclamava 
ha  quarenta  annos,  no  largo  de  S.  Francisco, 
o  sr.  Lopes  Trovao,  vae  apenas  um  salto.  A 
mesma  distancia  provou  hontem  Serafim  que 
vae  do  capacete  do  Libertador  ate  o  exemplar 
da  Constituigao  que  elle  offerece  aos  povos 
agradecidos.  De  um  salto  elle  conseguiu  ape- 
gar-s«  a  Carta ;  e  ali  mesmo,  sustentado  pelo 
brago  armipotente  de  Pedro  I,  executou 
varias  manobras  de  malabarista,  dando 
cambalhotas,  ficando  preso  ora  por  um  bra9o, 
ora  por  uma  perna,  dando  gyros  successivos  e, 
uma  vez  que   estava  nii,   fazendo  pensar  no 


O  N^  SYMBOI^ICO.  .  .  89 

Sino  phantasma  do  sr.  Augusto  de  Lima,  o 
qual  termina:  a  A  badalar!  A  badalar!.  .  .» 
Ate  que  depois  de  uma  hora  desses  exercicios 
gymriasticos,  chegaram  osbombeiros  e  encer- 
raram  a  sessao,  fazendo  Serafim  descer  e  le- 
vando  opara  a  delegacia.  Symbolo  magnifico, 
o  Serafim !  Os  nossos  patriotas,  sempre  que 
querem  mostrar  aos  povos  o  seu  patriotismo, 
dao  cambalhotas  e  fazem  malabarismos  na 
Constituigao  da  Republica,  exactamente  como 
Serafim,  por  excesso  de  monarchismo  e  vi- 
nho,  fez  piruetas  clounescas  no  bra9o  do  Im- 
perador. . . 


Amor  e  Poesia 


Jel  se  tern  escripto  que  o  amor  e  a  poesia 
vao  morrendo  no  Brasil.  E'  natural  que,  mor- 
rendo  o  amor,  tambem  morra  a  poesia,  que  6 
quasi  sempre  inspirada  por  aquelle.  Emquan- 
to,  porem,  se  annuncia  a  morte  da  poesia,  sur- 
gem  diariamente  por  to  do  este  paiz  centenas 
de  livros  de  versos.  Verdade  e  que,  desses 
livros,  raros  se  aproveitam ;  e,  desses  raros, 
poucas  composi96es  se  salvam.  Em  todo  o 
caso,  posto  que  a  maioria  dos  livros  de  versos 
sirva  apenas  para  fabricar  bombas,  nao  se  pode 
negar  que  elles  representem  pelo  menos  uma 
intengao  clara  e  positiva  de  cultivar  a  poesia. 
De  maneira  que  esta  arte,  emquanto  vae  sendo 
dada  como  agonisante,  prospera,  quando  mais 
nao  seja,  para  dar  lucro  aos  impressores,  pois 
6  sabido  que  a  quasi  unanimidade  dos  livros 
de  versos  imprime-se  d  custa  dos  autores .  .  . 
E  o  amor  estd  morto  ?  Alguns  dizem  que  elle 


92  VBRDADES   INDISCRETAS 

SO  existe  actualmente,  verdadeiro  e  sincere, 
entre  as  classes  menos  cultas  da  sociedade, 
ainda  nao  eivadas  de  scepticismo.  Ora  os  fa- 
ctos  vao  provando  o  contrario.  Ainda  ha  pou- 
cos  dias,  em  S.  Paulo,  um  jornalista  e  poeta, 
um  intellectual,  atirou  na  amante  e  suicidou-se 
em  seguida.  .  .  por  paixao.  E'  verdade  que 
entre  as  classes  cultas  o  amor  e  menos  explo- 
sivo  que  entre  as  pessoas  humildes.  Estas  ma- 
tam-se  ainda  frequentemente  por  ciume.  E  a 
este  respeito  notemos  como  e  curiosa  a  nossa 
concepgao  do  amor ;  julga-se  que  o  amor  e 
tanto  mais  forte  e  sincero  quanto  mais  louco 
torna  o  apaixonado.  Si  este,  ao  saber  que 
a  amante  o  trahiu,  nao  commeteu  um  desa- 
tino  qualquer,  logo  pensam  todos  que  elle 
nao  a  amava  mais.  Si,  ao  averiguar  a  trahi- 
gao  da  amante,  o  trahido  matou-a,  ah  !  entao, 
sim :  tinha-lhe  grande  amor !  E  o  mais  in- 
teressante  e  que  as  mulheres  adoptam  esta 
theoria,  que  ate  ja  passou  para  a  arte  e  para 
a  anecdota.  Na  Sapho,  de  Daudet,  quando 
Jean  Goussin  da  a  bofetada  em  Fanny,  ella  se 
sente  encantada  e  exclama :  «Como  tu  me 
amas  ainda,  Joao ! »  E  e  conhecida  tambem  a 
historia  daquella  portugueza,  que  tinha  grande 
paixao  por  um  brutamontes  que  Ihe  escovava 
o  pello  com  certa  frequencia.  Succedeu  que 
o  homem  por  motivos  ignorados.  resolveu 


AMOR   E  POKSIA  93 

nao  bater  mais  na  rapariga ;  ella,  depois  de 
passar  varies  dias  sem  levar  sovas,  poz-se  um 
dia  a  chorar.  E  a  uma  amiga  que  Ihe  pergun- 
tou  pelo  motive  de  tantas  lagrimas,  res- 
pondeu : 

—  E*  que  o   meu  homem  ja  me  nao 
ama! 

—  Ah  disse-t'o  ?  abandonou-te  ? 

—  Nao !  Mas  ja  me  nao  bate  ! 


O  mal  existe? 


O  revmo.  padre  dr.  Joao  Gualberto  da 
Amaral  fez  uma  conferencia  sobre  a  Ori- 
gem  do  Mal,  de  que  li  o  resumo  nos^^ 
matutinos.  A  existencia  do  mal  no  Universe 
e  as  conclusoes  pessimistas  que  dahi  se  p6- 
dem  tirar  t^m  sido  objecto  de  tantos  estudos, 
discussoes,  meditagoes,  classificagoes,  affirma- 
96es  e  negagoes,  que  devemos  consideral-a 
um  dos  mais  serios  problemas  da  Vida .  Para 
Leibnitz  e .  .  .  Plangloss,  estamos  no  melhor 
dos  mundos.  Para  Schopenhauer  e  Hartmaniv 
estamos  no  peor  de  todos.  Para  os  philoso- 
phos  catholicos,  como  S.  Thomaz,  estamos  na 
mundo  que  nos  convem,  porque  foi  Deus  que 
dispoz  que  aqur  estivessemos ;  ora  Deus  e  sa- 
bio ;  logo  dispondo  que  estivessemos  neste 
planeta,  acertou,  como  sempre...  O  syllogis- 
mo,  perante  as  leis  da  Logica,  esta  certb ;  res-^ 
ta,  porem,  demonstrar-lhe  as  premissas ... 


^6  VERDADBS   INDISCRETA.S 

Os  philosophos,  nao  tendo  certeza,  pa- 
rece,  da  existencia  do  mal,  dividiram-no  em 
varias  categorias :  o  mal  physico,  o  mal 
moral  e  o  mal  metaphysico. 

A  meu  ver,  para  os  philosophos  sadios 
e  felizes,  o  mal,  si  existe,  e  sempre  meta- 
physico. O  mal  physico  e  o  mal  moral  so 
existem  para  os  pobres  que  soffrem  nos 
hospitaes ;  para  os  que  soffrem  nas  prisoes  e 
penitenciarias ;  para  os  que  padeem  os 
horrores  da  guerra;  para  os  que  definham 
em  penas  de  amor .  .  .  Charles  Richet,  citado 
pelo  dr.  Joao  Gualberto,  nao  podendo  ne- 
^ar  que  a  Dor  exista,  descobriu-lhe  a  fina- 
lidade :  e  a  sentinella,  a  defesa  da  Vida .  .  . 
Ora  aqui  e  que  deviamos  perguntar:  e  ou 
nao  e  mau  um  mundo  em  que  a  Vida,  que 
e  um  bem  para  defender-se  da  Morte,  que 
e  um  mal,  nao  achou  outro  meio  sinao  re- 
correr  a  outro  mal,  que  e  a  Dor?  Pergunto 
apenas.  Nao  concluo  coisa  alguma.  Nisto, 
como  em  outras  coisas,  obede^o  ao  conselho 
de  Frederico  Amiel :  nao  tirar  conclusoes.  .  . 
Sao  Thomaz,  que  concluia  de  tudo,  conseguiu 
°subordinar  a  consciencia  universal  is  suas 
conclusoes  ! .  .  .  E  Schopenhauer,  que  tirava 
conclusoes  pessimistas  desde  os  seus  pri- 
cneiros  trabalhos ;  elle,  que  concluia  por  exi- 
gir   o   exterminio    da  Vida  pelo  ascetismo, 


O   MAI.   EXISTE?  97 

ao  mesmo  tempo  que  firmava  taes  theorias,nao 
destruia  na  pratica  toda  a  sua  philosophia 
com  o  nascimento  de  um  filho  bastardo? .  .  . 
Por  isso  digo  que  6  perigoso  concluir .  .  .  O 
que  parece  certo  e  a  existencia  do  Mai.  Si, 
por  isso,  o  mundo  e  mau,  e  mais  difficil 
responder.  O  pensamento  de  Metschnikoff, 
citado  pelo  dr.  Amaral,  e  curioso  :  «Dos  tu- 
mores  malignos  nao  se  p6de  deduzir  prova 
importante  em  favor  da  concepgao  pessimis- 
ta  do  Universo.))  E'  muito  interessante,  mas 
eu  quizera  conhecer  o  que  pensaria  deste 
conceito  um  homem  que,  sendo  sabio 
e  philosopho,  ao  mesmo  tempo  tivesse 
pelo  corpo  meia  duzia  de  tumores  ma- 
lignos. .  . 


Bddas  e  Pezames 


— Ha  duas  situa^oes  sociaes  capazes  de 
inspirar  terror  :  a  situa9ao  de  noivo  e  a  de 
representante  da  familia  de  um  defunto,  lo- 
go depois  da  missa  do  setimo  dia.  Um  noi- 
vo, so  por  si,  ja  6  uma  figura  vagamente  ri- 
dicula,  pela  maneira  por  que  e  pretendente  : 
solicitando  a  a  mao  da  noiva»  por  intermedio 
de  terceiros;  fazendo-lhe  uma  primeira  visita, 
toda  cheia  de  timidez  e  commogao,  fiscalisa- 
do  pelos  paes  ou  pelos  irmaos  pequenos  duran- 
te o  tempo  em  que  elle  estci  na  sala,  no 
jardim,  ou  no  alpendre  com  a  promettida.  Jun- 
te-se  a  esta  carga  de  ridiculo  intimo  a  sobrecar- 
ga  das  pompas  mundanas  de  um  casamento 
entre  n6s  e  teremos  a  medida  mais  ou  me- 
nos  exacta  do  constrangimento  moral  de 
um  noivo,  si  elle  e  homem  de  sensibilidade . 
Eu  nao  sei  realmente  como  um  homem  nao 
estoura  de  vexame,  quando  se  mette   com  a 


100  VERDADBS   1NDI3CRETAS 

noiva  num  lando  enfeitado  de  flores  de  la- 
ranjeira  e  puxado  por  parelhas  de  cavalloes 
brutaes,  de  patas  pintadas  de  brancc  cheios 
de  guisos  e  chocalhos  e  chiquechiques  que 
fazem  barulho  de  feira  e  recordam  os  pa- 
Ihagos  que  no  interior  saem  a  rua  annunci- 
ando  espectaculo  no  circo  equestre .  Casos 
desses  justificam  o  suicidio,  .  . 

Outra  situa9ao  desesperadora  e  a  de  pessoas 
que  convidam  os  amigos  para  ouvirem  missa 
de  setimo  dia  por  alma  dos  mortos  queridos 
Quer  aqui  no  Rio  quer  no  interior,  manda  a 
etiqueta  que,  depois  da  missa,  todos  os  con- 
vidados  se  approximem  das  ^pessoas  da  fa- 
milia))  e  as  abracem.  Come^a,  entao,  para 
cavalheiros  e  senhoras  da  familia  do  defun- 
ct©, um  supplicio  de  que  nao  cogitou  a  In- 
quisi9ao :  abrir  mecanicamente  os  bragos, 
receber  entre  elles  quem  quer  que  se  ap- 
proxime,  apertar  um  pouco  essa  pess6a  e 
dar-lhe  nas  costas  as  tres  palmadinhas  do  es- 
tylo,  murmurando:  «Muito  obrigadob)  Esta 
bem  visto  que  esses  abra9os  nada  signifi- 
cam  de  parte  a  parte,  quanto  a  sinceridade  ; 
porque,  em  consciencia,  e  impossivel  que  qui- 
nhentas  pess6as,  sete  dias  depois  da  morte 
de  um  cidadao  de  quem  nao  sao  parentes, 
ainda  estejam  commovidas.  .  . 

De  maneira  que  essa  etiqueta  inquisi- 


BODAS  E  PEZAMES .  .  .  101 

torial  e  ridicula  so  produz  um  effeito:  ajuntar 
um  tormento  physico  ao  supplicio  moral  da 
familia.  Eis  porque  comprehendi  perfeita- 
mente  a  attitude  de  certa  familia  de  b6a  so- 
ciedade,  que,  convidando,  ha  tempos,  as  suas 
rela9oes  para  uma  missa  de  setimo  dia,  de- 
clarou  rios  convites  que  dispensava  o  abra90 
do  costume;  bastando  que  cada  um  dos  as- 
sistentes  deixasse  o  seu  nome  num  livro 
adrede  collocado  a  porta  da  Egreja .  Eis  o 
que  devia  ser  geralmente  adoptado;  uma 
vez  que  o  abra90  e  apenas  a  prova  de  que 
F.  fez  acto  de  presenga,  substitua-se  o  abra- 
90  pela  assignatura  num  livro.  Lucra  a  fami- 
lia, que  se  livra  de  uma  tortura,  e  lucram  os 
assistentes,  que,  depois  de  assignarem  o  no- 
me no  tal  Registro  de  Pezames,  podem  fu- 
gir  tranquillamente  a  massada  de  uma  missa 
funebre.  .  .  Podemos  ficar  certos  de  uma 
coisa :  e  que,  se  si  invertessem  os  papeis, 
quero  dizer,  si  fossemos  nos  que  estivessemos 
na  cova,  e  si  o  defuncto,  que  alids  nao  seria 
defuncto,  fosse  a  nossa  missa  de  setimo  dia, 
faria  o  mesmo,  isto  e,  assignava  o  nome  na 
lista  e  fugia  pela  porta  da  sacristia .  .  . 


Elogios. . 


O  que  mais  nos  deve  atterrar  no  paiz, 
como  phenomeno  social,  e  a  falta  de  sinceri- 
ridade.  Cada  um,  naclasse  a  que  pertence  p6- 
de  verificar  facilmente  ate  que  ponto  chega 
a  falsidade,  a  dobrez  entre  n6s.  Pelo  que  se 
passa  na  classe  dos  escrevedores  imagino  o 
que  ira  por  outras  bandas.  Quern  tiver  um 
pouco'  de  perspicacia  poderd,  pela  simples 
ieitura  dos  jornaes,  avaliar  a  quantum  de 
falsidade  entra  nos  elogios  que  se  tributam 
a  certos  livros.  Quando,  ao  abrirmos  pela 
manha  um  jornal,  encontramos  um  artigo 
"vastamente  elogioso  a  qualquer  livro,  antes 
de  tudo  indaguemos:  «Que  posigao  social 
tem  o  autor  deste  livro? »  Veremos  que, 
em  noventa  e  nove  casos  sobre  cem,  o  au- 
tor e  da  casa  civil  da  presidencia,  (ou  parente 
de  alguem  da  casa  civil);  €  official  de  gabinete 
de  algum  ministro;  filho  de  algum  senador, 


104  VKRDADKS    INDISCRETAS 

diplomata,  ou    deputado;  genro,   irmao,   ou 
cunhado  de  algum  alto   dignitario  do   Regi- 
men que  nos  felicita.    Ou    entao   sera  fatal- 
mente  mulher.  .  .  Fora  desses  casos,  sao  mui- 
to  elogiados  tambem  os  livros  de  medicos    il- 
lustres.  Geralmente    os    medicos    escrevem 
mal,     da   mesma  sorte    que   os    escriptores 
nao  sabem  curar.    Isso,    porem,    pouco    im- 
porta.  E'  livro  de    medico?    Elogia-se,  ainda 
que  o  livro  seja  um  tecido  de  logogryphos  e 
enigmas  pittorescos.  Assim  se  explica    que  a 
Academia  de  Letras  se  encha  de    medicos, 
emquanto  homens   como  Farias  Britto   mor- 
rem  ignorados.  Si  o  sr.  Farias  Britto,  em   vez 
de  estudar  a  Logica  de  Stuart  Mill  e  a  Ethica 
de  Spinoza,  tivesse  procurado  ser  apanigua- 
do  de   qualquer  ministro,  todos  os  prelos  te- 
riam     gemido     cada    vez    que   apparecesse 
um  livro  seu.  Com  logica  e  ethica  nao  se  apa- 
nham  elogios  da  imprensa,   senao   com   em- 
pregos,  dinheiro  e  as  vezes  com  simples   pro- 
messas  e  esperangas .  .  . 


Paz  aos  idolatras 


Li  num  dos  nossos  matutinos  um 
artigo  firmado  por  uma  senhora  (creio  que  e 
pseudonymo),  que  ataca  o  culto  das  imagens, 
dizendo  ser  isso  acto  de  idolatxia.  Eis  ahi  uma 
senhora  curiosa:  6  contra  o  culto  das  ima- 
gens por  nao  querer  ser  idolatra !  Recusara 
tambem  essa  calvinista  ser  idolatrada,  isto  e, 
ser  alvo  da  idolatria  de  alguem?.  .  .  Depen- 
de  da  sua  edade.  E  como  nao  a  conhe90, 
nao  o  posso  decidir.  .  . 

O  que  achei  interessante  foi  a  coinci- 
dencia :  essa  senhora  ataca  o  culto  das  ima- 
gens justamente  no  dia  em  que  vao  asforgas 
navaes  prestar  continencia  d  imagem  do  al- 
mirante  Barroso,  o  vencedor  da  batalha  do 
Riachuelo.  As  nossas  pragas  estao  cheias  de 
imagens,  que  recebem  culto  civil.  As  nos- 
sas casas  estao  cheias  de  imagens  (retratos) 
de  entes  queridos,  que  recebem  culto  domes- 


106  VBRDADBS   INDISCRETAS 

tico.  Porque   nao  admittir  nas  egrejas  ima- 
gens  que  recebam  culto  religioso  ? 

Porque  isso  e  acto  de  idolatria ! 

Dizem  os  theologos  que  nao.  No  catho- 
licismo  ninguem  adora  as  imagens ;  venera-as 
s6mente.  Demos,  porem,  de  barato  que  os 
catholicos  adorem  as  imagens,  como  os  pre- 
tos  adoram  1^  os  seus  manipangos.  Que  mal 
vae  nisso?  Nao  advem  sombra  de  prejuizo 
ao  mundo.  Realmente  nao  vejo  em  que  a 
especie  humana  sera  prejudicada  pelo  facto 
do  meu  visinho  da  direita  venerar  uma  ima- 
gem,  o  da  esquerda  adoral-a,  e  eu  nem  a  ado- 
rar  nem  a  venerar,  mas  apenas  tolerar  e  res- 
peitar  aquelles  que  a  adoram,  ou  simplesmen- 
te  a  veneram. 

Demais,  si  ha  idolatria  no  culto  catholico 
das  imagens,  tern  sido  uma  idolatria  benefica, 
tal  o  numero  de  bellas  estatuas,  verdadeiros 
primores,  que  tem  inspirado  essa  idolatria 
como  se  pode  ver  nas  velhas  cathedraes  ita- 
lianas  e  francezas  por  exemplo.  Tenho  mui- 
to  mais  sympathia  pela  idolatria  fecunda  do 
catholicismo  do  que  pela  seccura  protestan- 
te,  que  se  limita  a  vulgarisar  a  Biblia .  .  .  Em 
resumo — nao  vejo  mal  na  idolatria  catholica 
(si  de  facto  existe),  como  nao  vejo  mal  nados 
selvagens  nem  na  dos  gregos  oh !  pelo  contra- 
rio :  quem  nos  dera  poder  ser  idolatras  como 
OS  hellenos ! . . . 


A  tyrannia  democratica 


Mudam-se  os  rotulos  aos  systemas  de 
governar  os  homens,  mas  esses  systemas  nao 
progridem,  pelo  menos  no  Brasil.  Na  Eu- 
ropa,  em  certos  paizes,  a  civilisa^ao  e  o  cul- 
to  do  direito  jd  nao  permittem  a  existencia  de 
tyrannos  de  certa  casta.  Na  Italia  de  hoje, 
por  exemplo,  e  impossivel  a  existencia  de 
Cesar  Borgia.  Ha  leis  severas  que  punem  os 
assassinos,  os  envenenadores,  os  traidores ;  e 
essas  leis  sao  rigorosamente  observadas.  Si  o 
principe  herdeiro  da  Italia  fosse  accusado 
de  ter  mandado  matar  um  cidadao  secreta- 
mente,  que  complica96es  isso  acarretaria  para 
o  throno !  Si  o  principe  de  Galles  fosse  accu- 
sado de  qualquer  crime  provado,  nao  falta- 
riam  no  Reino  Unido  juizes  que  o  condem- 
nassem.  E'  que,  em  paizes  como  a  Italia,  a 
Franga,  a  Inglaterra,  o  direito  nao  e  fic- 
^ao,  e  realidade  ;   ajustiga  nao  e  abstrac9ao, 


108  VERDADES    INDISCRETAS 

6  valor  corrente.  Alguns  seculos  de  civilisa- 
9ao  deram  a  esses  povos  perfeita  consciencia 
dos  seus  direitos  e  deveres,  dentro  da  <rcon- 
sciencia  nacionab)  de  cada  um.  E'  o  que  nos 
falta:  a  « consciencia  nacional» .  So  depois 
que  ella  estiver  formada  e  que  sera  possivel 
pensar  da  fundagao  de  um  regimen  politico 
qualquer.  Temos  aqui  uma  «republica  fede- 
rativa»  ;  temos  Constituigao,  Congresso,  mi- 
nistros.  tribunaes,  batalhoes,  emfim  todo 
o  apparato  exterior  dos  povos  bem  or- 
ganisados.  Apenas  essa  Constituigao  nao 
e  cumprida ;  esses  ministros  nao  t^m  respon- 
sabilidade ;  esse  Congresso  estd  desmorali- 
sado;  esses  tribunaes  nao  inspiram  confianga; 
esses  batalhoes  nao  sabem  combater;  esses 
navios  nao  podem  navegar.  Toda  a  machina 
politica  e  administrativa  esta  emperrada .  S6 
ha,  neste  paiz,  uma  instituigao  seria,  estavel, 
permanente,  bem  equilibrada  e  respeitada; 
a  das  olygarchias  quer  dos  grandes  quer  dos 
pequenos  Estados.  Essas,  sim,  existem  e 
funccionam  admiravelmente.O  filho  do  olygar- 
cha,  si  Ihe  appetecer,  pode  mandar  raspar  a 
cabega  de  qualquer  cidadao  (o  que  ja  se  tern 
dado)  sem  o  menor  receio ;  pode,  si  o  quizer, 
mandar  matar  qualquer  desaffecto  seu  ;  si  os 
capangas  o  denunciarem  depois  de  presos, 
ninguem,     oh!     ninguem    o     acreditard,     e 


A   TYRANNIA  DEMOCRATICA  109 

nem  havera  juiz  capaz  de  apurar  a  responsa- 
bilidade  criminal  do  rapaz,  que  sera  despro- 
nunciado,  haja  o  que  houver.  De  sorte  que  vi- 
vemos  aqui  com  pequena  differen9a  da  Eda- 
de  Media.  O  que  nos  distingue  da  Europa 
medieval  e,  primeiro — um  pouco  de  progres- 
so  material  (luz  electrica,  bondes,  etc.) ;  se- 
gundo — o  nosso  immenso  atrazo  em  materia 
de  coisas  do  espirito ... 


Commentarios  ao  "Binoculo 


f» 


O  Binoculo  tern  estado  excellente .  Eu 
o  leio  sempre,  e  quizera  que  tambem  o  lesse  a 
sra.  Gilka  da.  Costa  Machado.  O  Binoculo  vi2jo 
e  apenas  uma  escola  de  boas  maneiras:  € 
tambem  uma  escola  de  timidez  e  de  mansi- 
dao.  E'  a  Imitagdo  de  Christo  do  mundo  ele- 
gante. Estes  dois  dias  tern  elle  estado  admi- 
ravel  nos  conselhos  que  vem  dando  acerca 
do  melhor  modo  de  visitar.  Diz  elle  que, 
em  materia  de  visitas,  a  regra  geral  e  esta : 
ccNunca  nos  devemos  tornar  importunos.» 

Dou  alguns  exemplos :  nao  puxar  a  ca- 
deia  do  relogio  do  nosso  hospede ;  nao  Ihe 
torcer  os  botoes  do  casaco ;  nao  Ihe  dar  mur- 
ros  quando  fallar  de  box,  nem  patadas  quando 
tratar  de  futebol ;  nao  o  chamar  a  um  canto 
da  sala  para  Ihe  pedir  dinheiro .  .  . 

(cSi  virmos  o  dono  da  casa  tornar-se  im- 


112  VERDADES  INDISCRETAS 

paciente,  consultar  o  relogio,  nao  progredir 
na  conversa^ao,  etc.,  retiremo-nos  Iogo».  Per- 
feitamente.  Nao  devemos  esperar  que  o  dono 
da  casa  nos  aponte  um  revolver  ao  ouvido, 
nem  que  a  dona  da  casa  mande  virar  de  per- 
nas  para  o  ar  as  cadeiras  da  sala. 

Attengao:  « Si  formos  visitar  uma  senhora 
nova,  que  viva  so,  e  chegar  em  seguida  um 
segundo  visitante  mais  familiar  que  nos,  par 
tamos  immediatamente.»  Isso  mesmo,  antes 
que  esse  tal  segundo  visitante  mais  familiar 
nos  aponte  a  porta  da  rua  com  a  bengala . 
O  melhor  e  arranjar  as  coisas  de  maneira 
que,  quando  o  segundo  visitante  chegar,  o 
primeiro  ja  tenha  sahido,  sem  que  o  saiba  a 
visinhan9a.  .  . 

«Nunca  se  deve  entrar  sem  ter  sido  an- 
nunciado  ou  ter-se  annunciado  a  si  proprio ; 
a  ac^ao  em  contrario  e  enorme  impolidez .  » 
Nao  e  que  haja  grande  inconveniente  em 
entrar  um  cavalheiro,  sem  se  fazer  annun- 
ciar,  para  o  quarto  de  Madame  ou  para  o  pe- 
queno  aposento  de  Mademoiselle.  Esta  regra 
binocular  foi  feita  em  beneficio  dos  proprios 
visitantes.  Por  desconhecerem  esta  regra, 
isto  e,  por  terem  entrado  em  casas  alheias 
sem  se  fazerem  annuneiar,  muitos  cavalheiros 
tem  passado  pelo  vexame  de  ser  presos  e 
estao  cumprindo  senten9a  na  Correc^ao.  Ain- 


COMMEKTARIOS   AO    BINOCULO  113 

da  ha  poucos  dias  foi  umaleva  desses  senho- 
res  para  a  Colonia  Correccional.  O  seu  unico 
crime  foi  terem  entrado  em  casas  de  familia 
«  de  negocio  sem  dizer  quem  eram.  .  . 


3 


Os  bigodes  do  Exercita 


Si  o  sr.  general  Gabino  Besouro,  com- 
mandante  da  5^  regiao,  nao  leu,  de  certo 
adivinhou  o  verso  de  Moliere:  Du  coti  de 
la  bar  be  est  la  toute-puissance .  .  .  Segundo 
publicam  OS  jornaes,  o  sr.  general  comman- 
te  e  contrario  a  soldado  de  cara  raspada. 
A  um  cabo  que  Ihe  pedio  permissao  para 
escanhoar  o  bigode,  respondeu  S.  Ex.  pela 
negativa  e,  entre  outras  razoes  explicativas, 
acrescentou  que  «uma  carasem  bigodes,  com- 
pletamente  raspada,  nao  impressiona  como  a 
que  traz  o  masculo  e  natural  distinctivo  mas- 
culino.D 

Com  licenga  do  general:  o  soldado,  com 
a  sua  barba,  deve  impression ar  o  sexo  mas- 
culino  ou  o  feminino?  A  ambos,  respondera 
S.  Ex.  Nego  eu.  Para  fazer  correr  um  medro- 
so  tanto  vale  um  barbado  como  um  glabro; 
quanto  ao  corajoso,  si  nao  correr  do  escanhoa- 


116  VERDADES  INDISCRETAS 

do,  tambem  nao  se  deixaraimpressionarpelo 
barbado.  De  sorte  que,  a  dizer  verdade,  a 
barba  na  infantaria  influe  pouco  no  exito  dos 
combates . 

Agora,  a  questao  e  mais  delicada.  Cre  o 
sr.  commandante  que  impressiona  menos  a 
uma  mulher  uma  cara  raspada  do  que  a  que 
traz  «o  masculo  e  natural  distinctivo  masculi- 
no,»  como  pittorescamente  diz  S.  Ex.?  Nao 
creia  nisso  o  meu  general.  Ao  tempo  em  que 
S.  Ex.  eracadete,  talvez  aindaassim  fosse.  Um 
bom  par  de  bigodes  dava  sorte  perante  as 
mulheres.  Hoje,  nao .  .  .  E  si  o  proprio  gene- 
ral no  principio  do  seu  despacho,  reconhece 
que  «o  pedido  de  permissao  para  raspagem 
do  bigode  e  coisa  muito  frequento),  isso  bem 
mostra  que  os  que  pedem  tal  licenga  la  terao 
suas  razoes  (talvez  pouco  militares)  para  que- 
rer  escanhoar-se...  Convenga-seo  general  de 
que  OS  tempos  de  hoje  sao  differentes  dos 
seus.  Si  OS  rostos  raspados  nao  agradassem 
muito  mais  ao  outro  sexo  do  que  os  rostos 
barbudos,  nao  haveria  no  exercito  tanto  pe- 
dido de  licenga  « para  raspagem B,  e  S.  Ex. 
nao  veria  a  mor  parte  dos  paizanos  raspar 
sem  piedade  os  bigodes.  E  neste  caso,  como 
em  tudo  o  mais,  ainda  e  o  sexo  feminino  que 
manda .  .  Cada  vez  mais  as  mulheres  gover- 
nam  os  homens.    E,  com  o  devido  respeito. 


OS   BIGODKS    DO   EXERCITO  117 

OS  proprios  soldados  sao  govern  ados  muito 
mais  por  ellas  do  que  pelos  heroicos  bigodes 
do  ST.  general  commandante.  E'  deploravel, 
nao  ha  duvida,  mas  tambem  e  irremediavel, 
irresistivel .  .  . 


Exigencias  do  minuete 


Leio  nos  matutinos  que  brevemente  ha- 
verd  a  primeira  festa  de  caridade  desta  esta- 
9ao;  e  do  seu  programma  faz  parte  um  nume- 
TO  que,  executado  comme  il  faut,  sera  uma  de- 
licia:  um  minuete  de  Mozart  dansado  por  oito 
pares. 

Como,  entretanto,  irao  dansar  esse  mi- 
nuete? Por  emquanto  nao  dizem  as  folhas  si 
serd  dansado  a  caracter  ou  em  trajes  de  hoje. 

Pergunto-o  porque  taes  extravagan- 
cias  se  dao  nesta  cidade,  que  poderiam  os 
bailarinos  apparecer — os  cavalheiros  de  ca- 
saca  e  as  damas  trajadas  segundo  o  maximo 
rigor  do  Paris  moderno — o  que  seria  lamen- 
tavel. 

O  minuete  e  dansa  inadaptavel  a  qual- 
quer  epoca  differente  da  sua.  Exige  do  lado 
das  damas — puffes  e  cabelleiras  empoadas; 
do  lado  dos  cavalheiros — sapatos  a  Luiz  XV, 


120  VERDADKS    INDISCRETAS 

casaca  de  portinholas,  calgoes,  espadim,  bofcs 
de  renda,  tricorne,  corpo  flexivel  e — minucia 
importantissima!— perna  muito  bem  toniea- 
da... 

Dansar  o  minuete  com  trajes  modernos^ 
com  a  mesma  casaca  sensaborona  com  que 
se  dansa  o  tango  no  Assyrio  ou  se  vaearece- 
p^ao  do  palacio  do  governo,  e  um  absurdo 
historico  e  wm  attentado  contra  a  esthetica. 

A  casaca  e  uma  casta  de  roupa  inventa- 
da  para  nivelar,  perante  as  leis  da  moda,  o  fi- 
dalgo  de  ra9a  ou  de  espirito  e  o  plebeu,  o 
burguez  e  o  proletario. 

E'  traje  democratico  e  sem  individuali- 
dade.  Tanto  podera  servir  para  o  rei  da  Ingla- 
terra  como  para  qualquer  desses  condes  ita- 
lianos  e  portuguezes,  promovidos  de  engra- 
xates  e  vendedores  de  cebolas  a  fidalgos  de 
linhagem. 

Nunca,  porem,  para  o  minuete,  que  e  a 
dansa  mais  aristocratica  de  quantas  existem.  E' 
uma  dansa  queexige  amdzenfepropno,como  os 
passos  hellenos  e  em  geral  todas  as  choreas 
que  marcaram  limite  duma  civilisagao.  Mi- 
nuete que  nao  recordar  o  pincel  de  Greuze 
ou  de  Watteau  nao  e  minuete. 

Exige  tudo  isso  e  mais  um  entrainement 
prolongado,  porque  n6s  nao  podemos  ter 
idea  da  delicadeza  que  €  necessaria  para  in- 


EXIGENCIAS    DO    MINUETS  121 

terpretal-o.  Quern  quizer  dansar  bem  um  mi- 
nuete  deve  passar  pelo  menos  um  mez  sem 
dar  um  passo  de  qualquer  das  detestaveis 
dansas  americanas,  que  tern  corrompido  o  bom 
gosto  destes tempos.  E  depois  disso,  ensaio, 
estudo,  estudo,  ensaio.  O  minuete  e  exigente. 
Dansal-o  como  se  dansa  o  tustepe  ou  o  tan- 
go canalhesco  e  uma  profana^ao. 


Ruido  e  SoiidSo 


O  carnaval  dos  que  vagam  sos  pelas  ruas 
men  OS  procuradas,  pelas  ruas  silenciosas, 
talvez  nao  seja  o  mais  aconselhavel,  mas  nem 
por  isso  deixa  de  ser  o  mais  divertido.  Os 
que  buscam  a  agitagao  da  Avenida  cumprem 
a  sua  finalidade.  Osfrades,  no  silencio  das  suas 
cellas,  provam  que  nasceram  para  o  silencio ; 
OS  carnavalescos,  no  ruido  de  Avenida,  pro- 
vam que  nasceram  para  o  ruido .  O  mundo 
nao  seria  mais  triste,  si  deixassem  de  exis- 
tir  frades  nos  seus  conventos ;  tambem  nao  se- 
ria mais  alegre,  si  supprimissem  o  Carnaval . 
Os  moralistas  nao  applaudem  essas  bambocha- 
tas  e  tem  razao.  Mas  o  movimento  do  univer- 
so  e  tao  indifferente  ao  Carnaval  como  ao  tre- 
mendo  mysterio  daRedemp^ao.  O  globo  con- 
tinua  a  gyrar  em  torno  do  seu  eixo,  at6  que 
apparega  algum  sabio  que  prove  o  contrario, 
sem  correr  os  riscos  por  que  passou  Galileu... 


124  VKRDADES    INDISCRETAS 

Justamente  agora,  emquanto  escrevo,  meni- 
nas  de  familia,  phantasiadas  e  de  meias-mas- 
caras,  passam  cantando  coplas  que  fariam  en- 
rubescer  meretrizes  de  Byzancio.  Ora,  antes 
dellas  passarem  cantando  as  suas  obsceni- 
dades,  pouco  antes,  approximou-se  de  mim 
uma  pobre  creanga  esqueletica,  de  dez 
annos  no  maximo,  faminta,  e  pediu-me  uma 
esmola ;  depois  percorreu  outras  me- 
sas. Dahi  a  pouco  entrou  no  bar  (rua  afas- 
tada)  um  senhor  acompanhado  de  uma 
menina.  apparentando  dez  annos,  forte, 
sadia,  vestida  de  branco  e  muito  seriazinha. 
Parecia  filha  do  cavalheiro,  que  pediu  uma 
garrafa  de  cerveja.  x^mbos  beberam .  Elle  lia 
um  jornal.  A  pequena  bebia.  Qual  seria 
mais  infeliz  —  a  que,  aos  dez  annos,  pedia 
esmola,  ou  a  que,  aos  dez  annos,  bebia  em 
companhia  do  pae  ?  Mas  o  Universo  e  in- 
differente  a  tudo  isto.  Entretanto,  quem  se- 
ria a  mo^a  que  passou  por  mim,  vestida 
de  siciliana  e  com  duas  trangas  castanhas, 
maravilhosas,  a  cairem-lhe  quasi  ate  aos 
joelhos  ?  O'  Santuzza  desconhecida  e  errante  I 
O  que  eu  daria  por  uma  noite  atado  a  essas 
fortes  trangas  de  mulher  primitiva ! .  .  . 


O  pogo  maldito 


O  caso  do  homem  que  caiu  no  poyo  em 
Rocinha,  Estado  de  S.  Paulo,  offerece  as- 
pectos  curiosos.  Esse  infeliz,  que  se  chamava 
Isaias,  quando  alimpava  uma  cisterna  de  vin- 
te  e  cinco  a  trinta  metros  de  profundidade, 
caiu  la  em  baixo  e  esteve  quasi  uma  semana 
«morre  nao  morre»,  emquanto  se  faziam 
baldadas  tentativas  para  salval-o. 

De  Sao  Paulo  foram  duas  turmas  de  bom- 
beiros,  chefiada  cada  uma  por  um  engenheiro. 
De  Sao  Paulo  foram  ainda  cabos,  roldanas  e 
outros  apetrechos  necessaries  ao  trabalho  de 
i9ar  o  infeliz  que  jazia  sepultado  em  vida, 
meio  devorado  pela  repugnante  e  venenosa 
bicharia  do  fundo  do  pogo,  num  martyrio  for- 
midavel,  a  Edgard  Allan  Poe.  Mais  de  duzen- 
tas  pessoas  estacionavam  a  borda  do  pogo, 
ajudando  a  salval-o,  ou  lamentando  a  sorte 
de  Isaias.   O   telegrapho,  comegou   a  trans- 


126  VERDADES    INDISCRBTAS 

mittir  ao  paiz  inteiro  que  la  em  Rocinha 
caira  um  homem  num  pogo.  Os  prelos 
gemeram.  Os  jornaes  descreveram  o  estado 
de  Isaias,  reclamaram  providencias,  suggeri- 
ram  medidas.  Emfim,  o  paiz  inteiro  ficou  sa- 
bendo  que  um  homem  soffria  no  fundo  de 
uma  cisterna.  Pelas  esquinas,  pelas  confeita- 
rias,  ate  nos  theatros,  nao  se  cuidava  de  cutra 
coisa :  « Isaias,  coitado,  caiu  no  pogo  e  vae  mor- 
rer».  Finalmente,  como  nao  foi  possivel  sal- 
val-o,  morreu.  Os  jornaes  abriram  columnas, 
deram  retratos  e,  la  em  S.  Paulo,  ja  comegam 
a  fallar  na  abertura  de  um  inquerito  para  apu- 
rar  si  Isaias  deixou  de  ser  salvo  por  impossi- 
bilidade  material  ou  si  por  impericia  das  tur- 
mas  encarregadas  do  servigo. 

Quem  podera  saber  si  Isaias  deixou  de  ser 
salvo  por  impericia?  E'  preciso  nao  perder  de 
vista  o  seguinte:  durante  cerca  de  cinco  dias,os 
bombeiros  idos  de  S.  Paulo,  com  grandes  dif- 
ficuldades,  conseguiram  ir  entretendo  a  vida 
do  infeliz  a  custa  de  cordeaes,  leite,  vinho, 
aguardente,  cafe,  etc . ,  que  Ihe  davam  la 
em  baixo,  presos  a  cordas  e  correndo  o  risco 
de  se  enterrarem  tambem.  Apos  muitos  tra- 
balos  esses  bombeiros  conseguiram  igar  o 
homem  ate  talvez  metade  da  altura  do  pogo. 
Foi  um  momento  de  jubilo.  Estava  salvo! 
Nao,  nao  estava.    O  cabo  partiu-se  e  Isaias 


O  PO5O   MAI^DITO  127 

caiu  outra  vez.  Mandaram  vir  cabos  mais  for- 
tes. Vieram  tambem  empregados  da  Compa- 
nhia  Paulista,  que,  em  algumas  horas,  conse- 
guiram  p6r  a  cisterna  a  secco  e  igar  Isaias. 
Estava  finalmente  salvo !  De  ca  de  cima  ja  o 
viam  apparecer  na  semi-obscuridade  do  seu 
sepulcro.  De  repente  —  paf!  —  Idse  arreben- 
tava  o  cabo  e  o  infeliz  imniergia  novamente 
nas  trevas,  de  onde  foi  impossivel  retiral-o 
com  vida,  pois  que,  durante  o  trabalho  de  seu 
terceiro  salvamento,  elle  rendeu  o  espirito. 
Eis  porque  nao  sei  ate  que  ponto  se  podera 
attribuir  esse  desastre  a  falta  de  pericia  das 
turmas  salvadoras.  Impossibilidade  material 
de  salval-o  nao  existia ;  e  a  prova  e  que,  por 
duas  vezes,  esteve  quasi  salvo ;  e  si,  por 
duas  vezes,  elle  esteve  quasi  salvo,  so  nao  o 
sendo  por  se  terem  quebrado  solidos  cabos 
em  que  os  profissionaes  depositavam  confian- 
ga,  nesse  caso,  parece  nao  ter  havido  imperi- 
cia.  Eu  me  inclinaria,  antes,  a  admittir  como 
explicagao  dessa  desventura,  ate  que  appare- 
9a  outra  melhor,  fatalidade.  E'  certo  que  as 
autoridades,  maxime  quando  procedem  a  in- 
queritos  administrativos  em  que  as  suas  pes- 
s6as  nao  estejam  envolvidas,  sao  pouco  in- 
clinadas  a  admittir  a  fatalidade  como  expli- 
cagao  de  uma  catastrophe.  O  que  ellas  procu- 
ram  e  Mm.2.  falta  parapunir.  Ora  a  fatalidade 


128  VERDADES   INDISCRETAS 

nao  pode  ser  punida.  A  impunidade  e  preci- 
samente  o  seu  maior  prevjlegio.  De  sorte  que 
ella  fica  quasi  sempre  afastada  das  conclus5es 
dos  inqueritos.  Fica  afastada,  mas  nem  por 
isso  deixa  de  existir  e  de  manifestar-se,  como 
no  caso  de  Rocinha,  em  que  parecia  haver 
uma  forga  occulta  e  mysteriosa  que  attrahia  o 
pobre  Isaias  para  o  fun  do  dantesco  do  pogo 
4TiaIdito .  .  . 


As  mulheres  na  politica 


Adiantara  muito  submetter  a  politica  a 
ainfluencia  santificadora  do  sexo  affectivo», 
como  diria  o  sr.  Teixeira  Mendes  ?  Creio  que 
nao.  De  facto,  as  mulheres  ja  influem  na  po- 
litica, embora  nao  sejam  eleitoras  nem  depu- 
tadas :  influem  indirectamente,  pelo  prestigio 
que  tem  sobre  os  maridos,  sobre  os  noivos, 
sobre  os  amantes.  Nem  e  preciso  a  uma  mu- 
Iher  ser  casada  com  deputado  para  influir  nas 
suas  ideas  politicas.  Conhego  deputados  que 
sao  francophilos  por  causa  das  prostitutas  fran- 
cezas ,  .  .  O  venerando  senador  Irineu  nao  se 
dedignou  de  ir  uma  noite  ao  Municipal  fazer 
discurso  numa  festa  apr6-alliados»  que  ali  se 
realisou  sob  os  auspicios  da  nao  menos  vene- 
ravel  Suzanna  Castera,  proprietaria  de  uma 
pensao  de  meretrizes .  Nem  louvo  nem  con- 
demno :  admiro  com  as  turbas .  .  . 


4- 


130  VERDADES    INDISCRETAS 

Ora,  influindo  as  mulheres  nos  politicos^ 
e  sendo  estes,  em  geral,  o  que  nos  sabemos, 
OS  negocios  publicos  melhorarao  muito  no  dia 
em  que  ellas  influirem  directamente  sobre 
elles  ?  Nao  creio.  Uma  ou  outra  mulher,  des- 
de  que  o  mundo  existe,  tern  tido  visao  poli- 
tica :  Catharina  de  Medicis,  Maria  Thereza, 
Catharina  II,  da  Russia,  a  rainha  Christina,  da 
Hespanha,  e  algumas  outras  mais.  Sao,  po- 
rem,  excep^oes,  alem  de  serem  mulheres  de 
raga  nobre,  descendentes  de  reis,  de  homens 
de  pensamento  e  mando.  Agora,  que  benefi- 
cio  resultaria  para  o  paiz  si,  por  exemplo,  a 
professora  Leolina  Daltro  fosse  deputada  ?  Ne- 
nhum.  Seria  apenas  a  representagao  feminina 
do  marechal  Pires  Ferreira . 

Geralmente  se  diz  que  as  mulheres  sao 
mais  honradas,em  materia  de  dinheiro,  do  que 
n6s  OS  homens.  Confesso  ser  verdade.  De 
ordinario  as  mulheres  nao  furtam.  Mas  nao 
furtam  porque  ?  Porque  os  homens  se  incum- 
bem  de  furtar  para  ellas.  Entao  essas  nego- 
ciatas,  essas  chantagens,  essas  roubalheiras 
formidaveis,  que  se  praticam  por  ahi,  serao  fei- 
tas  pelos  homens  so  pelo  prazer  de  ajuntar 
dinheiro,  muito  dinheiro  nas  gavetas,  so  pelo 
«gosto  da  cobiga  e  da  avareza»,  como  diria 
Luiz  Vaz  de  Camoes  ?  Nao.  Si  os  homens 
prevar^cam,  e  por  causa  dos  chapeos,  dos  ves- 


AS   MDI,HERBS  NA  POWTICA  131 

tidos,  das  meias  e  das  joias  das  mulheres.  Si 
as  mulheres,  para  dar  o  seu  amor,  nao  exigis- 
sem  tanta  coisa  cara,  tao  prevaricadores  nao 
seriam  os  homens.  Ora,  no  dia  em  que 
ellas  fossem  deputadas  e  ministras,  seriam 
tambem  brasseuses  d'affaires  e  commetteriam 
as  mesmas  indignidades  que  os  homens.  Ape- 
nas,  sem  justificativa :  um  homem  que  furta 
por  amor,  isto  e,  para  nao  perder  as  coxas  de 
uma  mulher,  esta  muito  longe  de  merecer 
absolvigao,  mas  inspira  certa  sympathia  —  a 
sympathia  que  se  tem  pelos  imbecis.  Uma  mu- 
lher que  furtasse  —  furtava  apenas  para  si, 
para  comprar  chapeos  e  joias.  Amor?  Nao: 
simples  e  pura  vaidade.  Ha  ainda,  para  con- 
sumir  o  dinheiro  dos  homens,  o  jogo.  Mas  as 
mulheres  tambem  jogam,  e  jogam  feio  e  forte. 
Em  Caxambu,  nas  estagoes  proprias,  quando 
OS  hotels  regorgitam  de  aquaticos,  a  roleta  e 
frequentada  pelas  senhoras  defamilia.as  quaes, 
diga-se  de  passagem,  embora  um  pouco  inge- 
nuas,  tem  admiravel  vocagao  para  tripoteuses 
e  tricheuses.  Isto  alias,  nas  mulheres,  e  muito 
antigo.  Ja  no  tempo  de  Luiz  XIV,  a  duqueza 
de  la  Ferte,  jogando  com  os  seus  fornecedo- 
res,  roubava-os.  Quando  alguem  Ihe  fallava 
nisso,  ella  respondia:  Eh  bien,  oui,je  les  tri- 
che,  mais  c  est  quits  me  volent .  .  .  Eis  porque, 
a  meu  ver,  a  entrada  das  mulheres  para  a  po- 


132  VBRDADES    INDISCRETAS 

litica  n|Lo  melhpraria  em  nada  a  situa^ao  do 
paiz.  Ideas  ellas  nao  trariam  ;  quanto  a  ho- 
nestidade,  a  dellas  nao  seria  maior  do  que  a 
nossa.  .  . 


Verhaeren 


A  morte  de  Emilio  Verhaeren,  tao  ino- 
pinada  e  tao  tragica,  equivale  a  um  cheque 
formidavel  soffrido  pela  litteratura  mundial. 
E'  uma  grande  fdrga  espiritual  que  desappa- 
rece.  Verhaeren  era  uma  grande  forga  uni- 
versal. P6de-se  aferir  a  grandeza  de  uma  per- 
sonalidade  pela  vibra^aoque  a  sua  morte  pro- 
duz  em  todo  o  mundo.  A  morte  de  Verhae- 
ren produziu  a  mesma  vibra9ao  mundial  que 
a  de  qualquer  dos  grandes  soberanos  do  uni- 
verso.  Porque  desde  o  momento  em  que  elle 
era  esmagado  por  um  trem  em  Ruao,  estre- 
meciam  os  fios  telegraphicos,  transmittindo  a 
nova  a  toda  a  Franga ;  vibravam  os  cabos  sub- 
marines, espalhando  a  noticia  por  todos  os 
continentes,  levando-a  aos  dois  polos  da  Ter- 
ra; vibrava  a  propria  atmosphera  nas  suas 
ondas  hertzianas,  levando  o  conhecimento  da 
morte  de  Verhaeren  a  pontes    distantes,   a 


134  VERDADES   INDISCRETAS 

pontes  ignorados,  a  qualquerplaga  desconhe- 
cida  onde  houvesse  uma  alma  sensivel  as  emo- 
goes  superiores.  Este  grande  symbolista,  este 
grande  mystico  dos  Moines,  foi  tambem  um 
extraordinario  realista,  ou  melhor,  um  formi- 
davel  idealisador  da  materia.  Toda  a  vida  con- 
temporanea  teve  no  Verhaeren  das  Forces 

TUMULTUEUSES  C    daS    ViLLES    TENTACULAIRES 

o  seu  melhor,  o  seu  unico  cantor.  Toda  a  in- 
quietagao  moderna  esta  nos  versos  deste  gran- 
de flamengo.  Nao  ha  dobra,  por  mais  secreta, 
da  complexa  alma  contemporanea,  que  nao 
tenha  sido  analysada  em  seus  versos,  as  vezes, 
numa  simples  phrase,  mas  numa  dessas  phra- 
ses germinativas,  que  se  desdobram,  no  nosso 
interior,  em  infindaveis  ondas  sonoras,  em 
echos  incessantes,  em  rythmos  infatigaveis, 
ate  que  se  percam  no  tumulto  da  vida  uni- 
versal. 

A  lingua  franceza  no  seculo  XIX  teve 
dois  poetas  maximos :  na  primeira  metade, 
Charles  Baudelaire,  analysta  da  alma  deca- 
dente  do  seu  tempo ;  na  segunda  metade, 
Emile  Verhaeren,  o  reverbero  mais  poderoso 
e  mais  vivo  da  alma  de  transigdo  que  caracte- 
risa  a  sua  epoca :  soube  comprehender  a  vida 
real  como  um  homem  de  sciencia ;  soube  adi- 
vinhar  o  que  nao  sabia,  como  um  genio,  e 
soube  simultaneamenteser  um  mystico  digno 


VERHAKREN  135 

<la  aureola  que  illumina  o  seu  patricio  Ruys- 
broeck,  o  Admiravel.  Tragico  Yerhaeren !  O 
seu  espirito  viveu  em  perenne  contemplayao 
de  todas  as  forgas  que  constituem  a  belleza 
interior  da  Vida ;  quiz  o  destino  que  a  sua 
vida  se  extinguisse  num  turbilhao,  colhidapela 
afor^a  tumultuosa»  de  uma  locomotiva  em 
inarchapara  asplanicies,  para  os  campos,  para 
a  Natureza  e  para  as  cidades  tentaculares  que 
elle  idealisou,  e  ondeaporgao  inferior  do  seu 
ser  se  integrara  nas  podridoes  incessantes  de 
Celui  du  rien : 

« Je  suis  celui  des  pourritures  incessantes .  . . 

Je  suis  celui  des  pourritures  infinies  : 

Vice  ou  vertu,  vaillance  ou  peur,  blaspheme  ou  foi, 

Dans  mon  pays  de  fiel  et  d'or,  j'en  suis  la  loi, 

Et  je  t'apporte  k  toi  le  consolant  flambeau^ 

ly'offre  a  saisir  de  ma  formidable  ironie 

Kt  mon  rire,  devant  I'universel  tombeau. . .» 

Sim,  o  destino  foi  bestialmente  ironico 
para  com  Emilio  Verhaeren:  em  vez  de  fazel-o 
morrer  docemente,  no  mvstico  deslumbra- 
mento  das  suas  harmonias  interiores,  deu-lhe 
morte  violenta  e  ruidosa.  O  cantor  dos  Ry- 
THMOS  soBERANOS  reccbeu  como  premio  a  mor- 
te sem  rythmo ;  e,  em  vez  de  ouvir,  ao  morrer, 
a  musica  de  si  mesmo,  elle,  o  grande  rebusca- 
dor  de  rythmos  para  o  pensamento,  a  ultima 
vibragao  das  f6r9as  naturaes  que  ouviu  foi  o 


136  VERDADES  INDISCRETAS 

silvo  de  uma  locomotiva,  como  expressao 
symbolica  e  tragica  da  aformidavel  ironia»  das 
coisas,  do  extranho  riso  cosmico  do  tumulo 
universal  que  escancarava  a  fauce  para  tragal-o 
in  ceternum  et  ultra .  .  . 


Heresia  orthographica 


Eu  deveria  ter  escripto  «Erezia  ortogra- 
fica»  para  ser  agradavel  ao  sr.  Medeiros  e  Al- 
buquerque, cujo  artigo  —  ((Relijiao  ortogra- 
fica»,  foi  o  inspirador  destas  linhas. 

O  sr.  Medeiros  e  Albuquerque  vem  ha 
muito  tempo  pugnando  pela  simplifica9ao  da 
nossa  orthographia.  Uma  lingua  e  um  orga- 
nismo  vivo ;  portanto  esta  sujeita  a  modifica- 
9oes,  a  augmentos,  a  diminuigoes,  a  amplia- 
96es  e  simplificagoes,  como  qualquer  outro 
organismo.  Mas  essas  modificagoes  nao  po- 
dem  e  nao  devem  ser  feitas  por  decretos.  De- 
vem  operar-se  naturalmente,  espontaneamen- 
te.  Antigamente  escrevia  se  gapato  e  agucar\ 
hoje  escreve-se  sapato  e  assucar,  porque  o  uso 
consagrou  estas  ultimas  formulas. 

A  orthographia  e,  com  effeito,  uma  con- 
vengao ;  mas  as  melhores  conven96es  nao  sao 
impostas  por  decretos  nem  ucases;  sao  basea- 


138  VERDADES   INDISCRETAS 

das  na  tradigao;  triumpharam  pouco  a  pouco. 
A  maior  das  conven^oes  e  a  moral,  que  nao 
se  impoe  por  intermedio  de  poderes  legislati- 
ves. Si  outrora  alguem  se  lembrasse  de  de- 
cretar  a  obrigatoriedade  do  decote,  provavel- 
mente  teria  de  soffrer  opposigao  de  todos  os 
Catoes  da  epoca;  entretanto,o  decote  e  hoje  de 
uso  corrente  na  alta  sociedade,  emcertas  fes- 
tas  nocturnas.  Si  uma  senhora,  pela  manha, 
nos  apparecer  de  hombros  nus,  ficaremos  a 
pensar  coisas  absurdas  a  respeito  de  sua  mo- 
ralidade .  .  .  De  noite,  num  theatro,  ella  pode 
mostrar  a  toda  a  gente  os  hombros  e  grande 
parte  da  espinha,  o  coUo  ate  a  raiz  dos  seios, 
OS  bragos  (inclusive  as  axillas),  as  pernas  ate 
osjoelhos,  etc.,  etc.,  etc.,  sem  incorrer  em 
suspeita  de  especie  alguma,  salvo  si  ja  for 
mais  ou  menos  conhecida  de  todo  o  mundo  a 
sua  chronica  secreta.  .  .  Pura  convengao,  cer- 
tamente,  mas  que  nao  se  impoz  de  um  dia  para 
outro. 

Assim  e  a  orthographia.  Ella  deve  modi- 
ficar-se  pela  acgao  do  tempo.  Ha  palavras  que, 
modificadas  de  um  momento  para  outro,  per- 
dem  quasi  a  sua  razao  de  ser.  Que  razao  ha- 
vera  para  escrevermos,  por  exemplo,  lyriof 
Nenhuma.  Em  latim  se  escreve  lilium  ;  mas 
estamos  de  tal  maneira  habituados  a  ver  lyrios 
e  nao  lirzos,  que  nao  valeapena  alterar  agra- 


HERESIA    ORTHOGRAPHICA  .  .  .  139 

phia  do  vocabulo,  Isto  sem  appellar  para  a 
razao  que  dava  aquelle  academico  francez  para 
que  se  escrevesse  lys  e  nao  lis,  isto  e,  que  o y 
ja  recordava  materialmente  a  forma  de  um 
lyrio.  .  . 

Fantasma  sem  ph  nao  causa  medo  a  nin- 
guem  ;  ao  passo  que  phantasma,  basta  ler-se 
para  que  se  vejam  logo  duendes  e  gnomos  de 
todas  as  qualidades.  .  . 

Onde  o  sr.  Medeiros  e  Albuquerque  tern 
razao  e  no  ponto  em  que  combate  o  motivo 
que  deu  a  Commissao  de  Finangas  para  nao 
mandar  adoptar  uma  orthographia  official : 
que  a  questao  orthographica  e  um  caso  de  con- 
sciencia,  como  a  religiao !  Isto,  realmente,  e 
uma  razao  de  cabo  de  esquadra.  Nesse  andar 
nao  podiamos  legislar  mais  sobre  coisa  algu- 
ma.  Ha,  por  exemplo,  religioes  que  admittem 
o  casamento  de  um  homem  com  muitas  mu- 
Iheres ;  logo,  o  Codigo  penal  nao  pode  punir 
a  bigamia,  porque  o  bigamo  pode  ter-se  casa- 
do  com  mais  de  uma  mulher  por  motivos  reli- 
giosos,  alem  de  outros  menos  espirituaes .  .  . 

Na  verdade  seria  antipathica  qualquer 
decisao  dos  poderes  publicos  a  respeito  de 
orthographia.  A  Commissao,  pois,  fez  bem 
nao  legislando ;  mas  podia  ter  dado  outra  ra- 
zao. Podia,  por  exemplo,  appellar  para  o  facto 
de  haver  muitas  grammaticas  portuguezas  au- 


140  VERDADES    INDISCRETAS 

torisadas  officiatmente ;  ora,  trazendo  essas 
grammaticas  regras  mais  ou  menos  certas  a 
respeito  de  orthographia,  cessava  a  necessi- 
dade  do  governo  estabelecer  nas  reparti96es 
publicas  principios  basicos  de  escripta.  O  que 
o  governo  deve  procurar  regularisar  quanto 
antes,  com  a  maxima  urgencia,  e  a  escripta 
do  Thesouro.  O  resto  deve  ficar  por  conta 
das  grammaticas  adoptadas  nos  institutes  offi- 
ciaes  e  que  na©  sao  poucas .  .  . 

Quanto  ao  sr.  Medeiros  e  Albuquerque, 
uma  vez  que,  segundo  o  seu  artigo  de  hontem, 
o  Estado  adoptou  uma  (crelijiao  ortograficaj), 
elle,  que  e  contrario  a  essa  arelijiao»,  fica  na 
categoria  dos  «erejes))  ;  ou  melhor,  sen  do, 
como  o  e,  corypheu  de  uma  ref6rma  contraria 
a  essa  «relijiao)),  devera  ser  mais  que  um  sim- 
ples hereje :  e  um  heresiarcha,  ou  ereziarcUy 
si  Ihe  s6a  melhor .  .  . 


A  princeza  Arminda 


Em  livro  muito  antigo  —  Da  curiosa  his- 
toria  da  fermosa  princeza  Arminda  de  Gra- 
nada  —  seria  possivel  encontrar  capitulos 
assim : 

cc  Cap.  IV —  Como  o  principe  Mustapha 
veio  cantar  sob  o  balcao  de  Arminda  ao  som 
do  arrabil  e  do  mais  que  entao  se  passou. 

Cap.  X —  Como  a  fermosa  princeza,  nao 
querendo  fazer  maridan9a  com  o  principe 
Mustapha  nem  com  o  bellico  Ali,  foi  fazer  sua 
queixa  ao  califa  Abdelcader. 

Cap.  XIV —  Da  disputa  que  houveram 
Mustapha  e  Ali  por  amor  da  princeza  Ar- 
minda e  como  se  desafiaram  para  singular 
combate. 

Cap.  XIX — Do  combate  que  fez  Ali 
contra  Mustapha  e  como  ambos  foram  ven- 
cidos  pelo  gigante  Merlao,  por  artes  do  Nigro- 
mante   Massapatao,  o  qual  vivia  em  Mecca, 


142  VERDADES    INDISCRETAS 

junto  do  tumulo  do  seu  infame  propheta  Ma- 
fame  de.» 

O  livro  terminaria  com  a  conversao  da 
princeza  ao  christianismo  e  seu  casamento  — 
ou  maridanga — com  o  conde  de  Olivares.  .  . 

Mas  nada  disso  se  deu,  leitor.  Esta  Ar- 
minda  de  quern  trato  aqui  e  filha  do  turco  Jose 
Raber  e  mora  a  rua  Buenos  Aires,  antiga  do 
Hospicio,  no  bairro  turco,  passeio  que  nao  te 
aconselho,  por  motivos  hygienicos .  .  . 

Constou  a  policia,  segundo  referem  os 
jornaes,  que  Arminda  estava,  por  ordem  do 
pae,  em  carcere  privado.  Interrogado,  decla- 
rou  o  pae  Raber  que  a  filha  tinha  apenas  re- 
cato,  para  evitar  complica9oes ,  .  .  E  veio  en- 
tao  a  historia  de  um  certo  Mustapha,  que  Ihe 
promettera  uma  casa,  e  de  um  certo  Ali,  que 
Ihe  promettera  dois  contos.  Nenhum  cum- 
prira  a  palavra ;  por  isso  a  princeza,  quero  di- 
zer,  a  filha  do  Raber,  nao  quiz  fazer  maridanga 
com  nenhum  delles.  A  policia  os  mandou  a 
todos  em  paz. 

E  ahi  tem  o  leitor  a  historia  da  Arminda, 
que  nao  e  princeza  moura,  mas  apenas  moura 
filha  de  mercador.  Decididamente  sao  muito 
prosaicos  os  nossos  tempos  .  .  . 


L'homme  qui  assassina 


Esse  pobre  sargento  que  assassinou  a 
mulher  (Livia,  bello,  evocative  nome  roma- 
no !)  e  uma  victima  do  preconceito  de 
ra9a,  da  falta  de  dinheiro  e  da  inconsciencia 
feminina.  Seu  sogro,  um  livreiro  italiano,  de- 
clara  que  sempre  se  oppoz  ao  casamento  delle 
com  a  filha:  primeiro  por  ser  elle  cede  c6r 
parda));  segundo  por  nao  ter  tanto  dinheiro 
quanto  fosse  necessario  a  nobre  descendente 
de  um  iialiano .  .  .  Quanto  ao  preconceito  de 
raga,  ve-se  bem  que  esse  livreiro,  compatriota 
de  Dante,  nunca  se  deu  ao  trabalho  de  abrir 
uma  tragedia  chamada  O  Mouro  de  Veneza. 
e  que  foi  escripta  por  um  certo  William  Sha- 
kespeare ;  si  a  tivesse  lido,  teria  notado  que  a 
sua  patricia  Desdemona,  formosa  e  fidalga,  se 
apaixonou  tambem  por  um  soldado,  que  nem 
ao  menos  era  christao,  que  devia  ser  mais  es- 
curo  do  que  o  sargento,  e  que  por  sua  vez  a 


VERDADBS  WDISCRBTXS 


^.  nara  ttagedias  de  amor, 
matoua  adaga,  q"f  ^  ^f  esthetico  e  portaato 
instrumento  '""•^  "'^'^Vo  rev61ver.  Homem 
„,uito  mais  nobre  do  que  o  ^^  ^^^^ 

de  bom  gosto,   q"e  j  ^^  ao  punhal. 

bellatoliana,  deve  darpr^  ^^^^^ 

caso  nao  tenha  "^/^^  "boseja  de  ouro 
adaga  antiga,  recurva  ^jo     ^^^^^^^   ^  ^^. 

burilado    e    "avejado   <ie         ^^^^^    ^^^^^^^ 

v61ver  e  arma  ^\J^^    ^  ;j^uiheres  vulga- 
para  abater  ^aes,  ho-nen  ^paiKona- 

res.  Urn  belle  ^f^J^^^,^^,o  de  traged.a, 
da,  coUo  branco  e  tf"P^f  .j^  um  punhal. 
esse  exige  ofulgorda  lamina     ^^^  ^.^ 

Mais  ainda,  homem   de  bo     g^  ^^i,..  deye 

„,atar  uma  bella  -""^^^^l^^ie  de  casaca,  ella 
matal-aapunhala  nmte     e  ^ 

decotada-depois  de  "«•       ^    ^^  ser  fino, 
champanha.  Isto  tem  a  ;an^^|^     ^^^  ^  ^,,^. 
altamente  aristocrat.co,  e  de  p    P^  ^^^ 
vilhosa  <lir.mente  da  Pnv  9      ^  ^^^^        O 
Poupa  muito  «abalho  ao         J^^^^  ^  es- 
sargento,  homem    s  mples  ^^^.^  ^.^^ 

posa  de  dia  e  a  revolver^  O  .^  ^^  ^ 

[amentavelmene  vulgar  s'.P^  ^^^^^^  ^,. 

ter  caido   mal   ferida,  o        ^j^ericordia,  um 
vesse  dado,   como  tiro  ponta-pe, 

ponta-pe  em  P'^^'^J"^^-  ^enhoras  e  aos 
q"«  horror.sa  a  tod^  ^^^  ^^^  ^„,„  de 
homens  series,   e    bcg 


I<*HOMA!B   QUI   ASSASSINA...  145 

"ver,  o  que  da  certo  cunho  tragico  ao  crime, 
distinguindo-o  dos  uxoricidios  communs .  A 
grande  raiva,  a  colefa  d'aymore  de  que  es- 
tava  possuido  esse  homem !  Nao  e  nada  me- 
diocre esse  criminoso.  A  sua  ira  e  dessas  que 
toldam  por  complete  a  razao.  Sim,  homem  que 
conserve  ainda  alguma  parcella  de  senso  com- 
mum  nao  escouceia  uma  mulher  viva,  quanto 
mais  o  cadaver  de  sua  mulher  !  Para  que  o  sar- 
gento  ousasse  dar-Ihe  um  ponta-pe  no  rosto, 
depois  della  morta,  era  preciso  que  elletivesse 
um  immense  orgulho  offendido  e  um  immen- 
se amor  desprezade  —  deis  sentimentos  peri- 
gesos  come  leoes  famintos.  Havera  quem  o 
cendemne  ?  Para  tante,  e  preciso  nao  ser  hu- 
mane. A  sua  principal  defesa  esta  justamente 
no  ponta-pe  final. Si  es  seus  advogados  forem 
inteiligentes,  terao  nesse  couce  a  prova  mais 
evidente  da  providencial  priva9ao  de  senti- 
des.  Esse  ponta-pe,  antes  de  ferir  o  rosto  da 
assassinada,  espatifeu  o  libello  da  promotoria. 
A  defesa,  com  algumas  phrases  lyricas,  dard 
ao  case  o  remate  que  cenvem.  O  resto  fica  por 
conta  da  intelligencia  e  do  cansago  dos  jura- 
dos.  .  .  Seja  come  f6r,  ninguem  pode  con- 
demnal-o,  pelo  menos  a  pena  maxima.  Lem- 
bremo-nos,  senhores,de  que  esse  homem  que, 
sob  o  aguilhao  de  seu  amor  e  do  seu  ciume, 
^atou  a  mulher,  podia  ter  feito  cousa  muito 

10 


146  VERDADES   INDISCRETAS 

peor:  podia,  segundo  o  conselho  de  Heine, 
ter  feito  da  sua  d6r  um  poema  e  publicado  um 
livro  de  versos!  A  sociedade,  absolvendo-o, 
deve  agradecer-lhe  o  tel-a  livrado  dessa  cala- 
midade . . . 


Os  crimes  de  amor 


Em  S.  Paulo,  um  jovem  jornalista,  Ri- 
cardo  Gongalves,  deu  um  tiro  na  sua  amante 
(amante,  ou  mulher,  nao  o  sei  bem),  por  ter 
tido  provas  de  que  ella  Ihe  era  infiel  com  um 
medico  a  quern  elle  chamara  havia  tempos  para 
curar  uma  filhinha  sua.  Estourada  esta  trage- 
dia,  todos  os  jornaes  sao  unanimes  em  con- 
demnar  o  medico :  «Miseravel!  Seductor! 
Don  Juan  indecente !»  E  outras  adjectivagoes. 
E'  evidenteque,  num  casodesses,  ditticilmen- 
te  se  livrara  um  homem  dapechade  seductor. 
Mas  tambem,  por  outro  lado,  parece  que,  num 
crime  de  amor,  nao  se  pode  imputar  toda  a 
responsabilidade  ao  homem,  principalmente 
quando  a  mulher  causadora  datragediatemos 
precedentes  de  Maria  do  Carmo,  a  compa- 
nheira  de  Ricardo  Gongalves.  Essa  mulher, 
com  as  suas  infidelidades,  foi  causa  do  suicidio 
do  marido ;  depois  deste  successo,  foi  viver 


148  VBRDADSS    INDISCRKTAS 

com  o  cavalheiro  «qiie  a  seduzira))  (6  sem- 
pre  o  homem  que  seduz!).  Um  dia  este  foi 
assassinado.  Uniu-se  ella,  entao,  com  Ri- 
cardo  Gon^alves,  poeta,  jornalista,  homem 
de  talento,  segundo  dizem.  Maria  do  Carmo, 
informam  os  jornaes  paulistas,  era  morphi- 
nomana,  exactamente  como  o  poeta.  Quaes 
seriam  as  leituras  preferidas  dessa  creatura  ? 
Que  genero  de  palestras  cultivaria  na  inti- 
midade  caseira,  quando  estivesse  a  sos,  com 
o  seu  homem  ?  Tudo  isso  seria  necessario  sa- 
ber, para  poder  formular  juizo  mais  ou  me- 
nos  approximadoda  justi9a.Conhecidos  os  pre- 
cedentes,  admitte-se  a  tal  «persegui9ao  irre- 
sistivel»  de  que  tanto  se  fala  para  justifical-a 
de  ter  caido  nos  bragos  do  medico  ?  E  nao  de- 
clarou  ella  mesma  terminantemente  a  Ricardo 
que  nao  o  amava  mais  ?  E'  possivel  que  o  me- 
dico a  requestasse ;  mas  tambem  e  possivel 
que  elle  o  fizesse  so  depois  de  ter  recebido 
della  uma  ordem  de  aavangar)),  dada  silen- 
ciosamente.  com  simples  olhares,  comosabem 
fazer  mulheres  desse  jaez.  Custo  muito  a  crer 
na  «persegui9ao  irresistivel»  de  um  homem 
mogo  para  umamulher  mae  de  alguns  pimpo- 
Ihos  e  batida  ja  por  amores  varios  e  tragedias 
diversas.  Concebe-se  que  um  homem  bello 
exerga  certa  fascina^ao  nos  nervos  de  uma 
inexperiente  rapariga  de  dezoito  annos,  que 


OS    CRIMES    DE   AMOR .  .  .  149 

buscano  mundo,  incessantemente,  no  ceo,  nas 
estrellas,  nas  flores,  no  ar  que  respira,em  tudo, 
impellida  por  uma  fatalidade  cosmica,  conhe- 
cer  a  Vida,  decifrando  o  enigma  do  seu  proprio 
cora9ao.  Essa  pode  ceder  a  ffpersegui9ao  irre- 
sistivel)) .  Mas  uma  senhora  experimentada, 
doutora  formada  em  amores  tragicos,  matri- 
culadissima  na  classe  das  peccadoras,  morphi- 
nomanae  voluvel,  nao  p6de  lan^ar  mao  desse 
recurso  de  defesa.  aPersegui^ao  irresistiveb 
soffria  ella,  mas  nao  do  exterior.  Essa  perse- 
guigao  vinha  della  mesma,  do  seu  interior, 
das  suas  entranhas,  da  calidez  do  seu  tem- 
peramento  da  vibratilidade  dos  seus  nervos . 
Como  todas  as  grandes  amorosas,  trazia  o 
bacillo  da  infidelidade  na  massa  do  san- 
gue .  E  e  por  isso  inutil  condemnal-a .  Ella 
e  perjura  em  virtude  das  mesmas  fdr^as  natu- 
raes  que  dao  colorido  as  rosas  e  perfume  is 
violetas.  Mas  tambem  acho  que  6  injusti9a  fa- 
zer  carga  contra  o  medico,  exclusivamen- 
te.  E'  um  conquistador  profissional,  dirao ! 
Oh !  senhores !  Nao  haveria  conquistadorcis  si 
nao  houvesse  mulheres  conquistaveis.  Nao  ha 
artilheiro  que  penetre  em  pra^a  forte  bem 
guarnecida.  As  tropas  so  entram  quando  a 
praga  se  rende .  E  ha  pra9as  que  se  nao  ren- 
dem  nunca :  Verdun,  por  exemplo.  Verdun  e 
Lucrecia.  .  . 


O  jogb  franco . . 


Nessa  campanha  que  a  policia  emprehen- 
deu  contra  o  jogo,  ha  facetas  curiosas,  como 
em  tudo  quanto  se  faz  neste  paiz.  A  principio, 
o  Chefe  de  Policia  pareceu  nao  se  incommo- 
dar  muito  com  a  jogatina.  Os  jornaes,  porem, 
comegaram  a  reclamar  contra  semelhante  im- 
moralidade.  O  dr.  Chefe  entao  ficou  entre  a 
cruz,  que  era  o  dever  de  olhar  pela  moral  pu- 
blica,  e  a  caldeirinha,  que  era  o  seu  espirito 
liberal.  Nao  sabia  o  que  fazer.  Nao  sabia  o 
que  resolver.  O'duvida!  Pobre  Hamlet  da 
rua  daRela9ao!  Afinal.depois  de  muito  reflec- 
tir,  achou  S.  Ex.  a  formula  capaz  de  conciliar 
OS  mais  altos  interesses  da  moral  com  os  mais 
baixos  interesses  dos  banqueiros,  croupiers, 
pharoesy  moscas  e  outros  animaes  da  immensa 
fauna  dos  jogadores.  A  formula  salvadora  da 
policia  era  esta :  o  jogo  so  seria  permittido  de 
cinco  horas  da  tarde  em  deante !  De  sorte  que, 


152  VERDADES    INDISCRETAS 

transportada  do  terreno  pratico  para  o  terreno 
especulativo,  a  decisao  do  Chefe  de  Policia 
podia  ser  reduzida  ao  seguinte  principio,  que 
Kant  infelizmente  nao  inscreveu  na  Critica. 
DA  Razao  Pratica:  «Ojogo  porserladroeira. 
e  crime  ate  cinco  horas  da  tarde :  dessa  hora. 
em  deante  deixa  de  ser  crime  para  ser  ac9ao 
indifferente,  caso  nao  seja  innocente«  .  Sic 
volo,  sic  jubeo  ;  sit  pro  ratione  voluntas.  Como- 
se  ve,  o  Dr.  Chefe  esta  creando  novas  inter- 
preta96es  da  vida.  .  .  Comegou,  pois.  o  jogo- 
a  funccionar  vastamente  das  cinco  da  tarde 
em  deante.  E'  claro  que,  com  semelhante 
salvo-conducto,  a  jogatina  alastrou  se .  Os- 
jornaes  bradaram  as  armas  novamente.  Nao* 
podia  ser  assim.  Era  preciso  dar  provide n- 
cias  serias  para  livrar  a  cidade  de  seme- 
lhante cancro .  O  Dr .  Chefe  novamente 
poz-se  a  pensar.  Quem  pensa,  inventa.  For 
pensando  que  o  monge  Schwartz  descobriu 
a  polvora .  Foi  tambem  pensando  que  o  Dr. 
Chefe  descobriu  um  principio  de  moral,  ao> 
decidir  que  nao  houvesse  clubes  no  centra 
da  cidade,  mas  somente  nos  arrabaldes !  Eis  o 
principio :  aO  jogo,  sendo  uma  ladroeira,  nao 
pode  existir  no  centro  de  uma  capital  civiiisa- 
da,  mas  nos  arrabaldes  nao  faz  mal  nenhunt 
que  formiguem  6s  trapaceiros».  Devo  decla- 
rar  francamente  que  a  campanha  contra  ojogc^ 


O  JOGO   FRANCO...  153 

me  e  perfeitamente  indifferente.  Nao  vird 
abaixo  o  mundo  si  a  policia  cruzar  os  bra90s 
deante  do  numero  alarmalnte  dos  tripots  da 
capital.  O  que  me  interessa  nisso,  como  em 
tudo,  sao  OS  seus  aspectos  metaphysicos,  os 
aspectos  superiores.  Por  este  lado,  posso  ga- 
rantir  ao  dr.  Chefe  que  Ihe  sou  muito  grato 
por  aquelles  dois  novos  principios  de  moral 
que  me  ensinou .  Quando  estive  nas  aulas  de 
philosophia,  ouvi  muita  coisa  a  respeito  das 
sciencias  moraes :  mas  nao  conhecia  nem  po- 
dia conhecer  aquelles  dois  principios  admi- 
raveis  que  S.  Ex.  acaba  de  gloriosamente 
descobrir .  Mestre,  muito  obrigado  ! .  .  . 


Preconceitos  de  linguagem 


Na  Rumania,  segundo  dizem  os  jornaes 
francezes,  que  agora  muito  se  interessam  por 
tudo  quanto  diz  respeito  aos  moldo-valaquios, 
na  Rumania  ha  certas  palavras,  que  em  todas 
as  outras  linguas  cultas  tem  significagao  no- 
bre  e  que  entre  os  rumenos  tem  significagao 
pejorativa.  Chamar,  por  exemplo,  a  algum 
rumeno  marquez,  ou  condessa  a  alguma  ru- 
mena,  e  commetter  injuria  e  grande.  Entre 
elles,  nao  se  diz  principe  em  rumaico,  porque 
esta  palavra  tem  a  significa^ao  analogica  de 
jogral;  de  sorte  que  adoptaram  la  a  palavra 
franceza  prince,  para  designar  qualquer  mem- 
bro  da  familia  real .  A  palavra  rei  tambem 
e  injuriosa.  Tanto  assim,  que,  na  traducgao 
do  livro  biblico  dos  Reis,  escrevem  os  rume- 
nos LivRO  DOS  Imperadores  ! 

Em  portuguez  ha  tambem  palavras  de 
significagao  primitivamente  honesta  e  que  en- 


156  VERDADES    INDISCRETAS 

tretanto  agora  nao  podem  ser  pronunciadas 
deante  de  pessoas  de  respeito.  No  norte  de 
Minas,  por  exemplo,  como  no  norte  de  todo 
o  paiz,  chamar  dama  a  uma  senhora  e  arriscar 
a  pelle.  Dama,  la  por  aquellas  plagas,  e  amu- 
Iher  perdida)). 

A  palavra  moga  pode  ser  pronunciada 
deante  de  quern  quer  que  seja.  «Esta  menina 
esta  ficando  moga.  —  Sua  filha  e  uma  bella 
mogaa — sao  expressoes  correntes;  entretanto, 
querendo  alguem  referir-se  a  amasia  de  al- 
guem,  diz :    kA  moga  de  Fulano!» 

Rapariga  f  E'  uma  das  palavras  mais  lin- 
das  da  nossa  lingua.  Em  Minas,  entretanto, — 
rapariga  applica-se  mais  as  mulheres  do  ser- 
vigo  domestico,  isto  e,  amas,  cosinheiras, 
arrumadeiras,  etc .  Aqui,  ja  vae  tendo  signi- 
ficagao  pejorativa :  casa  de  raparigas  e  o 
mesmo  que  bordel.  Ora  e  um  absurdo  isso . 
Rapariga  e  simplesmente  feminino  de  ra- 
paz .  Seria  encantador  poder  toda  gente  di- 
zer,  como  ainda  ha  dias  ouvi  dizer  a  um  espi- 
rito  eminente,  que  me  da  a  honra  da  sua  ami- 
zade :  « V.  nao  imagina  que  rapariga  valente 
e  minha  mulher.» 

Mae/  Nao  se  discute  a  belleza  desta 
suavissima  palavra.  Pois  tambem  a  palavra 
mde  vae  assumindo  significa^ao  equivoca.  Em 
certas  locugoes  e  um  vocabulo  pelo  menos 


PRECONCEITOS  DE  LINGUAGEM.  ..       157 

suspeito.  Os  jornaes  ji  comegam  a  substituil-o 
por  progenitora.  E'  incrivel !  Que  qualquer 
palavra  possa  derrancar  com  o  tempo  com- 
prehende-se ;  mas  a  palavra  mde  /  f  O  noticia- 
rio  elegante  tem  receio  de  dizer :  «  Faz  annos 
hoje  a  sra.  Dona  Fulana,  muito  digna  mae 
do  nosso  amigo  sr.  Beltranoa.Em  vez  de  mae, 
escrevem  progenitora,  que  ^  uma  palavra 
erudita,  secca,  como  todas  as  coisas  eruditas, 
fria  e  pernostica.  Mde  e  alguma  coisa  tepida, 
doce,  nobre  como  o  collo  materno.  Progeni- 
tora e  simplesmente  uma  delicadeza  de  mo- 
leque  hem  fallante. 

Mae,  collegas,  mae !  Devemos  escrever 
«a  mae  do  sr.  Fulano»,  da  mesma  forma 
que  escrevemos  «o  pae  do  sr.  Beltrano»  e 
c(0  filho  de  Dona  Sicrana)).  Ninguem  diz  na 
intimidade  —  «vou  beijar  minha  progenito- 
ra*, mas  simplesmente,  —  «vou  beijar  minha 
mae»  . 

E'  para  desejar  que  os  jornaes  abando- 
nem  de  uma  vez  a  pal^LVia  progenitora,  que  e, 
etymologicamente,  muito  mais  grosseira  do 
que  mde.  Progenitora  comp6e-se  do  prefixo 
pro  e  da  raiz  genit,  de  gigno,  gignis,  genui, 
genitum,  gignere,  que  quer  dHzer  gerar.  De 
maneira  que,  posta  em  bom  vernsiculo,  proge- 
nitora e  a  pro  ou  ante-geradora  do  sr.  Fulano^ 
Nao  sei  onde  esta  a  delicadeza  desta  expres- 


158  VKRDADES   INDISCRBTAS 

sao...  Por  conseguinte,  de  uma  vez  para  sem- 
pre,  estabelegamos  que  os  homens  tern  vir- 
tuosas  e  dignas  mdes,  e  nao  ridiculas  e  pet- 
hosticas  progenitoras. 


O  Feiticeiro 


Um  guarda  civil  que  rondava  de  madru- 
gada  pela  rua  dos  Arcos,  percebeu,  no  pavi- 
mento  terreo  de  certa  casa,  uns  claroes  incon- 
stantes  e  fugidios.  Em  outros  tempos,  qual- 
quer  dragao  da  ronda  se  teria  persignado  e  in- 
vocado  o  auxilio  do  alto  contra  visoes  diabo- 
licas.  Ca  o  nosso  guarda  nao  pensou  em  tal . 
Claroes  inconstantes  e  fugazes?  Principio  de 
incendio.  Suppondo,pois,tratar-se  de  incendio, 
bateu  a  porta  da  dita  casa,  que  se  abrio  logo . 
O  civil,  com  algumas  pessoas  mais,  entrou, 
correu  ao  andar  terreo  e  deu  com  o  inespera- 
do.  Nao  havia  incendio.  Havia  simplesmente 
quatro  velas  accesas  pelo  portuguez  Lino  de 
tal,  que  estava  em  frente  dellas  a  dizer  coi- 
sas  cabalisticas  e  a  atirar  ao  fogo  sal  e  quero- 
zene.  Interrogado,  respondeu  Lino  que  aquillo 
elle  o  fazia  para  afastar  certas  coisas  que  Ihe 
atrapalhavam  os  negocios.  O  guarda  pensou 


160  VERDADKS   INDISCRETAS 

la  comsigo :  «  Este  homem  esta  em  sua  casa, 
s6zinho,  pacificamente  tratando  de  regulari- 
sar  OS  seus  negocios.  Ha  varies  meios  de  re- 
gularisar  os  negocios :  por  ordem  na  escripta 
levantar  um  emprestimo,  passar  algumas  notas 
falsas,  arranjar  modos  de  ser  fornecedor  do  go- 
verno,  etc.  Ora  este  homem  nao  langou  mao 
de  nenhum  destes  meios ;  logo  deve  ser  pre- 
so.tt  E  com  effeito  prendeu  Lino  e  o  levou 
para  a  delegacia.  O  delegado,  depois  de  ou- 
vil-o,  respondeu  que  nao  Ihe  encontrava  culpa 
e  mandou  soltal-o.  E'  evidente  que  o  delega- 
do fez  bem  ;  mas  nao  podia  ter  feito  melhor, 
si,  al^m  de  por  o  preso  em  liberdade,  man- 
dasse  dar-lhe  todas  as  satisfa95es  a  que  tem- 
direito  qualquer  cidadao  que  e  preso  por  en- 
gano?  Porque  Lino  foi  victima  de  engano. 
Esse  homem,  si  estivesse  em  sua  casa,  aquella 
hora,  debrugado  sobre  a  sua  secretaria,  ali- 
nhando  cifras  num  grande  livro  para  poder 
regularisar  os  seus  negocios,  com  certeza  nao 
seria  incommodado.  Ora,  quando  elle  atirava 
sal  e  querozene  ao  fogo,  estava,  a  seu  modo, 
methodisando  a  sua  vida  de  mercador.  E  uma 
vez  que  esse  systema  Ihe  parecia  eflficaz  e  nao 
perturbava  a  ordem,  cumpria  a  policia  respei- 
tal  o.  Respeitemos,  pois,  os  feiticeiros.  .  . 


Bailarinas... 


Bern  fazem  as  mulheres :  vestem-se  de 
branco ;  decotam-se  o  mais  que  podem ; 
encurtam  as  saias.  .  .  Uma  vez  que  paes  e 
maridos  nao  se  opponham  a  tal,  que  temos 
nos  com  isso  ?  Esses  saiotes  suggerem  muitas 
coisas,  principalmente  lembrangas  do  passado. 
Quando  as  vejo,  lembro-me  de  bailarinas  e 
penso  quanto  estamos  adiantados  relativa- 
mente  ao  seculo  de  Luiz  XIV,  por  exemplo . 
Quando  se  fundou  a  primeira  scena  lyrica  em 
Paris,  por  iniciativa  do  padre  Perrin,  as  baila- 
rinas eram .  .  .   machos ! 

A  appari9ao  de  mulheres  no  palco  seria 
urn  escandalo.  So  em  1681  Lulli  conseguiu  a 
cumplicidade  das  damas  da  corte  para  que  as 
mulheres  pudessem  representar  no  seu  baila- 
do  Triompke  de  t  Amour.  As  princezas  mais 
soberbas  tomaram  parte  nesse  bailado.  Entre 
outras :  a  Delphina  de  Fran9a,  Mile,  de  Conti, 

11 


162  VERDADES    INDISCRETAS 

a  princeza  de  Guemene,  como  nympha  de 
Diana,  Mile,  de  Poitiers,  de  nayade,  Mile,  de 
Sevigne,  futura  condessa  de  Grignan .  .  .  Dias 
depois,  o  bailado  foi  repetido  para  o  grande 
publico,  na  Opera,  com  as  primeiras  bailarinas 
contractadas,  que  eram  apenas  quatro.  Suc- 
cesso  louco !  A  direcgao  da  Opera  contractou 
mais  bailarinas !  Mas  ninguem  pense  que  ellas 
dansassem  de  maillot  e  saiotinho  de  gaze  e 
barbatanas  como  hoje.  Em  primeiro  logar, 
cada  bailarina  vestia-se  como  queria ;  em  se- 
gundo  logar  vestiam-se  a  moda  do  tempo, 
isto  e,  saia  cumprida  e  larga,  busto  acochado 
em  collete  de  barbatanas,  mangas  apertadas 
ate  o  cotovello.  De  pernas  nem  signal .  .  .  O 
aphorismo  fundamental  neste  assumpto  hoje 
em  dia  e  :  «  O  primeiro  dever  de  uma  baila- 
rina e  mostrar  as  pernas.))  Naquelle  tempo 
este  aphorismo  ainda  nao  existia.  So  em  1726 
a  Camargo  teve  a  ousadia  de  apparecer  de 
saia  curta  em  scena .  Mas  que  escandalo  t 
Grimm,  que  estava  em  Paris  nessa  occasiao, 
conta  que  os  jansenistas  protestaram  contra 
tao  grande  falta  de  decoro.  Os  molinistas,  pelo 
contrario,  approvaram.  A  Sorbona  teve  de 
metter-se  no  meio  da  contenda.  Mas  a  moda 
das  saias  curtas  pegou .  .  .  Entretanto  havia 
ainda  no  traje  das  bailarinas  uma  pe^a  des- 
graciosa :  eram   as  calgas,  que  vinham  ate  os 


BAILARINAS.  .  .  163 

joelhos  e  appareciam  atrozmente  sob  a  saia. 
Ah  !  nao    houve   duvida :  supprimiram-se  as 
cal9as!  Mas  uma  noite,  na  Oper4   Mile.  Ma- 
riette  ia  esbogar  um  passo  de  dansa  quando  a 
fimbria  da  sua  saia  se  prendeu  numa  quinade 
scenario  de  tal  maneira  que  a  pobrezinha  nao 
teve  remedio  senao  exp  jr  ao  publico,  durante 
tres  segundos,   les  dessous  du  panier .  .  .    A 
Mile.  Maisonneuve  succedeu  egual  aventura 
dias  depois  no    Theatre  Fra7i(,jis.  Entao  as 
autoridades  inquietaram-se.  A  policia  baixou 
um  ucase,  tornando  obrigatorio  o  uso  do  cal- 
gao  para  todas  as  comediantes,  cantoras,    co- 
ristas,  bailarinas  e  figurantes  de  todos  osthea- 
tros  de  Paris.  Mas  o  calgao  era  desgracioso . 
Deixava  muita  dobra  em  evidencia.  Ahi  por 
volta  de  1791,  ja  em  pleno  dominio  da  Revo- 
lugao,  um  sujeito  chamado    Maillot  inventou 
o  accessorio  que  Ihe  immortalisou    o  nome . 
Agora,  sim,  a  illusao  da  nudez  era  perfeita, 
principalmente  quando  o   maillot  era  roseo 
claro.  Foi  logo  adoptado  em  todos  os   palcos 
da  Europa,  menos  em  Napoles,  onde  a  c6rte 
se  escandalisou.  O  interessante  e  que  o  proprio 
Papa  permittiu  o  uso  do  maillot  em  todos  os 
theatros  dosseus  Estados;  apenas  exigiu  que, 
em  vez  de  roseo,  fosse  azul!  E  ahi  estd  come, 
de  Luiz  XIV  para  ca,  as  bailarinas  foram  dimi- 
uuindo  as  roupas,atechegarem  a  Isadora  Dun- 


164  VERDADES  INDISCRETAS 

can,  que  dansa  apenas  de  kiton  grego.  Para 
este  clima  selvagem  o  kiton  e  o  traje  natural- 
mente  indicado.  A  nao  ser  que  prefiram  voltar 
ao  vestuario  tradicional  do  nosso  clima:  a  sim- 
ples cinta  de  pennas  ao  redor  da  cintura . 
(O  tacape  e  dispensavel).  Deve  ser  muito  hy- 
;gienico;  e  a  prova  e  que  nao  ha  na  nossa 
historia  o  mais  vago  indicio  de  que  os  indios 
morressem  de  insola^ao.  .  . 


O  jogo  e  vicio  ? 


Outra  vez  entra  o  jogo  em  discussao . 
Isso  faz  parte  do  programma  annual  de  cada 
folha.  Pergunta  toda  a  gente  si  a  policia  pode 
regulamentar  o  jogo.  Si  pode?  Pode — nao  : 
deve.  Os  jurisconsultos,  os  homens  de  toga  e 
garnacha,  quando  se  Ihes  faz  esta  pergunta, 
explodem  em  escrupulos  por  causa  do  Codigo 
Penal.  O  Codigo  prohibe  o  jogo;  logo  o  go- 
verno  deve  punil-o.  Regulamental-o  nunca. 
Mas,  nesse  caso,  reformem  o  Codigo.  Esta 
verificado  que  todos  os  codigos  domundo  sac 
impotentes  para  exterminar  o  jogo.  Haja  o  que 
houver,  o  homem  joga.  O  jogo  e  a prostitui9ao 
nunca  deixafrao  de  existir.  Neste  caso,  incor- 
poremos  estas  duas  respeitaveis  instituigoes 
aos  nossos  habitos  e  trataremos  de  regulamen- 
tal-as,  afim  de  evitar  que  ellas  continuem  a 
produzir  os  males  que  produzem.  «Oh  !  ex- 
clamam  os  moralistas,  regulamentar  o  jogo  € 


166  VERDADES  INDISCRETAS 

encampar  o  vicio».  Que  preconceito!  Ojogo 
e  simplesmente  uma  asneira,  si  quizerem;  mas 
nao  se  pode  deixal-o  campear  infrene,  so  por- 
que  o  governo  nao  pode  encampar  o  vicio.  O 
sujeito  que  pega  todo  o  seu  dinheiro  eo  leva 
diariamente  a  banca  dojogochama-se  vulgar- 
mente  um  viciado.  Pura  convengao,  baseada 
no  conceito  do  peccado.  O  nosso  Codigo  Pe- 
nal esta  baseado  neste  principio  theologico  : 
o  peccado.  Persegue-se  ojogo,  no  fundo,  por 
ser  peccado;  perseguem-se  as  meretrizes,  por- 
que  sao  peccadoras.  E  esses  peccados  todos 
reunidos — o  jogo,  oamor  clandestino  e  ou- 
tros — chamam-se  o  Vicio.  Questao  de  pala- 
vra.  Pois  regulamentemos  o  vicio  ja  que  nao 
e  possivel  extirpal-o.  O  individuo  que  arrisca 
o  seu  dinheiro  aos  azares  do  panno  verde  e 
fica  a  noite  inteira  esperando  que  de  o  5  ou 
o  duplo  zero  nao  e  um  criminoso,  uma  vez 
que  Ihe  pertenga  o  dinheiro  que  elle  gaste.  Tal 
homem  e  simplesmente  um  asno.  Nesse  caso, 
ja  que  eimpossivel  cural-o  da  sua  asnice  por- 
que  permittir  que  s6  os  profissionaes  se  apro- 
veitem  della?  O  governo  deve  ser  pratico  e 
obrigar  esses  profissionaes  a  entregar  ao  Es- 
tado,  para  obras  humanitarias,  grande  parte  do 
dinheiro  que  surripiaram  ao  pobre  diabo  que 
se  deixou  depennar.  Pouco  importa  que  se 
trate  de  encampar  o  Vicio.    Nao  devemos  fi- 


O  JOGO   t  vicio?...  167 

car  presos  a  superstigoes  verbaes.  E  si  o  gover- 
no  tern  tao  grande  repugnancia  em  encampar 
o  Vicio,  nesse  caso  faga  uma  coisa:  antes  de 
Tegulamental-o,  decrete  que  o  jogo  nao  e  vicio 
e  explore-o  em  seguida .  .  . 


A  elegancia  masculina 


Correspondencia  de  Paris  da  noticia  de 
que  vao  voltar  as  modas  romanticas  para  os 
homens.  Ja  em  Paris  se  tern  exposto  os  novos 
modelos  de  txaje  d'homem,  modelos  copiados 
de  Alfredo  de  Musset:  chapeo  de  largas  abas, 
levemente  levantadas  d'ambos  os  lados,  casaco 
longo  e  de  cintura  justa;  grayata  borboleta 
e  cal9as  apertadas  principalmente  na  parte  in- 
ferior, proxima  aos  pes,  Estas  sao  as  linhas 
geraes.  As  minucias  s6  poderao  ser  conheci- 
das  a  vista  dos  figurines. 

Applaudamos  a  ressurreigao  das  modas 
romanticas.  O  realismo  estragou  tudo,  ate  a 
elegancia  masculina.  Vamos  finalmente  ficar 
livres  das  detestaveis  modas  norte-americanas, 
com  OS  seus  palet6s  saccos  e  intoleraveis  bom- 
bachas.  A  victoria  do  americanismo  nas  se- 
cedes de  modas  representa  o  maior  desastre 
soffrido  pelo  bom  gosto  masculino  neste  prin- 


170  VERDADES   INDISCRETAS 

cipio  de  seculo.  E'  perigo,  e  perigo  social  gra- 
vissimo,  acompanhar  os  Estados  Unidos  nesse 
capitulode  elegancias.Podemos  acompanhalos 
em  materia  de  electricidade,  organisa9ao  ban- 
caria,  liberdade  religiosa,  ordem  politica  e  coi- 
sassemelhantes.  Em  questao  demoda,  nao.  A 
moda,  por  menos  que  parega,  e  o  reflexo  das 
ideas  e  tendencias  de  um  povo.  Uma  cabel- 
leira  empoada  e  de  rabicho,porsi  so  permitte 
reconstituir  toda  a  physionomia  moral,  social 
e  artistica  do  seculo  XVIII:  a  ironia  de  Vol- 
taire, o  pincel  de  Boucher,  a  inspiragao  de 
Gliick,  a  gra9a  de  madame  de  Pompadour  .  . 
Uma  bombacha  americana  basta  para  demon- 
strar  toda  a  ausencia  de  bom  gosto  numa  nagao 
de  grandes  exigencias  no  aperfei^oamento 
dessas  coisas  chatas  e  indispensaveis  que  se 
chamam  —  Liberdade  e  Democracia  —  mas 
ainda  esteril  em  questoes  de  modas .  .  . 

Si  a  moda  e  o  reflexo  das  ideas ;  e  si  nos 
so  adoptamos  ideas  que  nos  venham  de  Franga 
sejamoslogicos:  adoptemosso  as  modas  bem 
genuinamente  francezas.  Quanto  as  modas 
norte-americanas,  appliquemos-lhe  prudente- 
mente  a  doutrina  de  Monroe,  e  aguardemos 
OS  modelos  de  Alfredo  de  Musset,  sem  nos  es- 
quecermosque  ellesbempodem  fazer  o  mila- 
gre  de  resuscitar  os  modelos  George  Sand . . . 


A  elegante  e  o  mendigo 


Minha  senhora — Hoje,  pela  manha,  pas- 
sando  eu  casualmente  pela  porta  da  matriz  da 
Gloria,  no  largo  do  Machado,  como  saisse  da 
egreja  muita  gente,  quedei-me  a  olhar  os  que 
desciam  as  escadas,  aos  grupos,  ou  isolada- 
mente.  E  V.  Ex.,  a  quern  nao  conhe^o,  era  das 
mais  formosas  mulheres  que  vi  descer.  O  seu 
vestido  curto,  de  seda  azul  marinho ;  as  suas 
botinas  de  cano  alto ;  aquelle  chapeo  encan- 
tadoramente  simples ;  o  sorriso  com  que  V. 
Ex.  falava  a  sua  companheira ;  os  seus  cabel- 
los  de  um  louro  infernal  (e  sem  auxilio  d'agua 
oxygenada,  o  que  e  raro)  —  tudo  isso  me 
fazia  suppor  que  V .  Ex .  fosse  um  daquelles 
entes  que  no  tempo  do  finado  Jose  de  Alencar 
e  do  mallogrado  Garrett  se  chamavam :  o  Anjo 
do  Amor,  o  Anjo  da  Esperanga,  oanjo  disto, 
o  anjo  daquillo .  .  .  Vi  mais  o  seguinte  :  quan- 
do  V.  Ex.  descia  os  ultimos  degraus,  esten- 
deu-lhe  um  mendigo  a  mao  a  esmola.  V.  Ex. 


172  VERDADES    INDISCRETAG 

olhou  para  elle  indifferentemente  e  seguiu  seu 
caminho  com  a  companheira,  sem  Ihe  dar  um 
niquel.  Fiquei  desilludido,  nao  da  sua  formo- 
sura,  mas  da  sua  caridade .  .  .  para  com  os 
belgas .  Aquelle  mendigo  e  belga,  minha  se- 
nhora.  Tern,  portanto,  direitos  adquiridos  i 
caridade  de  todas  as  brasileiras.  Bem  sei,  6 
creatura  divina,  que  os  mendigos  devem  tra- 
zer  na  lapella  as  cores  alliadas  para  poderem 
receber  a  sua  esmola :  os  brasileiros  devem 
tambem  trazer  as  cores  nacionaes  na  gravata 
ou  no  chapeo,  em  forma  de  cocarde,  para  li- 
vrarem  as  suas  patricias  do  trabalho  de  abrir  a 
bolsinha  e .  .  .  Mas  si  aquelle  pobre  nao  trazia 
as  cores  alliadas,  era  isso  devido  a  campanha 
dos  submarinos  allemaes,  que  nao  permittem 
a  exportagao  de  fitinhas  tricolores  ca  para  estas 
bandas.  Garanto-lhe,  porem,  minha  senhora, 
que  o  pobre  homem  era  belga ;  e  V.  Ex.,  cujo 
marido  e  com  certeza  da  Liga  pelos  Alliados  e 
vendedor  de  carne  aos  allemaes,  nao  pode 
negar  auxilio  aos  belgas,  coitadinhos,  que  sao 
OS  flagellados  da  Europa.  Espero  que  para 
outra  vez,  minha  senhora,  a  sua  bondade  seja 
pelo  menos  egual  a  sua  belleza.  Nao  se  es- 
que9a  do  velho  proverbio :  Quern  da  aos  po- 
bres  empresta  aos  belgas.  Nao !  Nao  e  bem 
isto !  O  proverbio  authentico  e  est'outro : 
Quern  da  aos  belgas  empresta  a  Deus. 


Le  Roi  s'amuse 


Telegramas  de  Londres  dizem  que  el-rei 
D.  Manoel  II  de  Portugal  deslocou  o  torno- 
zelo  quando  joga  uma  partida  de  lautennes. 

Ora  ahi  esta  um  telegramma  que  nao 
devera  ter  sido  transmittido  ca  para  a  America 
nem  para  parte  alguma. 

Nao  quero  dizer  que  Sua  Majestade  seja 
obrigado  a  ir  acutilar  tudescos  nos  campos  de 
Franga.  Sua  Majestade  nao  e  obrigado  por 
lei  nenhuma  a  ser  heroe ;  mas  e  obrigado  a 
manter  certa  linha .  .  .  Nao  se  concebe  que 
Sua  Majestade,  o  primeiro  fidalgo  do  seu 
reino,  quero  dizer,  da  Republica  de  Portugal, 
em  vez  da  espada  tenha  agora  na  mao  uma 
simples  raqueta.  Perante  o  conilicto  europeu, 
acho  pouco .  .  . 

Eu  estou  vendo  daqui  o  quadro  ca  em 
Franca  e  la  em  Africa,  francezes,  inglezes  e 
ate  portuguezes  transportados  em  macas  para 


174  VERDADES    INDISCRETAS 

OS  hospitaes  de  sangue,  ou  mandados  em 
massa  para  a  sepultura :  la  em  Windsor,  num 
parque  aristocratico,  Sua  Majestade  torce  o 
pe,  e  amparadoporum  jovem  lord,  e,  cercado 
das  senhoras,  vae  mancando  e  gemendo  para 
o  seu  quarto,  esperar  que  venha  um  physico 
recompor-lhe  o  tornozello...  Pode  ser  elegan- 
tissimo,  mas,  francamente,  todos  nos,  que 
temos  o  mais  alto  conceito  das  Majestades, 
preferiamos  ler  um  despacho  como  isto : 

((LoNDRES,  22  —  Na  ultima  carga  de 
lanceiros  em  Ypres,  recebeu  um  langago  no 
peito  o  Sr.  Dom  Manoel  II,  rei  de  Por- 
tugal, que  apezar  de  ferido,  continuou  a bradar 
Por  Sant' lago  !  e  a  bater-se  ate  que  Ihe  falta- 
ram  as  forgas  e  elle  cahiu  do  cavallo.  Sua  Ma- 
jestade foi  transportado  sem  sentidos  para  as 
ambulancias  e  destas  para  Paris,  depois  dos 
curativos  mais  urgentes.  E'  melindroso  o  seu 
estado.  A'  sua  cabeceira  velam  as  Sras. 
Rainhas  D.  Amelia  e  Victoria)). 

Confesso  que  era  muito  mais  incommo- 
do  para  Sua  Majestade  :  era  porem,  mais  di- 
gno  de  rei .  .  . 


Casamentos  por  annuncios 


Repugna  a  razao  que  os  casamentos  se 
fa9am  por  meio  de  annuncios  ?  Nao.  Que  e 
um  casamento  ?  Um  contrato.  Juridicamente, 
quer  em  direito  civil,  quer  em  direito  cano- 
nico,-nao  e  outra  coisa.  Ora,  si  e  um  contrato, 
nada  impede  que  se  venha  a  fazer  por  meio 
de  annuncios,  como  si  se  tratasse  de  uma  sim- 
ples compra  de  gado,  de  gazolina,  etc.  De 
modo  que  a  razao  nao  repugna  que  um  casa- 
mento se  realise  por  via  de  annuncios  distri- 
buidos  nas  folhas.  O  essencial  e  que,  na  assi- 
gnatura  do  contrato,  haja  liberdade  plena  en- 
tre  as  partes  contratantes . 

Repugnara,  porem,  ao  coragao  ?  Aqui  o 
problema  assume  proporgoes  mais  complexas. 
Le  coeur  a  ses  raisons  que  la  raison  ne  connaif 
pas,  dizia  Pascal.  Querem  os  sentimentaes  que 
ao  casamento  preceda  largo  e  intimo  conhe- 
cimento  reciproco  dos  nubentes.  Dizem  que 


176  VERDADES  INDISCRETAS 

sao  exigencias  do  cora9ao .  Nao  creio  muito 
nas  exigencias  do  coragao-Num  caso  ou  noutro 
ellas  existem  com  effeito.  Nao  constituem, 
porem,  regra  geral.  O  homem  moderno  nao 
e  um  animal  amoroso  :  e  antes  um  animal  in- 
teresseiro.  Quando  se  diz  o  homem,  esta  claro 
que  se  indue  tambem  a  mulher.  O  casamen- 
to  e  muito  menos  acto  de  amor  do  que  de 
conveniencia.  fn  omnibus  respice  finem,  diz  a 
velha.  Moral.  Ora,  qual  e  o  fim  do  casamen- 
to  ?  A  propagagao  e  a  conservagao  da  espe- 
cie,  dizem.  E  o  amor,  quando  se  satisfaz,  cuida 
da  conserva^ao  da  especie  ?  Absolutamente . 
O  amor  verdadeiro  e  egoista.  Os  proprios 
entes  reaes,  os  proprios  entes  sensiveis  Ihe 
inspiram  interesse  mediocre.  Si  e  assim.  que 
interesse  pode  inspirar  ao  amor  a  conserva^ao 
da  Especie,  que  e  apenas  uma  abstragao,  ou 
melhor,  uma  metaphora?  Fallando  mais  scien- 
tificamente  :  quando  o  macho  humano  esta  fe- 
cundando  a  sua  femea,  pensard  algum  delles 
na  conservagao  da  especie  ?  Sabe  toda  a  gente 
que  nao  .  .  .  Portainto  o  casamento,  como  con- 
trato,  nao  e  acgao  de  amor,  E'  acgao  de  con- 
veniencia, dictada  pelo  direito  positivo.  Si  6 
de  conveniencia,  nao  e  acto  de  coragao.  Logo 
e  acto  de  razao.  Si  e  acto  de  razao,  os  seus 
resultados  dependem  da  certeza  dos  calculos, 
do  ajuste  das  probabilidades  e  do  jogo  razoa- 


CASAMENTOS  POR  ANNUNCIOS.  .  .  177 

vel  das  circumstancias .  Logo,  nada  impede 
<{\ie  elle  venha  a  realisar-se  tendo  per  ponto 
<ie  partida  o  annuncio.  Isto  pode  nao  ser  sen- 
timental. Le  cceur  a  ses  raisons .  .  .  Afifirmo, 
porem,  que  e  logico  e,  portanto,  perfeitamen- 
te  adoptavel,  pois  que  na  vida  pratica  a  logica 
das  ac96es  e  muito  mais  util  do  que  o  senti- 
ment© . 


12 


J 


Amores  hediondos 


Abro  OS  matutinos  (para  consultar  a  opi- 
niao  dos  collegas  sobre  o  estado  da  coisa  pu- 
blica)  e  vejo  ao  alto  da  pagina:  Tragedia! 
Outros  titulos  e  subtitulos  ainda.  Entra  afinal 
a  narrativa  e  entram  as  photographias  referen- 
tes  ao  caso.  Examino  estas  ultimas.  Resolvo 
ler  a  noticia.  O  caso  e  vulgar.  Um  Joao  qual- 
quer  foi  abandonado  pela  sua  Joanna,  a  qual 
se  atirou  aos  bragos  de  outro  Joao.  Joao  I,  en- 
ciumado,  assassina  a  tiros  este  Joao  II.  Prom- 
pto .  .  .  Entao  examino  a  photographia  que 
tern  por  baixo  esta  legenda :  <c  Maria  do  Rosa- 
rio,  a  causadora  da  tragedia. »  Cbntemplo  o 
retrato  da  « causadora  do  desastre»  e  fico  a 
pensar.  Primeiro,  rio;  depois  penso;  afinal 
tomo  a  rir .  O  riso  ainda  e  a  maneira  mais 
commoda  de  apreciar  uma  tragedia  passional. 
A  causadora  da  tragedia  ^  uma  preta  trom- 
buda  de  carapinha,  com  certeza  immunda, 


ISO  V^RDADES    INDISCRETAS 

horripilante .  .  .  O  assassin o  e  o  assassinado 
sao  brancos,  sendo  que  o  primeiro  tern  ape- 
nas  vinte  e  um  annos.  E'  difficil  explicar 
porque  um  homem  chega  a  matar  um  rival 
por  causa  de  mulher  tao  horrivel.  Sim,  e 
inexplicavel,  porque  eu  conhego  varies  cava- 
Iheiros,  maridos  ou  amantes  de  mulheres  for- 
mosissimas,  os  quaes  cavalheiros  sabem  que 
ellas  OS  enganam,  e  entretanto  nao  matam 
ninguem !  Nem  ao  menos  reclamam .  .  .  O 
homem  da  Favella,  por  causa  de  uma  hedion- 
da  preta,  foi  para  a  Deten^ao ! 

Talvez  tenlia  razao  aquelle  philosopho 
que,  negando  a  existencia  da  belleza  feminina, 
t.       disse  que  esta  so  existia  na  imagina9ao  do  ho- 
\         mem,  do  mesmo  modo  que  a  belleza  da  galli- 
nha  s6  existe  na  imaginagao  do  gallo .  Si  e 
assim,  devia  ser  interessante  conhecer  a  con- 
cepgao  da  belleza  que  tera  o  assassino  aman- 
te  da  Carmen  Hottentote,  da  Favella .    Estes 
Gonceitos,  alias,  nao  sao  dos  mais  novos.  Vol- 
taire ja  OS  admittia  quando  affirmava    que 
para  o  sapo  a  expressao  maxima  da  belleza 
estava  na  sapa:  le  chef  d xuvre  pour  le  crapaud 
c  est  la  crapaude.  E'  a  unica  maneira  mais  ou 
X-       menos  razoavel  de  explicar  os  ciumes  fataes 
do  amante  da  Maria  do  Rosario .  .  . 


Como  fazer  a  paz 


O  sr.  Wilson,  presidente  dos  Estados 
Unidos,  hontem  achava  ainda  inopportuna 
qualquer  tentativa  em  favor  da  paz.  O  sr.  Hen- 
derson, ministrro  sem  pasta  e  membro  do  Con- 
selho  de  Guerra  inglez,  discursando  num  ban- 
quete  dos  syndicatos  inglezes,  declarou  que 
a  Inglaterra  estava  disposta  a  continuar  a 
guerra  durante  qualquer  tempo,  fosse  curto, 
fosse  longo.  O  sr.  Henderson  esqueceu-se  in- 
felizmente  de  dar-nos  a  opiniao  particular  dos 
syndicatos  inglezes  a  respeito  da  guerra .  .  .  O 
embaixador  japonez  em  Paris,  desmentindo 
boatos  mentirosos,  affirmou  que  o  Japaq  coh- 
tinua  firme,  ao  lado  dos  alliados,  disposto  a 
tudo,  comtanto  que  a  Entente  triumphe.  Em- 
fim  toda  a  gente  so  pensa  na  guerra.  Por  em- 
quanto  ninguem  pensa  na  paz,  si  nao  f6r  pos- 
sivel  obter  o  que  todos  os  belligerantes,  cada 
qual  com  as  suas  intengoes,  chamam    (fcondi- 


182  VBRDADES   INDISCRBTAS 

goes  de  uma  paz  duradoura ...»  Ora  hontem, 
estando  sozinho  a  ler,  lembrei-me  de  um  meio 
facil  de  conseguir  a  terminagao  rapida  da 
guerra.  Sob  a  direcgao  do  sr.  Jean  Hanoteau, 
La  Revue  Hebdomadaire,  de  Paris,  publicou 
em  1913  os  Souvenirs  d'un  t^moin  de  la  re- 

TRAITE  DE  RUSSIE   ET    DES   CAMPAGNES  DE  1813 

ET  1814, de  Dominique  Renaud,  official  inten- 
dente  da  Grande  Armee. 

Este  riz-pain-sel  conta  as  coisas  com 
muito  bom  humor.  Narra  elle  que  havia  no 
exercito  um  pobre  diabo  que  passara  dois 
annos  na  Trappa,  onde  se  mettera  voluntaria- 
mente,  paraver  si  assim  conseguia  evitaro  re- 
crutamento.  Descoberto  na  suatoca,  foi  de  la 
arrancado  e  leva.do  d  forga  para  o  quartel;  Id, 
por^m,  vendo  ser  impossivel  fazer  delle  um 
soldado  ao  menos  soffrivel,  deliberaram  os 
commandantes  transformal-o  em  simples  fa- 
chineiro;  e  o  nosso  homem  Id  ficou  a  cuidar 
de  palha,  lixo  e  feno ...  O  silencio  que  elle 
fora  obrigado  a  guardar  no  convento  accumu- 
lara  nelle,  durante  dois  annos,  tal  desejo  de 
falar,  que  era  uma  verdadeira  matraca.  Nao 
parava  de  tagarellar  k  direita  e  a  esquerda . 
Medroso  como  uma  lebre,  bastava-lhe  ouvir 
um  tiro  de  espingarda  para  comegar  a  tremer; 
e,  ao  primeiro  tiro  de  canhao,  entupia  os  ou- 
vidos  de  algodao,  que  trazia  sempre  comsigo. 


COMO    PAZSR  A  PAZ.  .  .  183 

O  que  todos  notavam  era  que  elle  nao  pas- 
sava  por  uma  egreja,  fosse  onde  fosse,  sem 
entrar  e  rezar  alguns,  instantes.  De  uma  feita, 
indo  a  uma  egreja,  quasi  foi  preso  pelos  prus- 
sianos,  mas  conseguiu  salvar-se,  correndo 
como  um  gamo.  Um  dia  perguntaram-lhe  que 
diabo  ia  elle  fazer  tantas  vezes  as  egrejas. 
Admirar  as  imagens,  a  architectura,  os  monu- 
mentos? 

—  «Nao,  respondeu  o  ex-trapista;  vou 
<iizel-o  a  voces  que  soffrem  como  eu.  Eu, 
quando  vou  a  egreja,  e  para  pedir  a  Nossa 
Senhora  que  mande  colicas  a  todos  os  que 
sao  causa  da  guerra. 

— E  acreditas  que  isso  faria  cessar  a 
guerra? 

— Oh !  tenho  certeza,  porque  tenho  co- 
licas muitas  vezes  e  sei  o  que  sao  ellas .  .  . 

O  certo  e  que  tempos  depois  a  guerra 
acabou-se.  Napoleao  foi  para  Santa  Helena . 
A  paz  reinou  em  todo  o  mundo .  Nao  seria 
bom  que  a  Virgem  mandasse  colicas  aos  bel- 
ligerantes  ? 


A  Irianda 


No  seu  ultimo  discurso  perante  o  parla- 
mento  britannico,  alJudiu  o  sr.  Lloyd  George 
i.  questao  irlandeza  pela  seguinte  forma : 

«Desejaria  tambem  dizeralgu-^ 
ma  coisa  hoje  acerca  da  questao  ir- 
landeza, mas  s6mente  direi  o  se- 
guinte: desvanecer-me-ia  que  fosse 
possivel  fazer  que  se  dissipasse  o 
mal-entendido  que  existe  entre  a 
Gra-Bretanha  e  a  Irianda,  e  que,  de 
ha  seculos,  si  e  uma  fonte  de  mise- 
ria  para  uma,  6  um  embarago,  uma 
causa  de  fraqueza  para  a  outra . 

«Os  erros  nao  estao  todos  do 
mesmo  lado.  Sente-se  que  o  nosso 
movimento  se  opera  numa  atmos- 
phera  de  suspei^ao.  Nao  so  os  ir- 
landezes  desconfiam  dos  inglezes^ 


186  VBRDADES   INDISCRETAS 

como  tambem — o  que  e  mais  grave 
— OS  irlandezes   desconfiam,   elles 
proprios,  uns   dos  outros.  Si  essa 
desconfian9a  pudesse  desapparecer, 
creio  que  se   poderia  verificar   um 
acto  de  reconciliagao,  que  tornaria 
a  Irlanda  e  o   Imperio  maiores   do 
que  nunca  o  foram .  » 
Nao  e  s6  o  primeiro  ministro   da   Ingla- 
terra  que  deseja  ver  dissipado  o    ccmal-enten- 
dido  que  existe  entre  o  Gra-Bretanha  e  a   Ir- 
landa)). O  mundo  inteiro  o   deseja.    Deseja 
e  admira  a  notavel  habilidade  com  que  os  in- 
glezes,  sempre  que  se  referem  a  Irlanda,  nunca 
alludem  si  nao  «ao  mal-entendido))    existente 
entre  a  Inglaterra  e  a  ilha  de  S .  Patricio. 

Quando  se  le  qualquer  documento  inglez, 
ainda  os  mais  respeitaveis,  os  mais  graves  e 
impertigadamente  officiaes,  cumpre  nao  per- 
der  de  vista  que  a  Inglaterra,  si  e  a  terra  clas- 
sica  da  liberdade,  e  tambem  a  patria  do  hu- 
mour. Ha  sempre  um  pouco  de  Charles  Di- 
ckens e  de  Bernard  Shaw  nas  affirm agoes 
mais  solemnes  dos  primeiros  ministros  ingle- 
zes.  Com  effeito  os  inglezes  entraram  ha  se- 
culos  pela  Irlanda  a  dentro;  subjugaram-na, 
impozeram-lhe  a  Re  forma  protestante  que  Ihe 
repugnava  e  que  so  mais  tarde  foi  attenuada. 
Ao  tempo  de  Henrique  VIII,  a  Irlanda  catho- 


A   IRI^ANDA  187 

■lica  foi  tratada  pelos  anglicanos  como  a  Polo- 
nia  catholica,  ao  tempo  de  Maria  Thereza,  foi 
tratada  pelos  austriacos  e  pelos  russos .  Foi 
preciso  que  a  eloquencia  de  O'Connell  com- 
movesse  a  Kuropa  no  principio  do  seculo  XIX, 
para  ^que  os  irlandezes  obtivessem  alguns 
direitos,  que  depois  Gladstone  ampliou  libe- 
ralmente.  Mas  a  verdade  e  que  os  inglezes 
continuam  a  dominar  a  Irlanda,  por  proces- 
sos  um  pouco  diversos  dos  empregados  por 
Henrique  VIII  e  Isabel,  mas,  emfim,  sejacomo 
f6r,  continuam  a  dominar  a  Irlanda.  Vae  dahi, 
vem  o  sr.  Lloyd  George  e  declara  que  teria 
muito  prazer  em  ver  desfeito  o  mal-entendido 
que  ha seculos  separa  a  Irlanda  da  Inglaterra... 
Eu  estou  muito  longe  de  ter  competen- 
cia  para  ser  ministro  da  Inglaterra;  entretanto, 
permitto-me  a  liberdade  de  indicar  ao  sr. 
Lloyd  George  o  caminho  mais  curto  para  ver 
dissipado  esse  secular  « mal-entendido »:  basta 
que  o  governo  inglez  conceda  autonomia  aos 
irlandezes,  aquella  autonomia  que  elles  ja  ti- 
nham  «ha  seculos»  e  que  os  inglezes  toma- 
ram.  .  .  Os  amigos  inglezes  precisam  de  ser 
logicos :  combater  a  Allemanha  por  causa  da 
neutralidade  da  Belgica  e  continuar  a  ter  a  Ir- 
landa sob  o  guante  de  ferro  de  Albion  e,  pelo 
menos,  um  contrasenso.  O  caso  da  Irlanda  6 
muito  parecido  com  o  da  Polonia ...    Os  in- 


188  VERDADES    INDISCRETAS 

glezes,  com  o  seu  gros  bon  sens,  devem  saber 
disso  melhor  que  qualquer  outra  na^So. 

Quanto  i.  desconfian9a  dos  irlandezeft 
uns  pelos  outros,  isso  e  li  com  elles.  Que  me 
importa  a  mim  que  os  filhos  da  familia  visinha 
sejam  desconfiados  entre  si?  O  que  a  con- 
sciencia  ordena  e  que  eu  os  deixe  em  paz  e 
nao  procure,  nem  directa  nem  indirectamente, 
servir-me  dessa  desconfian9a  para  disputar-Ihes 
o  patrimonio .  .  . 


A  Mulher  e  a  Mentira 


A  Mulher  e  inimiga  da  Verdade.  Quer 
isto  dizer  que  ella  minta  por  systema?  Nao. 
Mente  por  instincto.  Systema  suppoe 
«ordem»  ;  ora  a  mentira  feminina  e  sempre 
uma  fonte  de  desordens  moraes  e  materiaes . 
Tambem  nao  quero  dizer  que  uma  vez  por 
outra  a  Mulher  nao  diga  algumapequena  ver- 
dade. Dil-a ;  mas  continua  sobretudo  a  nao 
gostar  de  « saber »  a  Verdade.  A  moga  solteira 
mente  menos  do  que  a  casada,  e,  alem  disso, 
supporta  mais  a  verdade  do  que  a  ultima.  Com 
a  mulher  casada  da-se  um  facto  curioso :  aos 
filhos  ella  pede  sempre  a  verdade ;  ao  marido 
obriga  a  mentir.  Ha  rapazes  que  mentiram 
pela  primeira  vez  depois  do  casamento .  .  . 
Qualquer  de  nos  sabe,  por  experiencia,  que 
nossas  maes  nos  pediam  sempre  a  verdade 
quando  eramos  crean9as : 


190  VERDADBS   INDISCRBTAS 

—  An  da,  meu  bem  ;  dize  a  verdade ;  si 
disseres  a  verdade,  nao  te  castigo  ;  quern  que- 
brouajarra? 

—  Fui  eu. 

E  nao  castigava,  realmente.  Obtivera  a 
verdade. . . 

Ao  marido,  pelo  contrario,  ellas  exigem 
mentiras.  Supponhamos  que  um  marido,tendo 
estado  num  clube,  aptnas  conversando  com 
companheiros  e  companheiras  alegres,  ao  che- 
gar  d  casa  diga  sinceramente  i  mulher:  «Es- 
tiveno  Clube  com  Fulano  eMIIe.  une  telle. ..ti 
Arderia  Troya.  De  sorte  que  elle  mente,  para 
nao  desgostar  a  esposa,  inimiga  da  verdade . 
Mais  ainda:  que  mal  havera  em  que  um  rapaz 
casado,  estando  na  cidade  e  tendo  de  fazer 
horas,  em  vez  de  ir  beber  nos  bars^  vd  a  um 
cinema?  Nenhum.  Mas  esse  rapaz,  ao  chegar 
a  casa,  nao  pode  dizer  a  esposa  que  esteve 
num  cinema,  porque  ella  chorard  logo :  «Sem 
mim ! »  E  suppora  horrores  do  marido .  .  .  Por 
isso  digo :  todo  trabalho  que  as  maes  t^m, 
quando  somos  pequenos,  para  nos  fazerem 
amar  a  verdade,  e  todo  destruido  pela  que 
tem  de  ser  a  mae  dos  nossos  filhos.  Mentimos, 
porque  ellas  o  exigem ... 


Odio  de  raga 


O  estudante  Jose  Basilio  Junior,  filho  de 
modesto  guarda-freio  da  E.  F.  Central  do 
Brasil,  alvejou  com  um  tiro  de  carabina,  cer- 
teiro  e  mortal,  ao  joven  Rosendo  Pereira  de 
Figueiredo,  rapaz  honesto  e  trabalhador,  func- 
cionario  dos  Telegraphos.  Rosendo  era  noivo 
da  senhorita  Lucia,  irma  do  assassino .  Este 
detestava  o  futuro  cunhado  (a  quern  a  irma 
idolatrava)  por  ter  elle  uma  nodoa  impossivel 
de  apagar-se :  era  mulato !  Ora  ahi  estd  um 
crime  estupido  e  inedito  no  Brasil.  Pelo  me- 
nos,  desde  que  me  entendo  por  gente,  ainda 
nao  ouvi  falar  de  coisa  semelhante :  um  estu- 
dante matar  o  futuro  marido  de  sua  irma,  so 
porque  elle  teve  a  desgra9a  de  nascer  mulato 
numa  terra  em  que  raros  nao  o  serao . .  .  Esse 
assassino,  tao  cioso  da  pouco  provavel  pureza 
de  seu  sangue,  devia  ter  considerado  uma  hy- 
pothese :  si  os  mulatos  resolvessem  cagar  os 


192  VERDADES  INDISCRETAS 

brancos,como  elle  fez  com  seu  future  cunhado, 
em  pouco  tempo  nao  haveria  no  Brasil  uma 
s6  pessoa  que  podesse  apresentar  certidao  de 
pelle  alva ;  porque  os  branco  no  Brasil  estao 
em  minoria.  Eis  ahi  um  assassino  mais  aris- 
tocratico  do  que  D.  Pedro  II.  E'  conhecido  o 
caso  de  Andre  Rebougas  num  baile  daCorte. 
Achava-se  o  illustre  Rebougas  a  um  canto  do 
vasto  salao  do  Pago  Imperial,  onde  era  fre- 
quentemente  recebido  pelosoberano  e  todaa 
sua  Augusta  Familia.  Achava-se,  pois,  Re- 
bougas  a  um  canto  do  salao,  insulado,  sem 
achar  uma  dama  que  Ihe  quizesse  dar  a  honra 
de  uma  valsa,  porque  elle  era  mulato,  quasi 
preto .  Parece  que  a  noticia  desse  desprezo 
chegou  aos  ouvidos  do  sr.  D  .  Pedro  II ;  seja 
como  for,  dahi  a  pouco  Sua  Magestade  atra- 
vessava  o  salao, trazendo  pelo  brago  a  S .  A  .  I. 
a  Sr^  D.  Izabel.  com  quem  Rebougas  dansou 
a  primeira  contra-dansa,  e  depois  nao  dansou 
com  mais  ninguem,  pois,  tendo  dansado  com 
a  sua  futura  soberana,era  evidente  nao  poder, 
depois  disso,  descer  a  dansar  com  qualquer 
baroneza,  ou  com  qualquer  condessa.  Era 
assim  que  o  imperante  sabia  desfazer  precon- 
ceitos  de  cor  —  consentindo  em  ver  publica- 
mente  pelo  brago  de  ummestigo  illustre  a  sua 
Filha,  a  unica  fidalga  authentica  do  Imperio, 
cuja  arv'ore   genealogica  podia  ser  acompa- 


ODIO   DE   RACpA  .  .  .  193 

nhada  numa  concatena9ao  de  nove  seculos 
ininterruptos  de  existencia  historica.  Era  pre- 
cise que  estivessemos  em  Republica  para  que 
o  filho  de  um  guarda-freio  matasseum  rapaz 
por  ser  mesti90 !  Como  si  a  mesti9agem  nao 
estivesse  tambem,  e  em  larga  eseala,  entre  os 
brancos,  como  dizia  Luiz  da  Gama : 

B6des  ha  de  toda  a  casta, 

Pois  que  a  especie  e  mui  vasta ; 

B6des  brancos,  b6des  pretos, 

Baios,  pampas  e  malhados  : 

B6des  ricos,  negociantes, 

E  tambem  alguns  tratantes . . . 

Ora  assim  sendo,  o  melhor  e  seguir  o 
conselho  do  mesmo  poeta,  quando  manda 
cessar  a  matinada  «porque  tudo  e  bodar- 
rada ! » 


13 


Suicidios 


O  caso  foi  simples.  Em  Sete  Lagdas  (Mi- 
nas),  diz  o  telegramma,  um  mogo  gostava  de 
uma  moga,  que  Ihe  correspondia  ao  affecto . 
O  irmao  della,  porem,  n5o  quiz  consentir  no 
casamento.  O  rapaz,  desvairado,  bebeu  ve- 
neno  e  morreu.  Em  Minas  ainda  e  assim  que 
se  resolvem  casos  de  amores  infelizes.  Serd, 
porem,  essa  a  melhor  maneira  de  resolvel-os? 
Parece  que  nao.  O  suicidio,  em  circumstancia 
como  essa,  e  inutil.  Si  a  mo9a  queria  casar-se 
com  elle,  o  modo  mais  simples  de  dirimir  as 
difficuldades  seria  raptal-a  e  leval-a  d  presen9a 
do  juiz  de  paz,  como  la  dizem,  ou  do  pretor, 
como  se  diz  por  ca.  Si  ella  nao  o  amava,  ain- 
da havia  outros  caminhos  a  seguir :  elle  podia, 
por  exemplo,  erguer  as  maos  para  o  ceo,  em 
acgao  de  gramas,  por  ter  querido  enfeudar  a 
sua  liberdade  a  alguem,  e  esse  alguem  o  ter 
deixado    livre .  .  .    Podia  tambem  procurar  o 


196  VERDADES   INDISCRETAS 

amor  de  outra  mo^a.  Nao  ha  antidote  mais 
efficaz  para  curar  um  homem  do  veneno  de 
uma  mulher  como  o  veneno  de  outra  mulher. 
E'  mais  ou  menos  o  que  se  poderia  chamar 
«curar  a  dentada  da  cadella  com  o  pello  da 
propria  cadella. »  Males  de  amor  curam-se 
com  outro  amor.  A  Natureza  deu  acada  mu- 
lher o  odor  di  femina,  que  e  differente  em 
cada  uma ;  de  sorte  que  o  perfume  de  Maria 
nos  faz  esquecer  facilmente  o  perfume  de 
Zulmira,  a  nao  ser  que  o  amante,  o  marido  e 
o  namorado  sejam  como  o  asno,  que  se  acos- 
tuma  a  receber  a  ra<;ao  numa  baia  e  nao  pro- 
cura  outra.  O  homem  que  nSo  se  apega  a  mu- 
lher alguma  nao  e  voluvel,  nem  inconstante : 
6  simplesmente  sensato  e  amigo  de  si  mesmo. 
E  si  n6s  mesmos  nao  nos  dispuzermos  a  ser 
nossos  amigos,  difficilmente  encontraremos 
quem  o  seja.  .  . 


O  feminismo  periga 


A  continuarem  as  coisas  como  vao,  o  fe- 
minismo, pelo  menos  no  Brasil,  nao  trium- 
phara  tao  cedo.  Eu  sempre  fui  contrario  a  in- 
tromissao  das  mulheres  na  vida  publica.  Uma 
mulher  politica  e  um  estado  intermedio  entre 
o  homem  e  a  mulher,  que  nao  se  compre- 
hende.  E'  mulher,  por  fatalidade  de  gera^ao ; 
homem,  por  extensao  de  privjlegios  politicos; 
eternamente  creanga,  pelas  attitudes ;  em  re- 
sumo  —  um  ente  hybrido,  composto,  deriva- 
do,  de  estylo  composito,  trazendo  em  si  peda- 
gos  de  varios  entes  e  nao  sendo  nenhum  defi- 
nidamente.  Mulher  que  exergadireitos  politi- 
cos, nSo  sendo  rainha,  tambem  nao  e  ente 
humano :  e  um  estado  de  consciencia  corres- 
pondente :  a  perplexidade .  .  . 

Em  todo  o  caso,  momentos  houve  em 
que  me  senti  mais  ou  menos  feminista:  era 
quando    eu  considerava  um  pouco  na  desho- 


198  VERDADES    INDISCRBTAS 

nestidade  masculina,  em  materia  de  dinheiro. 
Innegavelmente,  as  mulheres  sao  mais  escru- 
pulosas  em  questoes  de  dinheiros  alheios.  Ge- 
ralmente,  pensava  eu,  os  homens  roubam 
para  as  mulheres.  Ora,  no  dia  em  que  collo- 
carmos  as  mulheres  a  frente  dos  negocios 
financeiros  do  Estado,  ja  nao  havera  roubos, 
porque  uma  mae  de  familia,  que  seja  por 
exemplo,  ministra  da  Fazenda,  nao  roubara 
para  dar  chapeos  a  uma  prostituta  —  o  que 
bem  poderia  acontecer  si  fosse  seu  marido  o 
ministro.  Suppunha  eu  ter  achado  com  isso  a 
formula  para  acabar  com  os  peculatos ! 

Vae  d'ahi,  comecei  a  observar  o  proce- 
dimento  das  mulheres  que  estao  at^sta  de 
repartigoes  por  onde  corre  dinheiro.  Vejo,  en- 
tretanto,  que  o  peculato  continiia  a  existir. 
Oh !  longe  de  mim  dizer  que  todas  as  mulhe- 
res sejam  eguaes,  pelo  menos  em  questoes 
de  furto;  mas  a  verdade  e  que  estao  sen  do 
muito  mais  frequentes  do  que  se  esperava  os 
casos  de  desfalques  em  agendas  postaes  diri- 
gidas  por  senhoras.  A  policia  anda  por  ahi  ds 
voltas  com  alguns  nao  so  aqui  como  no  inte- 
rior. 

D'onde  eu  concluo  que  a  entrada  das 
mulheres  para  a  politica  e  para  a  administra- 
^ao  do  paiz,  alem  de  trazer  graves  damnos  a 
familia,  nao  offerece  vantagem  alguma  i.  coisa 


O   FBMINISMO  PBRIGA.  .  .  199 

publica.  Os  vicios  continuarao  a  ser  os  mes- 
mos.  Ora,  uma  vez  que  assim  e,  fa9amol-as 
voltar  tranquillamente  ao  lar  e  deixemo-nos 
<ie  innovagoes.  Collocar  as  mulheres  no  logar 
<ios  homens,  para  que  ellas  procedam  exacta- 
anente  como  os  homens,  nao  vale  a  pena.  .  . 


Pacifism  0 


A  morte  do  feld-marechal  von  Moltke  faz 
pensar  no  paradox©  que  representara  a  nossa 
epoca  para  as  epocas  futuras,  si  algum  dia  vin- 
garem  as  id^as  pacifistas.  Ainda  ha  quern 
acredite  no  ideal  pacifista.  O  sr.  Teixeira 
Mendes,  por  exemplo,  quando  escreve  assuas 
costumeiras  cincoenta  columnas  do  Jornal  do 
Commercio,  nao  se  esquece  de  affirmar  que  o 
periodo  guerreiro  passou,  tendo  terminado 
definitivamente  na  batalha  de  Lepantho  !  R 
mais,  que  a  humanidade  caminha  a  passos  de 
gigante  para  a  realisagao  dos  ideaes  positi- 
vistas,  um  dos  quaes  e  a  paz!  Ainda  ha,  pois, 
quern  acredite  nos  ideaes  pacifistas...  Ora  si 
vingarem  esses  ideaes,  em  epoca  de  futura 
muito  remoto,  a  posteridade  deve  fazer  de  nos 
uma  idea  muito  approximada  da  que  fazemos 
nos  outros  dos  nossos  antepassados  das  eras 
quasi  primitivas.  Que  barbaros,  que  selvagens,. 
esses  avoengos ! 


2Q2  VSRDADBS   INDISCRBTAS 

Mas  o  melhor  e  nao  fallar  mal  dos  nossos 
ancestraes.  Todas  as  biographias  do  conde  de 
Moltke,  hoje  publicadas,  trazem  esta  phrase: 
(fFoi  commandante  da  Escola  de  Guerra.))  Jd 
pensaram  na  monstruosidade  que  representa 
isto  —  Commandante  da  Escola  de  Guerra  f 
Uma  escola  de  guerra  e  simplesmente  um  es- 
tabelecimento  em  que  se  recolhem  durante 
alguns  annos  centenas  de  rapazes  das  me- 
Ihores  familias  do  seu  paiz  para  aprenderem 
OS  melhores  processos  de  matar  muita  gente, 
de  incendiar  muitas  cidades,  de  devastar  mui- 
tas  regioes .  .  .  E  ha  um  cidadao  que  e  no- 
meado  commandant^ideste  estabelecimento, 
isto  e,  um  cidadao  que  e  mestre  na  arte  de 
matar,  incendiar  e  devastar ! 

Agora  pergunto  eu:  quaes  os  selvagens? 
Os  nossos  antepassados,  que  se  guerreavam 
por  instincto,  ou  n6s  que  temos  ate  escolas  de 
guerra? 

Decididamente  estamos  ainda  muito  lon- 
ge  do  ideal  positivista.  Emquanto  ninguem 
sentir  horror  ao  ouvir  fallar  de  uma  escola  de 
guerra,  emquanto  acharmos  muito  natural  que 
um  homem  seja  « commandante  da  Escola  de 
Guerra  0,  estara  muito  distante  de  nos  o  aper- 
fei9oamento  que  Augusto  Comte  previu  para 
a  humanidade.  .  . 


A  policia  e  espiritismo 


Os  homens  eram  espiritistas  e  recebiam 
na  sua  casa  alguns  mentecaptos  para  os  cura- 
rem,  isto  e,  mentecaptos,  em  calao  espiritico, 
chamam-se  obse dados ... 

Os  espiritas,  pois,  recebiam  na  sua  casa 
sujeitos  obsedados  para  Ihes  curar  a  obsessao 
mediante  mensalidade  que  variava  entre  cem 
e  trezentos  mil  reis.  A  policia  veio  a  saber  que 
OS  taes  obsedados  eram  espancados  pelos  es- 
piritas em  nome  das  mais  altas  e  sublimes 
doutrinas  de  Allan-Kardec  e  Leon  Denis .  A 
policia  o  soube,  foi  a  casa  dos  homens  que 
lidam  com  espiritos  e  levou  tudo  para  a  ca- 
deia.  Agora  gritam  que  o  chefe  foi  violento . 
Eu,  por^m,  te  pergunto  leitor,  si  fosses  chefe 
de  policia  e  nao  fosses  espirita,  que  farias  ? 
Serias  violento  ou  nao  ? 

Quanto  a  mim,  nao  vejo  outra  maneira 
de  combater  o  espiritismo  sinao  pela  violen- 


204  VERDADES    INDISCRETAS 

cia.  E'  o  systema  geralmente  adoptado  para 
esmagar  seitas  religiosas,  que  afinal  acabam 
vencendo  os  seus  pretendidos  vencedores. 
Com  o  christianismo  foi  assim.  Assim  tambem 
com  o  islamismo  e  com  o  judaismo  durante 
toda  a  Edade  Media  —  o  que  nao  impediu  o 
islamismo  e  o  judaismo  de  estarem  ahi  vivi- 
dos  e  fortes .  A  violencia  e,  pois,  o  unico 
meio,  alias  innocuo,  de  perseguir  seitas  reli- 
giosas. O  roubo,  o  assassinato,  o  lenocinio  e 
outros  crimes  communs  podem  ser  persegui- 
dos  normalmente,  dentro  daspresilhas  do  Co- 
digo.  Crimes  politicos  e  crimes  religiosos,  nao. 
Exigem  violencia,  porque  os  seus  asseclas 
agem  directamente  sobre  a  consciencia  das 
multid5es . 

Demais,  a  violencia  tem  de  ser  applicada 
aqui  no  Brasil  todas  as  vezes  que  se  quizer 
fazer  qualquer  coisa  util;  porque  neste  paiz 
nao  ha  apenas,  como^m  outros,  mil  chica- 
nas  para  burlar  as  leis;  ha  tambem  mil  leis 
que  ajudam  a  burlar  as  outras.  Querem  um 
exemplo.'*  O  Codigo  Penal  pune  a  pratica  do 
espiritismo,  como  a  da  feiti^aria:  a  Constitui- 
9ao,  porem,  garante  a  liberdade  profissional . 
De  sorte  que,  si  um  juiz  prender  um  espirita 
de  accordo  com  o  Codigo,  outro  juiz  mandard 
soltal-o  de  accordo  com  o  Pacto.  E  ainda  per 
cimavird  osr.  Teixeira  Mendes    com  um  ar- 


A   POWCIA   K   O   ESPIRITISMO  205 

tigo  de  420  tiras,  pugnando  «pelos  supremos 
direitos  da  Humanidado)  e  bombardeando 
toda  a  gente  com  terrificas  cita9oes  de  Au- 
gust© Comte,  a  favor  do  espiritismo  como 
livre  expressao  do  pensamento,  oriunda  da 
aanarchia  mental  e  moral  do  Occidente... 


Lopes  Trov&a 


Noticiam  largamente  os  jornaes  o  anni- 
versario  do  velho  propagandista  Lopes  Tro- 
vao,  que  completa  setenta  annos  como 
se  fizesse  apenas  quarenta  ou  quarenta  e  cinco. 
Boa  seiva,  a  de  outros  tempos.  Lopes  Trovao  6 
um  dos  paes  da  Republica,  tern  setenta  annos 
e,  apezar  disso,  esta  mogo.  A  sua  filhatem  ape- 
nas vinte  e  sete  annos  e .  .  .  esta  decrepita . 
E'  que  Lopes  Trovao,  como  todos  os  de  sua 
geragao,  teve  um  ideal,  e  nada  mais  tonifi- 
cante  do  que  um  ideal,  seja  qual  f6r.  Sua  fi- 
Iha,  pelo  contrario,  materialisou-se,  bestificou- 
se  em  todas  as  farras,  em  todas  as  esbornias 
de  que  e  capaz  uma  filha  do  povo ... 

Entrevistado  pela  Gazeta,  disse  Lopes 
Trovao  que  continua  a  ter  fe  na  Republica, 
apezar  de  nao  crer  nos  homens . . .  Quern 
diria  que  este  livre-pensador,  este  atheu  dos 
quatro  costados   (atheu  por  nuncater  vista 


208  VERDADBS  INDISCRETAS 

Deus.  .  .)  fosse  capaz  6s,fe  do  carvoeiro  em 
se  tratando  da  Republica?.  .  .  Porque  Lopes 
Trovao  estd  no  mesmo  estado  de  espirito  do 
catholico  que,  apezar  de  conhecer  a  fraqueza 
dos  padres,  continua  a  ter  f^  na  missa,  nos  sa- 
cramentos,  em  toda  a  Religiao,  emfim .  « A 
Religiao  e  divina,  dizem  elles ;  os  homens  e 
que  sao  fracos  ».  Vem  Lopes  Trovao  com  o 
mesmo  candido  argumento  e  nos  affirma  :  a  A 
Republica  e  b6a ;  os  homens  e  que  nao  pres- 
tam ...»  Fetichismo,  supersti9ao  de  ambos 
os  lados . .  .  Ainda  os  catholicos  tem  um  sub- 
terfugio  admiravel,  quando  proclamam  a  di- 
vindade  da  sua  religiao.  Lopes  Trovao,  que 
nao  admitte  a  divindade,  affirma:  « A  Repu- 
blica e  humana,  por  ser  filha  dos  homens ; 
ora  OS  homens  nao  prestam ;  logo  a  Republica 
e  b6aU  Como  se  ve,  o  syllogismo  esta  erra- 
do,  por  ser  a  conclusao  contraria  is  premissas. 
Como  corrigil-o?  Assim:  a  A  Republica  e  fi- 
lha desses  homens;  ora  esses  homens  sao 
maus;  logo  a  Republica  e  ma» .  Porque  ? 
Porque  o  effeito  e  semelhante  a  causa.  Mala 
gallina,  malum  ovum.  .  . 


No  cafe 


Jd  bem  tarde  da  noite,  entro  num  cafe . 
Concorrencia  heteroclita:  motoristas,  nocti- 
vagos,  rep6rteres  em  disponibilidade,  proxe- 
netas  com  um  vago  ar  de  apaches  de  cinema, 
e,  ao  fundo,  tres  raparigas  magrellas,  pallidas, 
de  olheiras,  tres  Mimis  anemicas  como  a  par- 
titura  da  Bohemia. 

A  uma  das  mesas  esta  um  rapazola  fran- 
zinote,  dezoito  annos  presumiveis,  solitario, 
sorvendo  um  refresco.  Nisto  entra  no  caf^ 
outro  rapazola,  d'ares  mais  sadios  e  apparen- 
tando  a  mesma  edade.  Olha  o  que  esta  assen- 
tado,  approxima-se  cautelosamente  e,  colhen- 
do-o  pelas  costas,  colloca-lhe  as  maos  sobre 
OS  olhos,  para  que  o  outro  adivinhe  quem  e. 
O  aggredido  forceja  por  tirar  dos  olhos  a  im- 
prevista  venda,  mas  o  assaltante  leva  a  me- 
Ihor.  Durante  alguns  minutos,  brincam,  ate 
que  o  aggredido,  conseguindo  desvencilhar-se, 

14 


210  VBRDADES   INDISCRBTAS 

reconhece,  a  sorrir,  o  seu  assaltante,  que  se 
abanca  a  seu  lado,  depois  de  abra9al-o.  Con- 
versam,  riem,  bebem.  Quern  paga  a  nota  e  a 
outro,  isto  ^,  o  primitivo,  o  aggredido. 

Quantas  vezes,  no  correr  da  vida,  um 
delles  tera  de  vendar  os  olhos  ao  outro  !  Um 
dia,  talvez  esse  Undo  ephebo  aggressive,  de- 
pois de  vendar  moralmente  os  olhos  do  seu 
amigo,  beije  nos  labios  e  ame  a  esposa  delle  \ 
E  continuarao  a  ser  amigos ;  e  continuarao  a 
assentar-se  a  mesma  mesa;  e  continuarao  a 
sorrir-se,  e  o  mundo  sorrira  tambem !  E  sera 
sempre  o  outro,  o  aggredido,  o  tranquillo,. 
que  pagara  as  despesas?  Talvez,  nao.  Dessa 
feita  o  pagante  talvez  seja  o  aggressor.  .  . 


Dois  bons  amigos 


Nao  deixemos  passar  sem  commentario 
enternecido  o  caso  do  soldado  de  cavallaria 
que,  antes  de  morrer,  escreveu  disposi96es 
ultimas  a  respeito  do  seu  cavallo.  Chamava-se 
Gonzaga,  dizem  os  jornaes,  e  falleceu  hacerca 
de  quatro  dias  no  Hospital  Central  do  Exer- 
cito.  Tinha  vinte  e  um  annos  de  praga  e  ha 
doze  annos  era  acompanhado  porum  cavallo, 
por  quern  tinha  amizade,  mas  amizade  verda- 
deira.  Sentindo  approximar-se  a  morte,  o  ve- 
Iho  Gonzaga  pedio  papel  e  escreveu  ao  com- 
mandante  do  seu  esquadrao:  «Meu  bondoso 
capitao  —  O  meu  unico  desejo  e  que,  depois 
da  minha  morte,  o  cavallo  da  minha  montada 
seja  entregue  somente  a  uma  pra9a  que  d6  a 
elle  o  mesmo  tratamento  que  eu  Ihe  dei  em 
vida.D  E'  tao  bello  isto,  que  a  gente  chega  a 
nao  acreditar  na  veracidade  das  noticias  que 
o  divulgaram.  Esta  sensibilidade  de  um  velho 
soldado,  que  antes  de  morrer  declara  que  seu 


212  VERDADES  INDISCRETAS 

wunico  desejoB  e  que  seu  cavallo  e  amigo  seja 
bem  tratado  emquanto  viver,  esta  sensibili- 
dade  espanta  a  quern  vive  no  meio  de  uma 
sociedade  tao  feroz  como  a  nossa.  Aindaha 
poucos  dias,  um  tenente  deu  tiros  de  revolver 
na  sua  mulher,  porque  verificou  ser  atraigoado 
por  ella.  Que  contraste  entre  a  mulher  e  o 
cavallo!  Emquanto  o  official,  sentindo-se  tra- 
hido,  baleava  sua  companheira  de  todos  os 
dias,  a  que  compartilhava  a  sua  mesa  e  o  seu 
leito,  a  que  usava  o  seu  nome,  o  soldado, 
quasi  na  agonia,  pensava  :  «Meu  pobre  ca- 
vallo, tao  bom!  Que  serd  delle  quando  eu 
morrer?»  E  nao  resistiu  ao  tormento  de  pen- 
sar  que  seu  amigo  podesse  ser  maltratado  al- 
gum  dia.  E  escreveu  ao  capitao  as  poucas  li- 
nhas  publicadas,  simples  como  a  sinceridade, 
commovedoras  como  a  esmola  dada  por  uma 
creanga .  .  .  Ah !  cavallo  que  conseguiste  con- 
quistar  todo  o  affecto  do  teu  rude  e  leal  se- 
nhor!  Nobre  animal,  quantos  homens  te 
invejarSo  hoje?  Entre  tantos  animaes,  ditos 
intellectivos,  mas  que  parecem  ter  nascido 
com  garras  na  lingua  e  viboras  no  cora^ao, 
que  difficil  e  encontrar  um  como  tu,  um  que 
saiba  ser  amigo !  Vantage ns  de  ter  nascido 
quadrupede  em  vez  de  bipede,  e  de  nao  ter 
em  si  esse  quid  mysterioso  e  trai9oeiro  que  e 
a  alma  humana .  .  . 


Casadas  e  soiteiras 


Com  o  sr.  Prefeito  e  assim:  preso  por 
ter  cao,  preso  por  nao  ter  cao ,  Ha  tempos 
constou  que  S.  Ex.  pretendia  afastar  do  pro- 
fessorado  da  Escola  Normal  os  rapazes  sol- 
teiros.  Parece,  porem,  que  essa  medida  nao 
se  effectivou  por  antipathica.  Vem  constando 
agora  que  o  governador  do  Districto  pretende 
afastar  do  ensino  primario  as  senhoras  casa- 
das! Por  esta  ninguem  esperava.  Sob  o  as- 
pecto  pedagogico,  talvez  uma  casada  seja  mais 
idonea  para  ensinar  as  crian9as  do  que  uma 
solteira ;  a  primeira  —  suppoe-se  pelo  menos 
— )^  tem,  como  se  diz,  o  «juizo  assentado»  ;  a 
segunda  ainda  anda  com  a  cabega  no  ar,  em 
busca  de  quem  realise  o  seu  destino .    . 

Ninguem  acredita  que  o  sr.  Prefeito 
queira  levar  por  deante  tao  extravagantes  in- 
tengoes;  mas,  si  por  ventura  S.  Ex.  quizesse 
realmente  executar  o  que   consta,  seria  em 


214  VERDADKS  INDISCRBTAS 

parte  um  santo  e  em  parte  um  demonio,  um 
mixto  de  Santo  Antonio  e  Lucifer .  Aquelle 
santo  6y  como  se  sabe,  o  grande  protector  das 
solteiras;  ora,  o  Prefeito,  favorecendo  as  sol- 
teiras  com  a  preferencia  para  os  logares  de 
professoras,  teria  certos  vislumbres  de  santi- 
dade,  certos  tragos  de  semelhanga  psycholo- 
gica  com  o  santo  ;  mas  —  ao  mesmo  tempo 
que  Ihes  dava  emprego,  prohibia-lhes  convo- 
lare  ad  nupcias — o  que  seria  positivamente 
diabolico,  tantalico .  .  .  O  resultado  de  tudo 
isso  e  que  S.  Ex.  ficaria  de  mal  com  as  casa- 
das  e  com  as  solteiras:  com  as  casadas,  por 
fties  tirar  o  pao,  alem  do  divertimento  de  en- 
sinar  a  petizes;  com  as  solteiras,  por  Ihes  dar 
o  pao  e  prohibir-lhes  o  amor.  Ora,  nao  s6  de 
pao  vive  uma  mulher,  quando  e  m69a .  .  .  Do 
que  tudo  se  conclue  que  S.  Ex.,  ponderando 
estas  e  outras  razoes,  deixara  as  professoras 
como  estao.  E  para  terminar  com  uma  nota 
de  perfeita  imparci alidade,  declaro  que  nao 
sou  marido  de  professora  nem  candidate  ane- 
nhuma.  .  . 


A  desvantagem  do  nome. 


Sophia  Klein  e  tida  como  judia,  por  se 
chamar  Sophia  e  fallar  polaco.  Pelo  nome 
Klein  deve  ser  judia  allema.  Uma  mulher  de 
raga  hebraica,  chamada  Sophia  que  falla  po- 
laco e  teve  pensao  na  rua  do  Cattete,  anda 
com  um  pe  na  rua  da  Amargura  e  outro  napo- 
licia.  No  Brasil  uma  mulher  estrangeira  nunca 
deve  acudir  pelo  nome  de  Sara,  Ruth,  Rachel  e 
outrasdenominagoesbiblicas.  Si  uma  mulher 
usa  de  taes  nomes  e  carrega  nos  rr  e  troca  s 
por^,  pronunciando,  por  exemplo,  zympa- 
thico  em  vez  de  sympathico,  p6de  ser  uma 
santa,  que  a  santidade  da  sua  vida  nao  a  im- 
pedird  de  ir  a  policia  de  vez  em  quando  pa- 
lestrar  amistosamente  com  o  commissario  de 
dia.  A  nossa  maneira  de  encarar  superficial- 
mente  as  coisas  costuma  levar-nos  a  concJu- 
soes  singulares.  A  franceza  talvez  seja  a  me- 
ihor  mulher  do  mundo,  nao  s6  como  gra^a  e 


216  VERDADES   INDISCRBTAS 

vivacidade  de  espirito,  mas  ainda  como  since- 
ridade,  lealdade  para  com  o  homem  a  quern 
ama,  e  todauma  collecgao  de  pequenas  minu- 
cias  d'alma  que  nao  podem  deixar  de  seduzir 
um  homem  civilisado  e  intelligente.  Entre- 
tanto,  como  geralmente  ao  Brasil  aportam, 
com  escala  por  Buenos  Ayres,  francezas  des- 
tinadas  ao  corte,  ficamos  nos  a  pensar  queto- 
das  sao  eguaes.  Desorteque,  quando  se  diz 
—  Vamos  ver  as  francezas  —  ja  se  sabe  de 
que  se  trata.  Em  S.  Paulo,  na  parte  que  limita 
com  Minas,  quando  se  deseja  fazer  uma  par- 
tida  de  alegria,  costuma-se  dizer,  segundo  me 
informou  um  amigo  : — Vamos  ver  as  minei- 
ras.  Entretanto,  sabe-o  toda  a  gente,  si  ha 
no  Brasil  mulher  de  costumes  rigidos,  e  indu- 
bitavelmente  a  mineira.  As  excepgoes  s6  po- 
dem servirparaconfirmararegrageral.  Assim 
tambem,  quando  se  diz,  de  uma  estrangeira, 
que  e  russa,  polaca,  ou  hungara,  ja  todos  pis- 
cam  OS  olhos  com  malicia.  Si  Santa  Edwiges, 
rainha  da  Polonia,  e  sua  sobrinha  Santa  Izabel 
da  Hungria  viessem  ao  Brasil,  e  fallassem  car- 
regando  nos  rr  e  confundindo  o  masculino 
com  o  feminino,  ficariam  logo  sob  a  vigilan- 
cia  da  policia  e  da  reportagem.  O  mesmo  se 
del  com  individuos  cujos  nomes  terminem  em 
off,  insky,  owsky  e  iesky.  Si  o  princepe  Lvofif 
e  o  sr.  Kerensky  tentassem  desembarcar  no 


A    DESVANTAGEM   DO   NOME...  2l7 

Rio,  sem  apresenta96es  diplomaticas,  talvez  a 
Policia  Maritima  Ihes  embargasse  o  passo  im- 
pressionada  pela  terminagao  dos  seus  appelli- 
dos.  Si  o  desejo  de  rir  operasse  milagres,  eu 
resuscitaria  Sobiesky  e  Kosciusko  e  os  faria 
vir  incognito  2iO  Rio  de  Janeiro.  Aqui  chega- 
dos,  o  sub-inspector  da  Policia  Maritima  iria  a 
bordo  do  seu  navio  e,  depois  de  sapiente- 
mente  Ihes  examinar  os  papeis,  entabolaria 
com  elles  o  seguinte  dialogo : 

—  Seu  nome  ? 

—  Joao  Sobiesky. 

—  Polaco  ? 

—  Sim,  senhor. 

—  Sua  profissao  ? 

—  Homem  de  Estado,  general,  rei  da 
Polonia  em  disponibilidade. 

—  Hein? 

—  Sim,  senhor!  Fui  eu  que  salvei  a  ci- 
viHsa9ao  christa,  rechassando  os  turcos  e  os 
tartaros. 

—  Qual !  Voce  o  que  e  e  um  bom  maxi^ 
malista.  E  o  senhor  ahi  como  se  chama  ? 

—  Thomaz  Kosciusko. 

—  Kosciusko !  Que  nome !  Sua  profis- 
sao? 

—  General  e  patriota.  Fui  eu  que,  coni 
4.000  polacos,  venci  20.000  russos  em  Zie- 
len^a. 


218  VERDADES    INDISCRETAS 

—  Ora  adeus!  Seu  commandante,  metta 
estes  dois  proxenetas  num  camarote  com  sen- 
tinella  i.  vista. 

Sobiesky  e  Kosciusko  podiam  protestar 
quanto  quizessem.  O  homem  da  Policia  Ma- 
ritima  permaneceria  inabalavel  na  sua  resolu- 
^ao.  E  quando  Ihe  pedissem  os  motivos  por 
que  vedava  o  desembarque  a  esses  dois  gran- 
des  homens,  elle  responderia  convictamente: 

—  Desses  tenho  eu  visto  muitos  aqui . 
Basta  reparar-lhes  nos  nomes.  Dm  sujeito 
chamado  Sobiesky !  Isso  nao  pode  deixar  de 
ser  um  explorador  de  escravas  brancas .  .  . 

Foi  por  causa  do  nome  que  Sophia  Klein 
se  tornou  suspeita.  Os  jornaes  tern  tratado  do 
seu  caso,  que  e  simples.  Sophia  montou  uma 
pensao  na  avenida  Atlantica.  Para  dar  hospe- 
dagem  a  familias  distinctas.  O  seu  processo 
de  adquirir  lucros  era  um  pouco  violento, 
posto  que,  na  essencia,  nao  muito  diverso  do 
geralmente  adoptado  pelas  proprietarias  de 
pensoes  familiares,  Ella  comegou  per  nao  pa- 
gar  os  impostos  devidos  aoMunicipio.  Depois 
tomou  como  norma  commercial  a  seguinte : 
recebida  adiantadamente,  de  cada  pensionista, 
a  paga  correspondente  ao  mez,  fazia  tudo 
quanto  podia  para  desgostal-o,  afim  de  que 
elle  se  retirasse  antes  de  vencido  o  mez ;  o 
seu  lucro  consistia  em  nao  restituir  a  differen- 


A   DESVANTAGEM    DO    NOME.  .  .  219 

9a  ao  prejudicado .  Saindo  um  pensionista, 
entrava  outro  que,  depois  de  quasi  enlouque- 
cer  com  o  ruido  e  o  mau  passadio  da  pensao, 
por  sua  vez  tambem  se  retirava,  deixando  la 
com  a  Klein  o  pagamento  integral  da  mensa- 
lidade.  Succedeu,  entretanto,  ir  morar  na 
pensao  de  Sophia  uma  senhora  franceza,  ca- 
sada  com  um  inglez,  dizem  uns,  com  um  alle- 
mao,  dizem  outros.  Sophia  recebeu  adiantado 
o  pagamento  relativo  a  um  mez  e  deu  inicio  a 
sua  offensiva  habitual:  ruido,  carnecrua,  falta 
de  asseio  nos  aposentos,  etc.,  etc..  Como  se 
tratava  de  uma  franceza,  Sophia  adoptou  ain- 
da  outros  methodos  tacticos:  incumbiu  alguns 
polacos  de  fallar  mal  da  Franga  na  presen9a 
da  pensionista.  Ora,  uma  franceza  permitte  e 
perdoatudo,  menos  desconsiderar  a  Franga. 
E'  exactamente  um  dos  defeitos  das  francezas: 
serem  francezas  demais.  Pode  a  franceza  estar 
a  noite,  no  meio  de  rapazes,  bebendo  e  tro- 
^ando;  ninguem  ousara  maldizer  da  Franga 
na  sua  presenga,  sem  que  ella  immediatamente 
tome  ares  de  grande  dama  para  dizer,  fazendo 
rolar  com  superioridade  os  rr  na  garganta: 

—  Oh!  on  voit  bien  que  vous  ne  conais- 
sez pas  la  Frrance,  Monsieur/ 

Assim  que,  estando  uma  tarde  os  pola- 
cos a  dizer  que  a  Franga  nao  tinha  vencido  a 
Allemanha,  a  franceza  protestou;  e  desse  pro- 


220  VERDADES  INDISCRETAS 

testo  patriotico  nasceu  urn  conflicto  internacio- 
nal  em  que  a  Polonia — deuses  do  Olympo  ! — 
castigou  a  Fran9a  a  murra9as!  A  franceza 
operou  um  recuo  estrategico  e,  nao  podendo 
ainda  appellar  para  a  Liga  das  NagSes,  foi 
queixar-se  a  policia.  Aqui  entrou  em  campo 
areportagem  e  descobrio  coisas  phenome- 
naes  a  respeito  de  Sophia  Klein.  Entre  ou- 
tras  coisas,  desvendara  elles  : 

que  Sophia  teve  uma  pensao  na  rua  do 
Cattete; 

que  Sophia  nao  pagou  o  aluguel  da  casa; 

que  Sophia  caloteou  o  padeiro,  o  ven- 
deiro  e  o  a90ugueiro. 

Ora,  pensando  no  caso,  nao  posso  tra- 
tar  tao  severamente  a  Sophia.  Ella  recebia 
OS  pagamentos  adiantado  e  depois  desgos- 
tava  OS  hospedes.  Mas  isso  e  commum 
a  todas  as  donas  de  pensao.  Apenas  So- 
phia agiu  de  modo  directo,  ao  passo  que  as 
outras  donas  de  pensao  agem  de  modo  in- 
directo,  tendo  um  cao  que  ladra  a  noite,  mo- 
9asque  estudam  piano  pela  manhan,  crian9as 
muito  galantes  que  tocam  cornetins,  cavalhei- 
ros  que  cantam  arias  da  Tosca  durante  o  ba- 
nho,  etc.,  etc..  Alem  do  mais,  Sophia  Klein 
tem  um  titulo  de  benemerencia :  logrou  o  pa- 
deiro, o  quitandeiro,  o  vendeiro  e  o  a90u- 
gueiro.   Esta  senhora,  apezar   de  estrange!- 


k  DESVANTAGEM   DO    NOME.  .  .  221 

ra,  estd-me  parecendo  nacionalista.  Conse- 
guiu  uma  coisa  que  ate  agora  so  tern  sido 
possivel  a  intendentes  municipaes  e  senado- 
res  da  Republica ;  nao  pagar  o  devido  ao 
agougueiro  e  ao  vendeiro.  E',  pois,  uma  crea- 
tura  patriotica,  que  contra  si  s6  tern  duas  coi- 
sas :  o  nome  de  judia  e  muitos  rr  fortes  na 
garganta.  Si,  em  vez  de  carregar  nos  rr  e 
chamar-se  Klein,  fallasse  com  rr  brandos  e  se 
chamasse  Dona  Maria  Sampaio,  nao  teria 
tanta  gente  a  gritar  contra  ella .  .  . 


Agitando  um  pello! 


O  Prefeito  nao  encontrando  homem  que 
se  aventurasse  a  dirigir  o  pandemonio  da  Es- 
cola  Normal  (tanto  e  estafante  lidar  com  mu- 
Iheres!)  resolveu  appellar  para  uma  senhora 
a  quern  acaba  de  nomear  para  exercer  o  cargo 
de  directora  daquella  casa.  E'  de  esperar  que 
dagora  em  deante  a  Escola  entre  nos  eixos  ; 
e  que,  brevemente,  as  meninas  tenham  sau- 
dades  dos  directores  barbados .  .  . 

Individualmente,  nadatenho  que  dizer  a 
respeito  da  senhora  nomeada  directora.  Mas — 
e  com  todas  as  cautelas  possiveis — e  mulher. 
Ora,  segundo  observa96es  que  tenho  feito,  o 
ente  mais  intolerante  que  ha  para  com  uma 
mulher.. .  e  outra  mulher.  Pode  ser  uma  santa : 
na  presenga  de  outra  santa,  mostra  logo  os 
dentes.  Nao  e  por  mal,  nao ;  e  por  instinct© . 
N6s,  homens,  mau  grado  os  nossos  defeitos, 
somos  mais  ou  menos  bons  uns  para  com  os 


AGITANDO  UM  PEI,I,0  !  223 

outros..Mulheres,  tenho  conhecido  algumas 
b6as  para  com  os  homens,  que  nem  sempre  o 
merecem.  Conhe^o  patifes  casados  com  san- 
tas.  Mas  uma  coisa  que  ainda  nao  vi :  mu- 
Iher  que  fosse  integralmente  b6a  para  com 
outra  mulher,  a  nao  ser  a  mae  para  a  filha,  e 
irman  para  com  irman.  Entre  si,  tem  sem- 
pre alguma  coisa  a  allegar  umas  contra  as  ou- 
tras.  Jarepararam  nellas,  quando  vao  nos  bon- 
des,  quando  estao  nos  cinemas,  nos  theatros 
e  nas  egrejas?  Esta,  por  exemplo,  uma  mu- 
lher num  bonde.  Si  entra  um  homem  e  vem 
assentar-se  no  mesmo  banco,  ella  Ihe  da  pas- 
sagem,  geralmente  sem  mostras  de  gentileza, 
mas  tambem  sem  revelar  ma  vontade.  Si  e 
uma  mulher  que  entra,  a  outra  franze  o  so- 
brolho  e  nao  afasta  os  joelhos,  so  paradifficul- 
tar  a  entrada  a  intrusa.  Esta — esbarra  aqui, 
pede  licenga  ali — assenta-se...  Entao,  ambas 
se  olham  disfargadamente  e,  comonaopodem 
manifestar-se  o  seu  mutuo  desprezo  por  ou- 
tra forma,  afastam  uma  da  outra  os  sens  vesti- 
dos .  .  .  Nao  sei  donde  nasce  essa  animosi- 
dade  de  gatas  que  ha  entre  ellas.  O  certo  e 
que  nos,  homens,  si  entramos  num  bonde, 
saudamos  uns  aos  outros  com  um  toque  de 
mao  na  aba  do  chapeo  —  o  que  me  induz  a 
crer  que  somos  muito   mais  cortezes  do  que 


224  VERDADBS   INDISCRETA.S 

ellas.  Esta  particularidade  nao  escapa  as  es- 
trangeiras.  Uma  estrangeira  me  perguntava 
ha  tempos  : 

— Como  se  explica,  que,  recebendo  os 
rapazes  e  as  raparigas  a  mesma  educagao  em 
familia,  sao  neste  paiz  os  rapazes  tao  delica- 
dos  e  as  mogas  tao  pouco  gentis? 

Eu  respond!  que,  nao  sendo  muito  forte 
em  materia  de  educa^ao  domestica  e  de  psy- 
chologia  feminina  ignorava  as  razoes  da 
differen9a.  Entretanto,  nao  pude  negar  o 
facto.  .  . 

Mas  este  capitulo  nao  tern  por  objectivo 
deprimir  asmulheres  para  exaltar  os  homens, 
apezar  de  ser  em  mim  inabalavel  a  convic9ao 
da  nossa  absoluta  superioridade  physica,  in- 
tellectual e  moral  sobre  ellas.  O  meu  assum- 
pto  e  outro. 

Um  jornal,  noticiando  o  provimento 
da  alludida  senhora  no  cargo  de  directo- 
ra  da  Escola  Normal,  dizia  que  ella,  es- 
tando  na  Prefeitura,  sorrio  muito  modesia, 
cheia  de  symbolos,  e  agitando  um  pello  que  tra- 
zia  ao  pescogo  e  cujas  pontas  Ihependiam  sobre 
OS  hombros,  numa  grande  cruz  de  ouro,  numa 
grande  allusdo  muda  d  miss  do  de  director  a  da 
Escala  Normal. 

Palavrade  honra,  li,  reli,  tentei  interpre- 
tar,  reflect!  e...  nao  sei  si  tere!  entendido. 


AOITANDO   UM  PEU.O  I  225 

Em  primeiro  logar,  aquillo  de  uma  se- 
nhora  estar  ffcheiade  symbolosjj.  Que  symbo- 
los  ?  Onde?  Como  ?  De  que  processes  opttcos 
se  terd  soccofrido  o  olho  arguto  do  reporter 
para  descobrir  na  dama  esses  reconditos  sym- 
bolos  ?  Seriam  naturalmente  symbolos  da  in- 
struc9ao.  Mas,nesse  caso,  teriamos  de  adihittir 
que  a  nova  directora  compareceu  i.  Prefeitura 
•coberta  de  livrinhos,  canetas,  reguas,  talvez 
mesmo  algumas  palmatorias  em  miniatura, 
apenas  como  recorda9ao  historica,  ji.  se^  v^... 

Depois  vem  o  resto :  agitando  um  pello 

^ue  trazia  ao  pescogo  e  cujas  pontas  pendiam 

sobre  os  hombros  numa  grande  cruzde  onrOt 

numa  grande  allusdo  muda  d  missdo  de  dire- 

'  <tora  da  Escola  Normal. 

Nao  p6de  ser  pello,  matutei  eu ;  deve 
ser  pelle.  Mas  nao !  Nao  podia  ser  pelle,  por- 
qu^,  estando  quente  o  dia,  trazer  pelle  com 
tal  temperatura  nao  seria  normal. 

Seria  polo  ?  Tambem  nao.  Porque,  si 
ella  agitasse  um  polo,  teria  agitado  tambem  o 
outro  e  n6s  soffreriamos  as  consequencias  do 
terremoto .  Depois,  que  me  conste,  ninguem 
pode  trazer  um  pok)  ao  pesco^o . 

^  Seria  pulo?  Impossivel.  Ninguem  £^a 
um  pulo.  O  homem  se  agita,  a  Humanidade 
o  conduz,e  elle  piila :  mas  o  agitado  €  ^le,  ri§o 
o  pulo.  Portanto,  conclui  cd  commigo,  o  que  a 

IS 


226  VKRDADES   INDISCRKTAS 

directora  trazia  ao  pescogo  era  real  me  nte  un» 
peilo.  Um  reporter  a  cujo  olhar  penetrante  nao 
escaparam  os  symbolos,  de  certo  nao  se  enga- 
naria  a  proposito  de  um  simples  pello . 

Ha  comtudo  nesse  pello  tres  pontes  im- 
pressionantes : 

1°) — A  singularidade  :  porque,  um  peiio 
so,  isoiado,  solus,  totus  el  unus,  em  vez  de. 
mais  de  um  ?  Exquisito,  profundamente  ex- 

quisito .  .  . 

2°)  —  O  seu  tamanho,e  consistencia :  urn. 
pello  que,  partindo  do  pesco90,  caia  sobre  os 
hombros,  formando  umagrande  cruz  de  ouro  I 
Isto  e  mais  mysterioso  do  que  o  IncognoscU 
vel  de  Spencer.  Fujamos.  .  . 

3^  )  — Esse  enorme  e  isoiado  pello,  que„ 
partindo  do  pescogo,  caia  sobre  os  hombros  e 
formava  uma  grande  cruz  de  ouro,  era,  nada 
mais,  nada  menos,  que  a  uma  grande  allu«aa 
muda  a  missao  de  directora  da  Escola  Nor- 
mal !  Mas  que  rela9ao  podera  haver  entre  a. 
Escola  Normal  e  um  pello  ? 

Aqui,  fatigado  de  tao  profundo  meditar». 
deixeipender  afronte  pensativa  e  fiz,  perante 
Deus,  um  acto  de  renuncia.  Renunciei  a  des-^ 
vendar  o  formidavel  segredo .  Em  casos  taes> 
o  melhor  e  ser  a  gente  positivista,  isto  e,  nao 
procurar  nem  a  causalidade  nem  a  finalidade 
dos  phenomenos.  Ha  no  Hospicio  muitos  sa- 


AGITANDO    UM    PEI.I.O  !  227 

bios  que  procuraram  explicar  problemas  indu- 
bitavelmente  mais  claros  e,  entretanto,  li.  es- 
tao.  E  eu  nao  pretendo  dar  trabalhos  ao  dr. 
Juliano  Moreira  e  ao  dr.  Humberto  Gotuzzo 
—  ambos  muito  bons  camaradas,  muito  meus 
amigos,  mas .  .  .  elles  la  e  eu  aqui .  Nada  de 
pilherias.  Nao  convem  abusar  das  circumvolu- 
goes  cerebraes .  .  . 

Todavia  —  s6  para  concluir  —  aquelle 
pello  deve  servir  de  ligao  aos  barbados  da  Es- 
cola  Normal.  Si  o  ex-director  sr.  Ignacio  Ama- 
ral,  em  vezde  fazerumrelatorio,houvesse  agi- 
tado  um  pello  dos  seus  varonis  bigodes,  teria 
sido  sempre  respeitado.  E  o  mesmo  se  en- 
tenda  do  dr.  Bricio  Filho,  cujos  bigodes  p6- 
dem,  por  si  s6s,  fornecer  pellos  para  os  col- 
choes  de  um  regimento  inteiro  de  infantaria . 


Numa  Exposigao  deCILes 


Chronica  dedicada  a  todo  o  genero  humanoy 
inclusive  os  ccLchorros 

Na  minha  qualidade  de  Rei  da^Creagao 
fui  a  exposigao  de  caes,  organisada  ha  dias 
passados,  por  outros  reis  da  Crea^ao  como  eu. 

lam  OS  caes  chegando,  cada  qual  puxado 
pelo  seu  senhor,  que  o  tinha  por  uma  corren- 
te.  Chegavam,  de  bocca  aberta  e  lingua  a 
mostra,  e  eram  apresentados  a  certos  ani- 
maes  de  calgas  e  fraque,  alguns  ate  de  lune- 
tas,  OS  quaes  os  examinavam,  alisavam-lhes  o 
pello,  collavam-lhes  ao  pesco90  uma  etiqueta 
e  mandavam  atal-os  a  postes  fincados  em  ter- 
renos  divididos  conforme  a  ra9a  de  cada  um, 
isto  e,  de  cada  um  dos  caes,  nao  dos  juizes. 

Havia  varias  bancadas,  como,  por  exem- 
plo,  a  bancada  dos  caes  de  pastor,  a  dos  de  Sao 
Bernardo,  a  dos  irlandezes,  a  dos  dinamarque- 


230  VBRDADES    INDISCRRTAS 

zes,  a  dos  de  guarda,  a  dos  perdigueiros  e  ou- 
tros,  muitos  delles  pequeninos,  felpudos,  timi- 
dos,  cretinos  e  tremulos,  raga  que  eu  prefiro 
designar  pela  denominagao  generica  de  cdes 
defemeas.  Sao  uns  caesinhos  parasitas,  que  pas- 
sam  todo  o  dia  deitados  sobre  um  tapete  ou 
ao  regago  da  sua  dona,  rogando  o  seu  focinho 
pelo  focinho  della,  lambendo-lhe  as  macs  e 
por  Ventura  outros  sitios ... 

La  estavam,  pois,  os  cSes  reunidos  em 
assemblea,  quando  cheguei ;  e,  sendo  rei  del- 
les, puz-me  a  olhal  os  com  a  mais  irritante  in- 
solencia.  Alguns  estavam  commodamente 
deitados,  calmos,  langando  olhares  indifferen- 
tes  e  preguigosos  para  os  seus  semelhantes. 
Caes  ricos,  provavelmente.  Ou  talvez  pobres, 
mas  pensadores,  porque  ser  pensador  e  uma 
das  formas  de  disfargar  a  pobreza.  .  . 

Outros,  entretanto,  agitavam-se,  ladra- 
vam,  forcejavam  por  arrebentar  as  correntes, 
uivavam,  escarvavam  a  terra  com  as  unhas, 
babavam,  mostravam  a  lingua  e  arreganhavam 
OS  dentes.  .  . 

Homens  e  mulheres,  quero  dizer,  deuses 
e  deusas,  (porque  para  os  caes  n6s  devemos 
ser  deuses)  passavam  impassiveis . 

Creio  que  dos  deuses  fui  eu  o  unico  que 
prestou  attengao  aos  debates  que  se  travavam 
naquella  assemblea  de  minusculos  e  grandes- 


NUMA   BXPOSI9X0   DE   ClES  331 

sissimos  cachorros.  E  foi  assim  que  pude  ver 
um  sr.  cachorro  immenso,  que  estava  deitado 
sobre  as  patas  dianteiras,  felpudo  e  majestoso 
<:omo  um  leao  de  Can  ova,  o  qual  devia  ser  o 
presidente,  porque,  tendo  outro  cao  ladrado 
<ie  certa  forma,  como  quern  dizia  —  Pela  or- 
dem  !  — vi  esse  leal  cao  imponente  ladrar  de 
outra,  como  quern  dizia :  Tern  a  palavra  0  710- 
hre  deputado  ! 

Depois  de  ter  co^ado  uma  orelha  com 
uma  das  patas  trazeiras,  comegou  o  orador  de* 
clarando  que  vinha  protestar  contra  o  empe- 
nho.  E'  pelo  empenho.  dizia  elle,  que  os 
homens  sao  doutores,  diplomatas,  militares, 
deputados,  tudo  quanto  querem  ser.  Pelo 
empenho  muitos  adquirem  fortunas  colos- 
saes ;  pelo  empenho  se  casam  com  mulheres 
bonitas,  acom  essas  lindas  mulheres  que  nos 
beijam  o  focinho  com  deliciaU 

Aqui  o  Cao-Presidente  ladrou  com  certa 
severidade  e  advertiu  o  orador  de  que  a  As- 
semblea  dos  Caes  nao  podia  permittir  que  no 
seu  seio  se  tratasse  de  assumptos  escabrosos ; 
si  isso  era  commum  entre  homens,  nao  ficava 
bem  entre  caes  de  b6as  familias .  .  . 

O  orador,  declarando  submetter-se  a  sa- 
bedoria  da  presidencia,  continuou  a  ladrar 
x:ontra  o  empenho  e  ganiu :  que  o  empenho, 
ja  entrara  tambem  entre  a  nobre  raga  dos 


232  VERDADES   INDISCRETAS 

caes;  e,  para  a  prova,  chamava  a  attengao 
dos  seus  collegas  para  um  cao  dinamarquez^ 
felpudo,  de  olhos  nostalgicos,  que  estava  de 
lingua  a  mostra,  perto  de  uma  senhora  alta 
como  Pallas  Athenea,  de  fortes  ancas  asiati- 
cas,  de  bra90S  constrictores  como  as  serpentes 
de  Lacoonte,  de  olhos  tenebrosos  como  os 
desesperos  que  nao  tem  fim.  Aquelle  cao,  la- 
drou  o  orador,  nao  tinha  sido  matriculado  na 
exposi^ao  dentro  do  prazo  legal ;  chegara  tar- 
de  e  so  f6ra  admittido  pelo  empenho  de  certo 
cavalheiro,  intimo  da  tal  senhora  de  olhos  ne- 
gros,  o  qual  cavalheiro  a  apresentara  a  um  dos 
membros  do  jury,  que  se  deixara  logo  envol- 
ver  pela  treva  espessa  daquelles  olhos  fataesl 
(Sensafdo). 

Olhei  para  o  cao  dinamarquez,  que  alias 
tanto  podia  ser  cao  dinamarquez  como  galgo 
russo.  E'  a  sorte  dos  caes  protegidos  da  fortu- 
na :  serem  sempre  muito  discutidos,  mas,  com 
clareza,  nuncadefinidos...  O  dinamarquez  con- 
tinuava  tranquillamente  ao  lado  da  sua  dama^ 
cujos  labios  me  pareciam  humidos  como  ma- 
gans  partidas  por  alfanges,  insaciaveis  como  a 
cubiga  dos  avarentos.  Elle  nem  parecia  ouvir 
a  accusa9ao  do  patriota  seu  semelhante.  Todo 
aquelle  discurso  Ihe  era  indifferente.  O  feliz^ 
animal    tinha  a    divina    impassibilidade  de 


NUMA   EXPOSI9AO    DE   CAES  233 

quern  esta  certo  de  ser,  pelo  menos  nas  appa- 
rencias,  o  idolo  de  uma  bella  mulher. 

O  orador  continuou  a  ganir:  «Estamos 
defraudados  pela  entrada  subrepticia  desse 
e  strange  iro ... 

Uivos  —  Nao  apoiado !  E*  filho  de  estran- 
geiro,  mas  nasceu  no  Brasil! 

O  cdo  orador —  .  .  .  desse  estrangeiro 
que  penetrou  neste  recinto  pela  porta  falsa 
das  protecgoes  inconfessaveis !  Protesto,  Sr. 
Cao-Presidente,  protesto  contra  a  petulancia 
desse  intruso  que,  nao  podendo  concorrer 
lealmente  comnosco  neste  certamen,  a  que 
nos  trouxeram  os  deuses,  nossos  senhores, 
serviu-se  das  saias  de  uma  mulher  para  afron- 
tar  OS  nossos  brios  ! 

Um  ganido  —  Muito  bem !  Tal  individuo 
nem  parece  cao :  e  antes  um  homem !  E'  in- 
digno  de  ostentar  a  colleira  que  nos  distin- 
gue!..  . 

Grande  tumulto.  Cruzam-se  uivos  desen- 
contrados.  Violentos  ladridos  nas  bancadas 
dos  caes  dinamarquezes  e  galgos  russos .  O 
sr.  Cao-Presidente,  de  focinho  ao  vento,  late 
e  pede  attenyao .  Os  caes  policiaes  fitam  as 
orelhas  e  rosnam,  mostrando  as  presas. 

Vozes  —  Retire  o  latido !  O  orador  deve 
retirar  o  latido  ! 

O  Cdo-Presidente  —  Attengao  1  Atten- 
9ao !  Nao  foi  o  orador  que  injuriou  o  nosso 


234  VBRDADES    INDISCRETAS 

eminente  collega  dinamarquez.  Foi  um  gani- 
do  differente  que  disse  que  o  nosso  collega 
era  um  homem !  Quern  ganiu  por  tal  forma 
descubra-se  e  retire  essa  expressao,  que  nao 
e  canina. 

Um  ganicio  — Retire  o  latido.  Entretan- 
to,  sr.  Cao-Presidente,  continuo  de  acc6rdo 
com  o  orador  que  tao  brilhahtemente  vae  la- 
tindo  em  benefidio  dos  supremos  interesses 
da  nossa  ra9a ! 

Ganidos —  Muito  bem  !  Muito  bem  !  Essa 
attitude,  sim,  e  digna  de  caes !  O  contrario 
seria  proprio  de  homens ! 

O  dinamarquez,  como  si  tudo  aquillo  nao 
fosse  com  elle,  lambia  a  mao  de  sua  senhora. 
Bravo  cao  !  Devia  ter  grande  influencia  entre 
OS  seus  semelhantes :  injuriado  publicamente  ; 
despertando  essa  tempestade  de  ataques  vio- 
lentos  e  de  adhesoes  fervorosas  naquelle  cer- 
cado  de  arame,  continuava  olympicamente 
impassivel,  a  lamber  a  mao  da  bella  creatura, 
a  farejar  Ihe  os  odores  inebriantes,  a  rogar-se 
pelas  saias  della !  Cao  sublime !  Cao  minis- 
tro  !  Cao  estadista ! 

Com  mais  alguns  latidos,  nos  quaes  con- 
clamavam,  como  clangores  de  buzinas  de  chi- 
fre,  coisas  ladrejantes  a  respeito  da  cfraterni- 
dade  entre  os  caes»  da  whonestidade  dos 
governos)),  e  outros  ladridos  retumbantes,  o 


NUMA   BXPOSI5X0   DB  CAES  235 

cao  orador  deu  por  findo  o  seu  discurso,  que 
foi  longo. 

A  maioria  dos  caes,  entretanto,  dormia, 
ou  dormitava,  alguns  enrodilhados,  tendo  o 
focinho  junto  a  cauda;  outros,  mais  dignos, 
tendo  o  focinho  sobre  as  patas  dianteiras, 
cruzadas,  abrindo  e  cerrando  os  olhos  conges- 
tionados  pelo  somno  —  e  rosnando  vagamen- 
te.  Atados  aos  seus  moiroes  e  fartos  de  vi- 
giar  em  vao,  os  caes  policiaes  resonavam.  Os 
Sao  Bernardo,  de  bocca  aberta,  lingua  a  mos- 
tra,  babando,  pareciam  asphyxiar-se  sob  a 
acgao  bestificante  do  mormago  intertropical ; 
e,  nos  olhos  amortecidos  pelo  somno  e  pela 
fadiga,  olhos  que  supplicavam  a  misericordia 
de  todos  OS  deuses  vivos  e  mortos,  reveland6 
a  saudade  ancestral  das  neves  alpinas ,  pare- 
ciam trazer  nas  pupillas  amortecidas  o  des- 
gosto  immenso  de  uma  raga  que,  transplan- 
tada  para  climas  violentos,  falhou,  tornou-se 
para  sempre  inutil  e  para  sempre  desgostosa 
da  propria  inutilidade... 

Afinal,  vi  que  a  reuniao  dos  caes  tocava 
a  seu  termo.  Procurei  sair.  Sujeitos  de  lune- 
tas  passavam,  dando  o  brago  as  mulheres  e 
conversando  gravemente  com  as  filhas.  Uma 
m69a,  que  ia  com  o  pae  (sujeito  de  p^ra  gri- 
salha  e  monoculo,  que  fallava  aos  requebros 
com  uma  senhora  loura)  uma  mdga  levava  ao 


236  VERDADES   INDISCRETAS 

collo  um  toto,  beijava-o  e  falava-lhe :  Oh  /  le 
beau  toutou  /  Ok  /  le  petit  cheri  I  Mon  amour, 
mon  petit  ange  /  O  caozinho,  felpudo,  civili- 
sado  e  obsceno,  lambia-lhe  o  focinho.  Quasi  a 
porta  da  saida,  vi  ainda  a  senhora  de  olhos 
negros  que  levava  o  dinamarquez  pela  cor- 
rente  e  afagava-lhe  a  cabega,  emquanto  distra- 
hidamente  ouvia  os  galanteios  trovejantes, 
de  um  typo  alto,  gordo,  pan9udo,  obeso  e 
chato,  de  papada  suina.  touti90  de  portuguez 
rico,  terno  de  fraque  cinzento,  cara  de  bezer- 
ro  manso  e  voz  metallica,  o  qual  pelos  modos, 
si  nao  era  niinistro,  devia  ser  millionario  e  se- 
nador.  E  naquelle  momento  eu  nao  desejei 
ser  ministro,  nem  millionario,  nem  vendeiro 
opulento,  nem  senador;  invejei  simplesmen- 
te,  humildemente.  cynicamente,  as  venturas 
secretas  do  cao  dinamarquez .  .  . 


Consideragoes  actuaes 


Para  onde  emigrastes,  6  grandes  abne- 
gagoes  mudas  do  passado  ? 

—  Nao  emigraram.  Morreram.  Foram 
mortaes  pela  nevrose  da  publicidade.  Antes 
de  Guttenberg,  partia  um  cavallelro  para  a  Pa- 
lestina,  a  conquistar  o  Santo  Sepulcro.  Tra- 
vava  combates  com  o  Sarreceno ;  partia  lan- 
9as ;  embotava  laminas  de  Toledo ;  esfalfava 
ginetes  de  Hespanha  e  murzeis  inglezes ;  des- 
tro^ava  esquadroes :  aprisionava  adais ;  apu- 
nhavai  miramolins :  violava  harens ;  apai- 
xonava  sultanas ;  devastava  terras  de  mou- 
ros;  degollava  muezins;  abatia  minaretes: 
punha  cerco  a  cidades  sagradas;  escalava 
muralhas ;  humilhava  o  Crescente :  erguia 
bem  alto  a  Cruz;  e  um  bello  dia,  num  retinir 
barbaro  de  armaduras  invictas  e  montantes 
heroicos,  entrava  triumphante  em  Jerusalem ^ 
de  guiao  algado,  ao  som  de  pifaros,  charame- 


238  VERDADES   INDISCRETAS 

las  e  atabaques,  com  muitas  gritas  e  tangeres 
de  guerra,  que  pareciam  coisa  temerosa,  como 
rezam  os  classicos .  .  . 

Ora,  tal  paladino  soffria  todas  essas  agru- 
ras  por  um  ideal  superior,  por  um  ideal  reli- 
gioso  que,  apezar  da  sua  intangibilidade,  o 
compensava  largamente  dos  sacrificios  que 
houvesse  de  fazer  ate  que  chegasse  a  ajoe- 
Ihar-se  deante  do  Santo  Sepulcro,  que  a 
mourisma  depois  viria  reconquistar.  .  .  Nin- 
guem  assistia  aos  seus  combates.  Nao  havia 
photographos  nem  operadores  cinematogra- 
phicos  para  fixar-lhe  as  attitudes,  nem  telegra- 
ph© para  dizer  ao  mundo  que  elle  era  valo- 
roso,  nem  jornaes  e  re  vistas  para  Ihe  estampa- 
rem  o  retrato.  So  havia  o  seu  Ideal,  o  seu 
Deus,  o  seu  Rei,  a  sua  Consciencia  e  a  sua 
Dama,  que  tambem  estava  longe,  encerrada 
na  torre  feudal  de  um  castello  inexpugnavel, 
defendida  por  fossos,  barbacans,  ameias,  bes- 
teiros,  catapultas  e  anoes.  .  .  E  o  paladino 
combatia.  Victorioso,  o  seu  Rei  o  fazia  conde 
ou  duque,  emquanto  a  sua  amada  Ihe  abria  os 
bra90spara  Ihe  dar  a  recompensa  mais  arden- 
temente  appetecida.  .  .  Si  morria,  como  Or- 
lando, OS  trovadores  o  immortalisavam  nas 
cortes  de  amor .  Era  o  dominio  da  vida  inte* 
rior  em  toda  a  sua  esplendorosa  belleza . 


C0NSID^^90BS  ACTUABS  239 

Hoje,  como  o  materialismo  afasta  Deus 
das  consciencias,  e  como,  de  seu  lado,  as  da- 
mas  perderam  o  segredo  de  gerar  e  sobretudo 
de  educar  paladinos,  os  homens  se  voltam 
exclusivamente  para  o  Reclamo.  So  reconhe- 
cem  uma  dama  que  e  a  Publicidade.  Observei 
isto  no  principio  da  guerra  europea.  Qualquer 
farroupilha  que  se  offerecesse  como  voluntario 
(marcharia  realmente?),  o  primeiro  cuidado 
quetinhaera  ir  despedir-se  dosjornaes,  le van- 
do  ja  o  retratinho  para  sahir  na  folha  do  dia  se- 
guinte  ou  do  mesmo  dia,  si  possivel  fosse .  E 
no  diaseguintela  vinhao  retrato  doparvajola, 
centralisando  uma  entrevista  de  infallivel  effi- 
cacia  nas  prisoes  de  ventre... 


Mas  nao  sao  apenas  os  homens  que  tem. 
a  nevrose  do  reclamo ,  Sao  as  mulheres  tam- 
bem.  Podera  haver  acto  mais  delicado  do  que 
o  casamento  ?  Collocando-nos  acima  de  qual- 
quer  preconceito  religioso,  philosophico,  litte- 
rario,  ou  social,  encaremos  o  casamento  sob 
o  aspecto  apenas  da  delicadeza  masculina^ 
olhando-o  atravez  do  nosso  simples  cavalhei- 
rismo :  podera  haver  coisa  mais  melindrosa  do 
que  esse  acto  ?  E  visto  que  assim  e,  nao  serd^ 
de  bom  gosto  cercal-o  de  todos  os  resguar^ 
dos,  de  todas  as  discre96es  ? 


240  VERDADES    INDISCRETAS 

Entretanto  o  estardalha90  com  que  entre 
nos  se  fazem  os  casamentos  transformam  em 
buffoneriao  acto  mais  serio  da  vida  civil.  Gar- 
ros extravagantes,  enfeitados  de  fi6res  de  la- 
ranjeira  e  tirados  por  parelhas  cheias  de  gui- 
zos,  campainhas,  tintinabulos  e  chocalhos  de 
varia  especie  ;  cocheiros  visivelmente  bugres 
mas  trajados  a  Luiz  XV,  guiando  democrati- 
cas  parelhas,  as  quaes  puxam  carros  em  cujas 
almofadas  vao  repimpados  uns  16rpas  enor- 
mes,  tendo  ao  lado  boas  maes  de  familia  cujas 
honestas  banhas  plebeas  formam  o  mais  vio- 
lento  contraste  com  os  tricornes  dos  cochei- 
ros, alugados  para  aquelle  dia... 


Si  fosse  so  isso...  Os  nubentes  nao  se 
contentam  ja  com  o  estardalhago  carnavalesco 
do  cortejo  chocalhante.  Querem  mais.Exigem 
os  photographos  com  as  suas  codaques  «para 
tirarem  aspectos))  da  ceremonia.  Solicitam  a 
benevolencia  das  revistas  illustradas  para  es- 
tampar  esses  aspectos.  Mais :  alguns  chamam  a 
casa  um  retratista  em  voga  para  photographal- 
os  em  trajes  nupciaes,  agarradinhos  e  sorri- 
dentes,  com  aquelle  sorriso  equivoco  de  quern, 
logo  mais,  a  noite,  vae  descobrir  algum  esca- 
broso  segredo...  Todos  temos  visto  dessesre- 
tratos  em  ponto  grande,  expostos  nasmontras 


C0NSIDERA90ES   ACTUAES  241 

dos  retratistas,  o  noivo  de  casaca,  a  noivacom 
a  sua  grinalda  de  fl6res  de  laranjeira,  enver- 
gonhadas— pobres  fl6res ! — de  ouvir  aos  bas- 
baques  da  rua  os  commentarios  mais  torpes. 
Porque  o  casamento,  quando  e  discrete,  paira 
em  regioes  altas ;  mas  quando  desce  dessas 
regioes  para  se  mostrar  ao  povileo,  em  poucos 
minutos  a  alvura  do  vestido  nupcial  esta  sal- 
picada  de  lama,  e  a  gravata  branca  do  noivo 
so  se  rehabilitaria  perante  as  consciencias  ho- 
nestas,  si  se  transformasse  espontaneamente 
numa  boa  corda  de  linho,  munida  de  um  no 
corredio,  para  enforcal-o. 


O  casamento  silencioso,  em  que  os  nu- 
bentes  so  ougam  o  pulsar  do  proprio  cora9ao, 
que  se  furta  a  profanidades  e  ostentagoes, 
ainda  se  tolera ;  mas  o  casamento  carnavalesco 
em  que  se  compraz  o  ruidoso  mau  gosto  dos 
rastacueros,  devia  ser  capitulado  nos  mesmos 
artigos  do  Codigo  que  punem  os  attentados  d 
moralidade  publica. 

*       ' 

Outr'ora  eram  as  viagens  prazeres  espi- 
rituaes.  So  se  atreviam  a  viajar  os  individuos 
que  alliassem  a  coragem  tranquilla  dos  mari- 
nheiros  ao  appetite   delicado  dos  epicuristas 

16 


242  VSRDADES   INDISCRBTAS 

mentaes.  O  viajante  atravessava  oceanos ;  sal- 
tava  de  um  para  outro  continente ;  galgava 
montanhas;  descortinava  horizontes;  orava 
nas  basilicas;  admirava  os  paineis  nos  mu- 
seus ;  contemplava  os  monumentos  iilustres  y 
tinha  extases  deante  das  estatuas ;  via  e  ou- 
via  nos  theatros  as  celebridades  em  voga.  K 
quando  regressava  aos  penates,  era  a  esposa» 
aos  filhos  e  a  limitado  numero  de  amigos  que 
elle  referia  da  sua  viagem  as  peripecias  mais 
interessantes.  Elle  ma  coisas  durante  a  sua  pe- 
regrinagao.  So  ia  fazer  isso ;  ver,  para  gozo  do 
seu  espirito  e  para  narrar  maravilhas  a  esposa 
durante  os  seroes  honestos  da  sua  casa. 

Hoje  e  differente.  Por  pequena  quantia 
p6de  qualquer  sujeito  viajar  com  a  familia  em 
paquetes  confortaveis.  Annualmente  zarpam 
deste  porto  toneladas  e  toneladas  de  carne 
humana  que  vae  com  a  intengao  de  ser  vista 
em  Paris.  Por  la  estao  elles,  os  nossos  andari- 
Ihos,  mezes  e  mezes,  sem  conseguir  penetrar 
um  iota  da  alma  de  Paris.  Viram  mulheres^ 
viram  homens,  viram  cantarias  e  acharam  es- 
tupenda  a  torre  Eiffel,  ate  onde  grimparam,. 
gragas  aos  seus  instinctos  de  quadrumanos,  e 
de  onde  mandaram  para  o  Brasil  o  inevitavel 
postal:  Meu  amigo — Escrevo-te  do  alto  da 
torre  Eiffel,  etc ...  » 

Tenho  conversado  com  innumeros  turis- 


CONSIDERApSBS   ACTUAL  243 

tas  indigenas  chegados  de  Paris  e  confesso 
que.antes  de  conhecer  qualquer  delles,  julgava 
o  cerebro  humano  menos  impenetravel.  Com 
excepgao  dos  raros  viajantes  intellectuaes 
que  sabem  ver  sem  necessitar  de  recorrer  ao 
Bedecker  ou  de  pedir  informa^oes  a  Agencia 
Cook,  todos  OS  brasileiros  voltam  de  Paris  en- 
cantados.  .  .  com  a  illumina9ao  do  Rio  ! 

Lembra-me  ter  sido  apresentado  a  dois 
rapazes  muito  ricos,  paulistas  e  bachareis  na 
forma  da  lei.  Haviam  chegado  da  Europa  na- 
quelles  dias ;  e,  como  eram  bem  parecidos  e 
endinlieirados,  ficaram  logo  sendo  a  coquelu- 
che  das  raparigas  da  pensao.  De  resto,  bons 
rapazes  e  muito  amaveis.  Mas  diziam  coisas 
phantasticas  a  respeito  de  Paris.  Uma  noite^ 
apoz  o  jantar,  tendo-se  formado  uma  roda  de 
rapazes  e  m69as,  os  dois  j  ovens  rica90s  dis- 
corriam  acerca  da  Franga  e  principalmente  das 
francezas.  A  paginas  tantas,  disse  um  delles : 
«0  que  falta  em  Paris  e  limpeza.  Nao  ha  hy- 
giene nas  ruas.  E  as  casas  sao  horriveis.  As 
senhoras  nao  imaginam  o  que  seja  a  avenida 
da  Opera :  uma  serie  de  casas  antigas  e  en- 
fuma9adas.  Nao  limpam  as  testadas  dos  edi- 
ficios .  .  .  Qual !  Nao  ha  nada  como  a  nossa 
avenida  Rio  Branco.  Que  bom  gosto !  E  os 
nossos  chales  da  avenida  Atlantica !  Nao  vi 
nada  em  Paris  que  se  parecesse  com  elles. 


244  VERDADES    INDISCRSTAS 

Como  tambem  nem  em  Berlim,  que  e  muito 
mais  limpa  do  que  Paris,  nem  em  Berlim  vi 
avenida  que  se  parecesse  com  aavenida  Pau- 
lista ! » 

No  mesmo  dia  pedi  as  minhas  contas  e 
no  dia  seguinte  mudei  de  casa. 

* 

Mas  nao  e  a  torre  Eirfel  a  unica  victima 
dos  brasileiros.  Alem  dos  inevitaveis  pombos 
de  Veneza,  ha  no  universo  um  sitio  feito  para 
inspirar  piedade  :  Nice.  A  guerra  nos  tem  li- 
vrado  de,  ao  abrir  alguma  das  nossas  illustra- 
^oes  semanaes,  encontrar  o  retrato  de  um 
ahonrado  negociante  da  nossa  pra9a)),  cerca- 
do  da  sua  numerosa  prole,  posturando  num 
jardim  de  Nice  com  a  mesma  physionomia 
acarneirada  e  prolifica  com  que  costuma  dei- 
xar-se  retratar  nos  convescotes  da  ilha  do  Bom 
Jesus.  Bemdita  guerra.  .  . 

* 

Que  pena  que  eu  nao  seja  o  Doutor 
Fausto  !  Si  Mephistopheles  me  apparecesse, 
o  que  eu  Ihe  pediria  era  transformar-me  em 
intellectual  francez,  inglez,  ou  allemao,  du- 
rante um  inverno,  so  para  poder  sentir  o  que 
.deve  sentir  um  francez,  um  inglez,  ou  um  alle- 
mao super-civilisado,  quando  o  acaso  o  poe 
em  contacto  com  o  turismo  americano  ... 


O  cabega  de  turco 


( Carta  ao  dr.  Chefe  de  Policta) 

Exmo.  Sr. — Venho,  nestas  linhas,  pedir 
a  V.  Ex.  garantir  a  avelludada  pelle  de  um 
patricio  nosso,  actualmente  amea9ado  por 
causa  da  sua  mania  de  ser  turco  :  o  sr.  dr.  Joao 
do  Rio.  Ha  muitos  annos  entrou  na  cabe^a 
deste  estimavel  compatriota  a  id^a  de  ser  o 
homem  mais  celebre  do  seu  paiz  e  o  chronista 
mais  bem  relacionado  no  mundo  inteiro. 
Assim,  jurou  esmagar  todos  os  outros  chro- 
nistas  parisienses.  Michel  Georges  Michel  tira- 
va-lhe  o  somno  com  osseus  Pall-Mall-Paris, 
Pall-Mall- Nice,  Pall-Mall-  Trouville,  Pall- 
Mall- Biarritz, &tc.]o2LO  nao  socegou  emquanto 
nao  fez  tambem  um  Pall- Mall- Rio,  improvi- 
sando-se  Jose  Antonio  Jose.  Declarada  a 
guerra,  nao  descansou  Joao  emquanto  nao  foi 
a  Europa  entrevistar  gente  importante,  entre- 


246  VBRDADKS   INDISCRKTAS 

vistar  to  do  o  mundo.  Amigo  intimo  de  Enver- 
Pachd,  de  Talaat-bey,  de  Djavid-Pachd  e  de 
tantos  outros  proceres  do  Imperio  Turco,  nao 
Ihe  contentavam  essas  glorias  stambulescas . 
Creia  V.  Ex.,  sr.  Chefe,  que,  jornalistas  nos  ou- 
tros mais  ou  menos  jecas-tatus,  quando  Joao 
nos  contava  que  tinha  almogado  em  Andrino- 
pla  com  o  general  Djemal-Pacha,  todos  nos 
torciamos  de  inveja,  da  mais  purainveja  deste 
mundo.  Quando,  porem,  Joao  nos  dizia  do 
jantar  que  Ihe  tinha  offerecido  em  Constanti- 
nopla  o  Sultao,  seu  padrinho  de  baptismo, 
jantar  depois  do  qual  elle,  Joao,  foi  apresen- 
tado  a  kadine  predilecta  de  Sua  Magestade  e 
a  mais  de  trezentas  odaliscas : — turcas  da  Ana- 
tolia, ariscas  e  leves ;  arabes  do  Hedjaz,  hu- 
mildes  na  belleza  da  sua  escravidao ;  arme- 
nias.  flexuosas  como  gatas  angoras ;  georgia- 
nas,  espantadigas ;  circassianas,  cheias  de  no- 
breza  na  suavidade  dos  olhos  claros ;  persas 
morenas  e  finas  que  ao  Commendador  dos 
Crentes  havia  mandado,  como  preito  de  ami- 
zade.  Sua  Altezalsmail-Djezir-Khan  ;  humidas 
e  sensuaes  egypcias  de  pelle  trigueira,  pre- 
sente  principesco  do  Khediva  Abbas-Hilmy ; 
e  quando  Joao  nos  dizia  que,  a  sua  passagem 
pelo  harem,  entre  eunuchos  numidas,  sub- 
missos  e  mal  encarados,  essas  escravas  se 
curvavam   e  se  prostravam   sobre  tapetes  do 


O   CABE9A   DS  TURCO  247 

Afghanistan;  e,  de  dentrodas  suas  largaspan- 
talonas  de  s^da  da  India,  que  mal  disfar^a- 
vam,  na  sua  hallucinante  harmonia,  as  curvas 
das  ancas  magnificas,  murmuravam  docemen- 
te  —  Tezlim  f  Tezlim  /  Graga !  Gra9a !  —  ah ! 
entao  e  que  a  nossa  inveja  explodia  em  pra- 
gas  de  enthusiasmo  e  em  uivos  de  admira9ao, 
que  pareciam  nao  mais  ter  fim.  Certa  vez,  de- 
pois  de  ouvir  a  Joao  uma  dessas  portentosas 
narrativas,  nao  me  contive  que  nao  rosnasse 
de  dentro  da  minha  inveja  e  da  fumaga  do 
meu  charuto  bahiano : 

—  Este  Joao  ainda  acaba  mahometano  e 
Grao-Vizir ! 

Comtudo,  a  vida  tem  suas  surpresas, 
como  passo  a  referir  a  V.  Ex. 

Numa  excursao  que  fiz  pelo  Hedjaz,  em 
companhia  do  Emir  Faysal,  estando  nos  na 
nossa  tenda  uma  tarde,  perto  das  ruinas  de 
Palmyra,  vimos  chegar  com  grande  e  majes- 
toso  estrepito  uma  caravana  pomposa,  e,  a 
frente  dessa  caravana,  Joao  do  Rio,  encarapi- 
tado,  nao  sei  si  num  camello  ou  em  si  proprio. 
O  Emir  manteve  se  discreto,  grave  no  seu  al- 
bornoz  branco,  cofiando  as  admiraveis  barbas 
biblicas  e  fumando  tranquillamente  fumo  persa 
no  seu  magnifico  narghile  de  boquilha  de  pra- 
ta.  Em  volta  de  nos  estendia-se  a  paizagem 
melancholica :  palmeiras  resignadas  d  aridez 


248  VERDADES    INDISCRETAS 

do  campo  desertico ;  meditativos  camellos  e 
nostalgicos  dromedarios,  alongando  os  pesco- 
90s  e  dilatando  as  narinas,  como  se  procuras- 
sem  com  os  focinhos  o  rumo  em  que  ficava  a 
Terra  da  Promissao .  .  .  Alguns  beduinos,  aco- 
corados  em  tapetes,  sorviam  regaladamente 
harak  e,  saudando  com  lentas  e  nobres  reve- 
rencias  os  que  entravam,  preguigosamente 
iam  fumando  os  seus  longos  galiun,  na  atti- 
tude sacerdotal  de  quem  meditasse  versiculos 
do  Alcorao.  Joao  desceu  do  seu  camello,  que- 
ro  dizer,  de  si  mesmo ;  e,  sorridente,  esten- 
deu  a  mao  democratica  ao  Emir.  Este,  que 
tinha  visto  as  divisas  turcas  de  Joao  do  Rio, 
nao  manifestou  grande  empenho  em  estender- 
Ihe  a  dextra  principesca.  Dois  guerre iros  ara- 
bes  apalparam  os  alfanges,  suppondo  que 
Joao  quizesse  provocar  o  Emir.  Este,  porem, 
nao  alterou  a  sua  serenidade  oriental.  Vendo 
eu  que  podia  surgir  de  tudo  aquillo  um  con- 
flicto  tremendo,  disse  em  francez  ao  Emir  que 
Joao,  em  bora  parecesse  turco,  nao  o  era.  Era 
apenas  brasileiro,  christao  e  ate  academico. 
Entao  o  Emir  se  levantou  levemente,  e  gra- 
vemente  saudou  a  Joao,  quasi  sem  retirar  dos 
labios  a  boquilha  do  seu  narghile.  Todavia^ 
convidei  a  Joao  para  comer  alguma  coisa  com- 
nosco.  Em  torno,  os  arabes  se  tinham  aquie- 
tado.   O  dispenseiro  de  Sua  Alteza  o  Emir 


O    CABSgJi   DB   TDRCO  249 

Faysal  serviu-nos  uma  malga  de  laden,  cuja 
brancura  espantou  a  Joao. 

—  Que  e  isso  ?  —  perguntou  elle,  como 
se  visse  pela  primeira  vez  uma  fructa  tropicaL 

Com  a  minha  experiencia  dos  costumes 
arabes,  expliquei-Ihe  que  aquillo  era  uma  sim- 
ples coalhada,  uma  especie  de  coalhada  bul- 
gara.  E  Joao  sorveu  com  delicia  o  seu  laden . 
Depois  pedi  a  Sua  Alteza  houvesse  por  bem 
mandar  servir-nos  um  pouco  de  ^o&6s  e  ma- 
kluta,  perdizes  guisadas  com  carneiro  e  legu- 
mes, a  que  Joao  fez  honra  bravamente  e  bem- 
dizendo  Allah  no  fundo  do  seu  coragao. 

—  Admiravel ! — murmurava  Joao,  que, 
no  auge  do  enthusiasmo  gastronomico,  ia,  por 
engano,  limpando  a  bocca  na  fimbria  do  al- 
bornoz  branco  de  Sua  Alteza,  suppondo  usar 
de  um  guardanapo. 

—  Tamaras!  —  exclamava  elle.  Havera 
tamaras  por  aqui  ?  Eu  sempre  encontrei  tama- 
ras no  Oriente.  .  . 

Nao.  Infelizmente  nao  havia  tamaras  e 
era  a  primeira  vez  que  Joao  ia  ao  Oriente . 
Mas,  havia  alguma  coisa  que  Joao  nao  conhe- 
cia  e  eu  pedi  para  elle :  ataief,  pasteis  doces 
de  nozes  pisadas,  envolvidas  em  capa  detrigo, 
sobre  os  quaes  se  derrama  calda  de  assucar, 
perfumada  de  hortelan,  canella  e  mangerona,. 
de  suave  sabor  prophetic© ... 


250  VBRDADBS    INDISCRBTAS 

Joao,  encantado,  jurava  que  no  Rio,  na 
confeitaria  Paschoal,  aquelles  pasteis  fariam 
furor;  e,  repetindo  a  dose,  perguntava  ao 
Emir  em  portuguez : 

—  Porque  e  que  os  senhores  aqui  nao 
mandam  estas  deliciosas  coisas  para  o  Itama- 
raty !  Ah !  o  Itamaraty .  .  .  E'  um  tumulo .  .  . 
E'  a  Arabia  do  Brasil .  .  . 

Sua  Alteza,  por  ventura  nossa,  nao  en- 
tendia  o  portuguez  ;  e  eu,  aproveitando  a  igno- 
rancia  delle  e  dos  outros  beduinos,  garanti  cy- 
nicamente  que  Joao,  na  nossa  lingua,  agrade- 
cia  a  Allah  e  louvava  o  Propheta!  Ao  que 
Sua  Alteza  inclinou  gravemente  a  fronte,  em- 
quanto  os  arabes  circumdantes  faziam  o  mes- 
mo,  cheios  de  respeito  e  de  terror .  .  . 

Terminada  aquella  refeigao,  quiz  eu  co- 
nhecer  o  sequito  de  Joao,  todo  elle  composto 
de  beys  e  pachas  que,  com  extranheza  minha, 
se  conservavam  a  distancia  respeitosa,  comen- 
do  conservas  europeas!  So  entao  verifiquei, 
nao  sem  espanto  e  gargalhadas,  que  os  pachas 
e  beys  de  Joao  eram  simples  empregados  da 
Agencia  Cook  —  inglezes,  italianos,  france- 
zes,  allemaes  e  dois  portuguezes  que  Ihe  ser- 
viam  de  interpretes. 

—  Mas,  entao,  Joao  !  Que  pachas  occi- 
dentaes  sao  estes? 


O   CABE5A   DB   TURCO  2Sl 

—  Ah !  Aqui  entre  n6s ...  E'  s6  para 
dizer  que  estive  no  Oriente.  ,  .  Quern  nao 
fizerassim,  vivendo  no  Brasil,  6  positivamente 
cretino.  O  Oriente !  Mas  afinal  quern  conhe- 
ce  o  Oriente  ?  Ninguem ...  O  proprio  Sao 
Paulo,  que  viveu,  morreu  e  ate  nasceu  em 
Roma,  nunca  viu  o  Oriente.  Os  ultimos  ho- 
mens  que  viram  o  Oriente  forem  os  reis  ma- 
^os! 

—  E  nos,  Joao,  nos  tambem,  que  aqui 
estamos,  com  os  diabos! 

—  Mas  estamos  sem  ver .  .  .  Voce  pen- 
sa  que  o  Emir  conhece  o  Oriente  ?  Nao  co- 
nhece.  O  Emir  conhece  a  Europa,  conhece 
Paris,  Londres,  as  unicas  coisas  que  interessam 
a  homens  intelligentes.  Porque  e  que  o  Emir 
nao  se  veste  no  Poole?  E'  um  lindo  homem... 


Nunca  mais  vi  Joao.  D'ali  nos  separa- 
mos,  elle  para  a  vastidao  democratica  do  Occi- 
dente,  e  eu,  na  comitiva  de  Sua  Alteza,  para 
Thaief,  Medina  e  Djebah,  na  ancia  illustre  e 
inoffensiva  de  estudar  religioes  em  cima  de 
camellos .  .  .  Chegando,  porem,  ao  Brasil,  co- 
mecei  a  notar  que  Joao  conhecia  mais  o 
Oriente  do  que  eu  e  Sao  Paulo,  que  Id  estive- 


252  VERDADBS    INDISCRm'AS 

mos  tamto  tempo,  o  Apostolo,  pregando  o 
Evangelho,  e  eu,  pobre  peccador,  estudando 
affanosamente  o  que  elle  tinha  pregado  dois 
mil  annos  antes.  Mas,  de  tal  maneira  Joao  fal- 
lava  da  sua  intimidade  com  pachas,  beys  e 
effendis,  que  eu  comecei  a  nutrir  contra  elle 
uma  dessas  invejas  surdas  que  sao  capazes 
de  levar  um  homem  a  prisao.  Depois  Joao 
foi  a  Buenos  Ayres,  yisitar  Julio  Roca ;  foi 
ao  Chile,  entrevistar  as  salitreiras ;  foi  a 
Montevideo,  meia  hora;  e  nao  tendo  mais 
onde  ir,  foi  a  Conferencia  da  Paz.  Entrevistou 
Venizelos ;  conversou  com  o  Papa,  que,  por 
signal,  Ihe  abriu  pessoalmente  a  porta  do  Va- 
ticano,  para  que  elle  entrasse ;  fallou  com  o 
Rei  da  Italia;  entrou  em  certas  intimidades 
com  a  Rainha  da  Rumania ;  e,  por  ultimo,  de 
volta  ao  Brasil,  deu-lhe  para  elogiar  os  turcos^ 
«povo  ingenuo,  cavalheiro,  belle  e  bom» . 
Esses  elogios  fizeram  perder  a  cabega  —  nao 
a  do  turco,  mas  a  sua  propria — ao  sr.  Etienne 
Brasil,  armenio,  e  portanto  inimigo  pessoal 
do  Sultao.  Vae  d'ahi,  Exmo.  Sr.,  o  dr.  arme- 
nio Etienne  Brasil  tem  escripto  coisas  tremen- 
das  contra  Joao.  Diz  que  Joao,  para  elogiar  o 
Turco,  recebeu  dinheiro  dos  pachas!  Injus- 
tiga!  Porque  nem  os  pachas  hoje  em  dia  t^m 
dinheiro,  nem  Joao  viu  em  tempo  algum  um 
pacha.  Em  tudo  isso  o   que  ha  e  o  seguinte : 


O    CABE9A   DE   TURCO  253 

Joao  tern  a  mania  de  ser  turco  e  e  bem  capaz 
de,  for9ando  o  seu  natural  horror  a  generosi- 
dade,  pagar  um  cafe  a  um  pacha,  com  a  con- 
digao  deste  certificar  nalgum  consulado  que 
elle,  Joao,  esteve  com  o  Pacha.  Joao,  Exmo . 
Sr.,  nunca  foi  nem  amigo  nem  inimigo  dos 
turcos.  Julga-se  turco  so  porque  andava  de 
turbante  em  Paris,  da  mesma  sorte  que  os 
pretos  da  Africa  e  seus  similares  do  Brasil  se 
julgam  latinos  so  por  usarem  as  velhas  carto- 
las  dos  patroes  e  lunetas  trincadas.  Joao  e 
inofifensivo,  bom  rapaz  e  talentoso.  A  colonia 
Syria  do  Rio  de  Janeiro  nao  deve  espancal-o. 
Elle  anda  mentalmente  vestido  de  turco  por 
troga.  E'  o  mais  bem  vestido  dos  nossos  ty- 
pos de  rua,  o  mais  elegante  dos  nossos  typos 
populares .  Apenas  isso .  Uma  doce  mania 
como  outra  qualquer.  Assim,  entendo  que  V. 
Ex.,  no  religioso  exercicio  das  suas  altas  func- 
goes,  deve  garantir  o  pello  ao  nosso  patricio 
Joao  do  Rio,  que  nunca  viu  um  turco  em  dias 
da  sua  vida  e  esta  na  imminencia  de  ser  so- 
vado,  em  plena  America  do  Sul,  por  armenios 
e  syrios,  que,  ausentes  da  Palestina  durante 
tanto  tempo,  deram  agora  para  confundil-o 
com  o  Sultao,  quando  a  verdade  e  que  elle  e 
apenas  afilhado  de  Sua  Majestade. 

Espero  que  V.  Ex.  tome  em  considera- 
^ao    estas   linhas    humanitarias   e,    sem   re- 


254  VBRDADKS  INDISCRETAS 

correr  a  verba  secreta,  proteja  o  nosso  adora- 
vel  compatriota,  tornando-se  dest'arte  credor 
da  estima  e  gratidao  do  seu  patricio  e  admi- 
rador, 

Antonio  Torres. 


Uma  semana  alegra 


.  .  .  Pois,  amigos,  esta  semana  foi  mais 
alegre  do  que  eu  esperava.  Alem  das  habi- 
tuaes  descomposturas  dos  jornaes,  ahi  esta 
a  campanha  do  sr.  dr.  F'linto  d' Almeida 
para  que  o  Rio  de  Janeiro  faga  nas  secgoes  li- 
vres  das  gazetas  uma  declaragao  mais  ou  me- 
nos  como  esta:  «Ao  Publico,  aos  meus  ami- 
gos E  A  Pra^a  —  Communico  que  de  hoje  em 
deante  passo  a  assignar-me  Guanadara.n 

Tivemos  ainda  um  principio  de  bate- 
bocca  no  Senado,  por  causa  da  construcgao  do 
novo  edificio  destinado  aos  formidaveis  esta- 
distasque  diariamente  cochilamnaquellacasar 
assim  como  tivemos  tambem  o  caso  de  um 
famoso  habeas-corpus  a  favor  de  uns  deputados 
amazonenses. 

Esse  habeas-corpus  foi  sensacional,  por 
ter  permittido  ao  sr.  ministro  Pedro  Lessa  lan- 
^ar  ao  paiz,  numa  phrase  cheia  de  sarcasmor 


256  VERDADES   INDISCRETAS 

a  bofetada  que  o  paiz  faz  questao  de  receber 
pordia.  Com  effeito,  para  remediar  aafflictiva 
situagao  do  Amazonas,  o  sr.  dr.  Pedro  Lessa, 
officialmente,  no  nosso  mais  alto  tribunal,  des- 
abnsadamente  opinou  por  um  alvitre  que,  se- 
gundo  declarou  S.  Ex. ,  e  o  unico  aconselha- 
vel :  reformar  a  Constituigao  com  o  intuito  de 
transformar  aquelle  territorio  em  principado 
ou  ducado  que  seria  entregue  a  um   dos  mui- 
tos  principes  allemaes,  actualmente  em  dispo- 
nibilidade.  Muita  gente  ha  que  se  tem  escan- 
dalisado  com  essa  phrase.    Eu,  nao.    O  sr. 
ministro,  com  esse  safanao  que  nos  deu,  ate 
se  revelou  muito  patriota.  O  que  em  summa 
deseja  S.  Ex.  e  o  engrandecimento  do  Ama- 
zonas; e  como  esta  provada  a  nossa  incapa- 
cidade  para  realisar   esse  engrandecimento, 
melhor  se  Ihe  afifigura  entregar  aquelle  territo- 
rio a  um  principe  allemao,  que  o  tornaria  rico 
e  prospero,  si  nao  como  a  Alsacia-Lorena,  ao 
menos  como  o  Rio  Grande  do  Sul.  .  .   Pena 
e  que  o  sr.  dr.  Pedro  Lessa  haja  limitado  asua 
acgao  patriotica  somente  ao  Amazonas;  e  pois, 
<:om  o  devido  acatamento,  pego  licenga  para 
ampliar  o  alcance  do  seu  alvitre  a  todo  o  Bra- 
:sil.  Nao  e  so  o  Amazonas  que  tem  o  direito 
de  ver-se  livre  da  sua  perigosa  fauna  de  Pe- 
dros  Bacellares  e  Lopes  Gon9alves,  nao,  se- 
nhor.  Entao  acha  justo  S.  Ex.  limpar  o  Ama- 


UMA  SBMANA  AI.BGRK  257 

2onas  com  o  chicote  de  um  principe  allemao, 
e  deixar  proliferar  em  Minas  os  Franciscos 
Salles  com  os  respectivos  Bressanes,  no  Para 
OS  Firmos  Bragas,  etc.,  etc.  ?  Nao.  Nao  seria 
justo,  nao  seria  humano.  O  que  manda  a  Jus- 
ti9a,  de  que  S.  Ex.  e  grande  pontifice,  e  oque 
o  patriotismo  impoe,  e  entregar  o  Brasil  todo 
a  um  principe  allemao,  o  Brasil  todo,  inclusive 
o  sr.  dr.  Pedro  Lessa,  com  sua  pess6a  e  bens. 
Porque  um  paiz  onde,  no  mais  alto  tribunal, 
ha  um  juiz  do  prestigio  do  sr.  Pedro  Lessa,  e 
que  leva  ate  esse  ponto  o  seu  amor  a  ironia  e 
ao  espirito  de  tro^a,  merece  realmente  a  tutela 
do  estrangeiro ;  e  um  paiz  maduro  para  um 
protectorado.  Deixemos,  porem,  este  assum- 
pto  lugubre  e  passemos  a  tratar  de  coisas  me- 
nos  escabrosas .  .  . 

Guanabara  /  Tal  o  nome  que  o  sr .  dr . 
F'linto  d' Almeida  propoe  para  substituir  o 
actual  de  Rio  de  Janeiro,  estribando-se  nas 
seguintes  razoes: 

o  nome  Rio  de  Janeiro  e  longo  e  feio ; 

Guanabara  e  curto  e  bonito ; 

no  Rio  de  Janeiro  nao  ha  rio. 

A  estas  razoes  adduziu  o  sr.  Magalhaes 
^e  Azeredo,  nosso  embaixador  junto  a  Santa 
S^,  mais  esta :  que  os  estrangeiros  dilftcil- 
mente  pronunciam  o  nome  da  nossa  capital, 
que  estropiam  sempre. 

17 


258  VKRDADES    INDISCRETAS 

Voto  contra.  Rio  de  Janeiro  e  denomi- 
nagao  que  devemos  conservar  como  documen- 
to  historico  do  alto  engenho  e  da  heroica  per- 
tinacia  dos  nossos  Descobridores.  Com  effeito, 
certo  dia  aqui  chegou  um  capitao  portuguez  na 
sua  nau,  e  entrou  pela  bahia  a  dentro,  uma 
bahia  immensa,  um  mar  inconfundivel ;  pois, 
senhores,  depois  de  muito  olhar,  de  muito 
examinar  e  de  muito  matutar,  concluiu  elle 
la  com  OS  alamares  do  seu  gibao  : 

—  Isto  e  um  rio  ! 

—  E',  concordou  o  seu  piloto. 

—  Amen,  gemeu  o  frade  capellao. 

E  em  toda  a  marinhagem  lusitana  nao  se 
achou  um  so  homem  capaz  de  notar  que  a  bahia 
nao  era  um  rio  !  Outros  capitaes  vieram  depois; 
percorreram  toda  a  costa  do  Brasil;  distingui- 
ram  e  denominaram  todos  os  cabos,  ilhas,  ba- 
hias,  enseadase  rios  que  encontraram ;  so  nao 
conseguiram  distinguir  a  Bahia  de  Guanabara. 
Conheciam  tudo;  chegando,  porem,  a  nossa 
bahia,  cofiavam  as  barbas  heroicas,  arrimavam- 
se  aos  montantes  e  rugiam  de  dentro  das  suas 
couragas : 

—  Um  rio  e  isto,  ou  nao  serei  eu  bom 
christao  baptisado,  confessado  e  commungado. 
Em  nome  d'El-Rey  Nosso  Senhor  o  affirmo  I 
Que  dizeis  atal,  Dom  Vasco  d'Athayde? 


UMA  SEMANA  ALEGRE  259 

—  Bofe,  que  rio  e  e  dos  mais  formosos 
que  hei  visto  em  dias  de  vida  minha !  Razao 
tendes,  sr.  capitao,  txovejava  Dom  Vasco^ 
apalpando  a  cruz  da  espada  e  ja  disposto  a  ra- 
char  ao  meio,  com  uma  so  cutilada,  o  vilaa 
que  o  contrario  ousasse  dizer .  .  . 

Portanto,  agora  e  tarde.  Nao  ha  erro  de 
nome  que  se  possa  corrigir  depois  de  quatro- 
centos  e  dezenove  annos.  E  sera  esse  o  unicoi^ 
Podera!  Basta  dizer  que  o  Brasil  foi  desco- 
berto  a  22  de  Abril  e,  nao  obstante,  oseu  des- 
cobrimento  e  commemorado  a  3  de  Maio  I 
Somos,  pois,  o  paiz  dos  erros  e  enganos,  al- 
guns  fataes,  como  o  que  victimou  o  finado  Ti- 
radentes. 

E  a  Republica?  Foi  tambem  procla- 
mada  por  engano.  Deodoro  pensava  que  ia 
somente  derrubar  o  ministerio.  Quando  vol- 
tou  a  si,  o  malja  estava  feito,  quero  dizer,  a 
Democracia  estava  fundada. 

Demais,  o  nome  do  Rio  nao  e  a  unica 
coisa  errada  que  ha  na  America. 

O  nosso  continente  devia  chamar-se  Co- 
lombia ;  entretanto  a  Colombia  e  apenas  um 
pequeno  paiz,  ja  meio  devorado  pelos  Estados 
Unidos. 

Ha  no  sul  um  rio  que  se  chama  Rio  da 
Prata,  embora  no  seu  leito  nao  se  encontre 
uma  gramma  desse  metal. 


260  VERDADES    INDISCRETAS 

Temos  aqui  no  Rio  de  Janeiro  uma  Aca- 
demia  de  Letras  onde  quasi  nao  ha  escripto- 
res  e  pullulam  os  medicos,  em  virtude  da  ur- 
^encia  que  tinham  os  outros  academicos  de  ter 
veterinarios  junto  de  si ;  em  compensa9ao  a 
Academia  Nacional  de  Medicina  esta  cheia  de 
<:avalheiros  cujas  aptidoes  mentaes  ainda  nao 
foram  verificadas,  mas  que  devem  ser  fatal- 
mente  litteratos. 

O  Senado  Federal  esta  occupado  por  ho- 
mens  que  tem  obrigagao  de  fallar  ao  povo,  e 
^ntretanto  nao  sao  capazes  de  abrir  o  bico,  ao 
passo  que  a  Associagao  Commercial,  que  de- 
via  evitar  arroubos  de  rhetorica,  e  um  ninho 
de  oradores,  um  viveiro  de  Demosthenes. 
Como  ve  o  sr.  dr.  F'linto,  anda  tudo  a  ma- 
troca  neste  paiz    .  . 

A  mudan^a  do  nome  da  nossa  capital  tra- 
ria  complicagoes  innumeraveis.  Ja  nao  quero 
alludir  ao  incommodo  que  seria  para  o  talen- 
toso  nacionalista  da  colon iaportugueza,  sr.  dr. 
Joao  do  Rio,  ver-se  obrigado  a  chamar-se  dr. 
Joao  Guanabara.  Pego  a  atten^ao  do  sr.  dr. 
F'linto  apenaspara  um  caso  que  a  S.  Ex.  mais 
de  perto  deve  tocar. 

O  imaginoso  academico  tem  um  livro  de 
versos  intitulado  Cantos  e  Cantigas.  (Porto 
—  Livraria  Chardron  —  1915).  Nesse  livro 
ha  uma  poesia  que  se  chama  Rua  de   Gongal- 


UMA  SBMANA  ALEGRE  261 

ves  Dias^  daqual  destaco  (pags.  163  e  166) 
as  seguintes  estrophes,  que  reputo  primorosas 
e  reveladoras  de  um  homem  de  genio,  em 
toda  a  nobre  vastidao  do  vocabulo  : 


£^is-nos  na  antiga  rua  dos  Latoeiros, 

Rua  com  muitos  titulos  de  gloria, 

E  que  ha  de  ter  na  Historia, 

Certo,  um  dos  seus  capitulos  primeiros . 

Ufana  a  rua  de  uma  tal  ventura, 
Deu  d  poesia  as  suas  sympathias 
E  ha  muito  em  suas  placas  jd  fulgura 
O  bello  nome  de  Gonf  alves  Dias . 

Mas  nao,  porque  onde  foram  os  sobrados 
Em  que  vivera  o  poeta  brasileiro, 
Vive  hoje  a  Associa^ao  dos  Empregados 
No  Commercio  do  Rio  de  Janeiro. 


Estes  versos  trazem  no  livro  a  data  de 
1907  e  sao,  como  se  ve,  portentosos.  Bilac. 
dizem,  cuidava  morrer  de  rir  quando  alguem 
Ih'osrecordava,  mas  si  ria,  de  inveja  devia  ser, 
porque  nao  ha,  em  toda  a  obra  do  grande  ly- 
rico,  nada  que  se  possa  comparar  com  esta  pe- 
quena  epopea  da  rua  dos  Latoeiros. 

Imaginemos  agora  que  vingue  a  proposta 
do  sr.  dr.  F'linto.  Gravissimo  desastre  seria 
esse  para  a  nossa  litteratura,  pois  que  obriga- 
dos  nos  veriamos  a  alterar  uma  das  melhores 
quadras,  a  ultima  das  citadas,  pela  seguinte 
f6rma : 


262  VERDADES   INDISCRETA.S 


Mas  nao,  porque  onde  foram  os  sobrados 
Em  que  vivera  o  poeta  brasileiro, 
Vive  hoje  a  Associa9ao  dos  Empregados 
No  Commercio  de  Guanabara! 


Soa  mal,  como  se  ve.  Eis  porque  venho 
eu  supplicar  ao  sr.  dr.  F'linto,  em  nome  das 
bellasletras,  em  nome  da  litteratura  nacional, 
em  nome  da  Esthetica,  em  nome  das  Came- 
nas,  em  nome  da  sua  propria  gloria  e  em  nome 
da  gloria  da  rua  dos  Latoeiros,  pelas  almas 
do  Purgatorio  em  geral  e  pela  de  Gongalves 
Dias  em  particular,  que  nao  mutile  essa  obra- 
prima  ou,  como  diria  o  dr.  Joao  do  Rio,  esse 
chefe  d'obra.  O  sr.  dr.  F'linto  nao  tem  o  di- 
reito  de  concorrer  para  que  se  deturpe  esse 
primor  que,  ja  agora,  nao  e  exclusivamente 
seu,  mas  esta  irrevogavelmente  incorporado 
ao  patrimonio  intellectual  nao  do  Brasil  ape- 
nas,  mas  de  toda  a  America  do  Sul  e  da  raga 
latina ! 

Quanto  aos  estrangeiros,  cujas  difificulda- 
des  prosodicas  tanta  sympathia  inspiram  ao 
sr.  dr.  Magalhaes  de  Azeredo,  o  remedio  e 
simples.  Trate  cada  um  delles  de  traduzir  para 
a  lingua  materna  o  nome  da  nossa  capital . 
Assim  faz  Sua  Santidade  o  Papa,  que  e  pes- 
s6a  de  muita  consideragao  e  respeito.  De  fa- 
cto, communicando-se  com  os  bispos  brasilei- 
ros  na  lingua  official  do  Vatican©,  que  e  a  la- 


UMA   SEMANA   ALEGRE  263 

tina,  nesta  lingua  escreve  o  Santo  Padre  o  no- 
me  desta  cidade,  Assim,  a  personagem  que 
aqui  e  o  sr.  Cardeal  Arcebispo  do  Rio,  no  pa- 
teo  de  S.  Damaso  e  adjacencias  e  Cardinalis 
Archiepiscopus  Sancti  Sebastiani  Fluminis 
Jannuarii.  Nos  tambem  costumamos  traduzir 
nomes  de  cidades  estrangeiras.  O  que  para  os 
allemaes  e  Me^iz  e  para  os  francezes  Mayence, 
para  nos  e  Moguncia.  Tambem, o  que  para  nos 
e  Lisboa,  e  para  o  inglez  Lisbon,  para  o  Papa 
Ulysipo,  para  os  francezes  Lisbonne  e  para  os 
allemaes  Lissabona.  Emquanto  os  allemaes  di- 
zem  Koln,  e  os  francezes  Cologne,  nos  dize- 
mos  Colonia.  Por  isso  nao  descubro  inconve- 
niente  em  que  cada  estrangeiro  va  traduzindo 
como  poder  no  seu  proprio  idioma  o  nome  do 
Rio  de  Janeiro.  Em  Madrid  ouviremos  dizer 
Rio  de  Enero\  em  Paris,  Fleuve  de  Janvier; 
em  Roma,  Ftume  di  Gennajo',  em  Londres, 
January -River,  e  em  Bedim,  Januar-Fluss. 
Em  Constantinopla  nao  sei  como  sera;  mas 
quem  desejar  informa96es  autorisadas  a  tal 
respeito  queira  dirigir-se  ao  sr.  dr.  Joao  do  Rio- 
Pacha,  que  e  turco  e  afilhado  do  Sultao . 

E  ahi  tem  o  sr.  dr.  Filinto  a  minha  opi- 
niao,  que  S.  Exa.  nao  pediu  mas  eu  dei,  por- 
que  quiz  dar.  E  mais,  direi  que,  si  mudarmos 
o  nome  da  capital  do  paiz,  temos  de,  pelas 
mesmas  razoes,  mudar  o  nome  do  Estado  do 


264  VKRDADES   INDISCRETAS 

Rio.  Pelo  que,  o  melhor  e  ficarem  as  coisas 
como  estao.Nao  Ihesbulam,  que  epeior.Esco- 
Iha  o  sr.  dr.  Filinto  outro  meio  deser  agradavel 
ao  seu  fraternal  amigo  Oscar  Guanabarino, 
critico  musical.  Em  vez  de  mudar  o  nome  da 
capital,  vamostrabalhar  para  que  a  City  nao 
despeje  na  bella  bahia,  como  faz,  as  fezes  da 
cidade  quasi  em  estado  de  natureza.  Traba- 
Ihemos  para  que  a  bahia  de  Guanabara  deixe 
de  ser  o  que  actualmente  e:  a  mais  formosa 
das  coisas  fetidas.  Isto,  sim,  seria  util.  O  mais 
sao  byzantinismos.  01he,6  dr.,  e  si  forpossivel 
vamos  tambem  ver  si  deixamos  de  fazer  ver- 
sos, sim? 


O  vendedor  de  passaros 


Apanhar  passaros  para  vendel-os  e  uma 
profissao  intermediaria  entre  a  dos  antigos 
vendedores  de  escravos  e  a  dos  modernos 
vendedores  de  escravas.  A  differenga  que  ha 
entre  o  moderno  vendedor  de  passaros  e  o 
antigo  vendedor  de  escravos  e  que  este  era 
perseguido  pelas  leis  e  pelos  crazadores  da 
Inglaterra,  ao  passo  que  aquelles  escravisam  e 
vendem  os  passaros  a  sombra  das  posturas 
municipaes  e  da  indifferen9a  britannica.  Si  a 
Inglaterra  o  quizesse,  os  nossos  passaros  te- 
riam  o  seu  13  de  Maio.  Quando  os  inglezes 
pelos  olhos  dos  seus  estadistas,  economistas 
e  financeiros,  viram  que  a  escravidao  no  Bra- 
sil,  sendo  base  da  nossa  agricultura,  prejudi- 
cava  pela  concurrencia  a  agricultura  das  suas 
colonias  e  possessoes,  onde  a  escravidao  ja 
f6ra  extincta,  que  fizeram  ?  Foram  a  cathedral 
de  Westminster ;  tiraram  de  la  umas  velhas 


266  VERDADES   INDISCRETAS 

bandeiras,  que  serviram  outrora  para  humi- 
Ihar  povos  em  nome  da  Humanidade,  manda- 
ram  os  seus  publicistas  escrever  coisas  solen- 
nes  no  Times.  .  .  Depois  apparelharam  cru- 
zadores;  declararam-se,  como  smpre,  paladi- 
nos  da  Civilisagao,  e  pozeram-se,  muito  a  seu 
commodo,  a  perseguir  os  navios  negreiros.  A 
Humanidade,  como  sempre,  vibrou  com  esse 
lance  magnifico  da  Inglaterra;  e  o  BrasiJ,  mais 
do  que  a  Humanidade  toda.  Travou-se  entre 
nos  a  peleja  abolicionista.  Castro  Alves  fez 
versos  ;  Nabuco  fez  discursos  ;  Jose  do  Patro- 
cinio  fez  artigos;  os  escravocratas  fizeram  op- 
posigao  ;  os  abolicionistas  fizeram  leis  ;  o  Im- 
perador  fez  uma  viagem ;  e  a  Princeza,  no 
meio  de  tudo  isso,  decretou  a  Aboligao. 

Eu  nao  creio  que  os  homens  da  Ingla- 
terra tenham  grande  empenho  na  liberdade 
dos  passaros  brasileiros;  mas  os  passaros  ingle- 
zes  talvez  tenham  nisso  algum  interesse...  No 
dia  em  que  ficasse  prohibido  aprisionar,  sem 
motivo  legal,  passaros  das  nossas  florestas, 
provavelmente  os  passaros  inglezes  teriam  no 
nosso  mercado  muito  maior  cotagao  do  que  a 
que  tem  de  presente ;  e  os  inglezes,  que  de- 
vastam  os  nossos  rebanhos  bovinos  em  bene- 
ficio  dos  seus  soldados,  bem  podiam,  como 
compensagao,  proteger  os  nossos  passaros. 


O   VENDEDOR   DE    PASSAROS  267 

E'  verdade  que  os  passaros  nao  sao  tao 
immediatamente  uteis  como  os  bois,  vaccas  e 
novilhas  que  elles  matam  em  Mendes;  mas 
que  importa  isso  a  Inglaterra  ?  Quanto  mais 
alto  e  desinteressado  f6r  o  motive  apparente 
das  suas  conquistas,  tanto  maior  sera  o  seu 
lucro.  Porque  foi  que  a  Inglaterra  conquistou 
a  India?  Apenas  para  civilisal-a.  E  quanto 
temlucrado  os  commerciantes,  industriaes  e 
financeiros  inglezes  com  esse  acto  de  abne- 
gagao  ?.  .  .  Em  1882,  para  poder  pacificar  o 
Egypto,  a  Inglaterra  bombardeou  e  incendiou 
Alexandria.  Mas  a  Humanidade  (principal- 
mente  a  humanidade  ingleza)  muito  ganhou 
com  isso.  Nessa  transagao  so  os  egypcios 
perderam,  entre  outras  coisas,  a  liberdade,sem 
fallar  no  resto.  Por  isso  digo  :  quanto  mais 
abstracto  o  motivo  que  mova  a  Inglaterra  a 
mobilisar  as  suas  f6r9as  militares,  tanto  maior 
o  seu  lucro  commercial.  Parece  que  a  gran- 
deza  material  da  Inglaterra  marcha  na  razao 
directa  da  metaphysica  dos  seus  processes 
absorventes. 

Pensava  eu  em  todas  estas  coisas  pro- 
fundas,  depois  de  ler  uma  noticia  curiosa  a 
respeito  das  aventuras  de  certo  vendedor  de 
passaros.  Chamava-se  Olympio  Pihto  e  andava 
pela    rua    de    S.    Francisco  Xavier,     carre- 


268  VERDADKS    INDISCRETAS 

gando  as  suas  gaiolas  cheias  de  passari- 
nhos,  quando  deu  de  frente  com  um  xidadao 
brasileiro  chamado  Manoel  Caldeira  de  Assis. 
Sao  ommissas  as  noticias  quanto  aos  an- 
tecedentes  de  ambos  esses  patriotas,  de  sorte 
que  o  chronista  nao  tern  infelizmente  mate- 
riaes  que  Ihe  permittam  tragar  com  clareza  e 
seguranga  a  psychologia  do  caso.  O  certo, 
porem,  e  que  Manoel  Caldeira,  defrontando- 
se  com  Olympio,  achou  que  este  nao  tinha  di- 
reito  de  andar  com  aquellas  gaiolas  de  passa- 
ros .  Estas  questoes  de  direito,  al^m  de  serem 
escabrosas,  tem  ainda  este  defeito:  que,  quan- 
to mais  discutidas  sao,  menos  comprehensi- 
veis  se  fazem.  Creio  que  Manoel  Caldeira  6 
desta  opiniao,  porque  nao  discutiu  com  Olym- 
pio o  direito  de  prender  passaros;  nao  Ihe  re- 
quereu  habeas-corpus,  nem  Ihe  oppoz  em- 
bargos,  nem  Ihe  deu  tempo  para  impetrar  ma- 
nutengao  de  posse.  Nada  disso !  Antes  que 
Olympio  tivesse  tempo  de  appellar  para  os 
juizes  do  Rio  ou  para  os  de  Berlim,  fulminou- 
o  Caldeira  com  um  interdicto  prohibitorio  a 
pau  nas  gaiolas,  seguido  de  um  muito  logico 
alvara  de  soltura  a  favor  dos  coUeiros,  pinta- 
cilgos,  patativas,  gaturamos,  sabids,  cardeaes, 
curios  e  bicos  delacre,que  se  aproveitaram  da 
confusao  reinante  e,  aruflando  as  azas,  sacu- 
dindo  as  pennas»,  fizeramcomo  asillusoes  de 


O   VENDEDOR   DE   PASSAROS  269 

Raymundo  Correa:  foram-se  para  nao  mais 
tornar .  .  .  Nao  contente  com  a  liberdade  tao 
generosamente  concedida  aos  passarinhos,  en- 
tendeu  Caldeira,  como  bom  estrategista,  que 
o  melhor  seria  iniciar  logo  uma  ofifensiva  con- 
tra o  Tyranno;  e,  si  hem  pensou,  melhor  o  exe- 
cutou,  atacando  Olympio  a  murros  nas  ventas 
em  nome  da  Liberdade;  pelo  que,  Olympio, 
com  o  seu  longo  habito  de  lidar  com  passaros, 
resolveu  imital-os,  quero  dizer,  voou  tambem. 
Mas — 6  triste !  6  mesquinha  sorte  dos  liber- 
tadores ! —  gente  do  povo,  ignara  e  proterva, 
nao  atinando  com  o  alcance  moral,  social  e 
humanitario  da  faganha  de  Manoel  Caldeira, 
correu-lhe  sus!  Peor  aventura  do  que  esta  so 
succedeu,  que  eu  saiba,  ao  grande  Dom  Qui- 
xote, que,  tendo  libertado  com  a  sua  langa  in- 
corruptivel  uma  leva  de  presos  que  iam  acor- 
rentados  para  o  presidio,  como,  apoz  tao  gran- 
de proeza,  quizesse  obrigal-os  a  ir  agradecer 
a  sua  libertagao  a  mui  nobre  e  formosa  Dul- 
cinea  del  Toboso,  foi  por  elles  apedrejado  e 
sovado ;  depois  do  que,  fugiram  todos,  antes 
que  por  ali  chegassem  refor9os  da  Santa  Ir- 
mandade ...  A  Manoel  Caldeira  quern  o  per- 
seguiu  nao  foram  os  libertados,  visto  que  por 
felicidade  delle  e  nossa,  os  passaros  ainda  nao 
tern  forgas  que  bastem  para   atirar   pedradas. 


270  VERDADES    INDISCRBTAS 

.  Entretanto,  Caldeira,  o  Libertador,  que 
tinha  visto  voar  os  passarinhos  e  seu  dono, 
imitou-os  tambem;  e  la  se  foi,  correndoa  bom 
correr,  pela  rua  S .  Francisco  Xavier  a  fora, 
ate  que  embarafustou  por  um  capinzal  proxi- 
mo ao  Jockey-Club.  Nesse  capinzal  trabalhava 
um  certo  Jose  Angelo,  que,  vendo  correr  Cal- 
deira perseguido  pelo  povo,  adheriu  a  massa 
perseguidora  e  tentou  tomar-lhe  a  dianteira; 
mas  Caldeira,  apanhando  um  tridente  que  es- 
tavano  chao,  deu  com  elle  uma  pancada  na 
cabega  de  Angelo,  que  caiu  desaccordado. 
Ahi,  ja  desorientado,  foi  preso  por  populares, 
que  o  atacaram  a  cacete.  Resultado:  Angelo 
foi  para  a  Santa  Casa;  Caldeira,  o  ornitho- 
philo,  depois  da  indispensavel  escala  pela  As- 
sistencia,  foi  dar  com  os  ossos  no  xadrez  no 
15°  districto.  E  ahi  esta  como  um  acto  de  ge- 
nerosidade  se  transforma,  de  um  moment© 
para  outro,  em  noticia  policial.  Quanto  ao 
vendedorde  passaros,  esta  ate  agora  voando 
atraz  dos  bicos  de  lacre.  E',  pelo  menos,  o  que 
parece. .  . 

Eu  nao  sei  si  Manoel  Caldeira,  quando 
se  arvorou  em  Tiradentes  dos  pintacilgos,  obe- 
deceu  a  impulsos  puramente  libertarios  ou  a 
impulsos  de  vingan^a  contra  Olympic,  o  Se- 


O   VENDKDOR   DB   PASSAROS  27 1 

nhor  dos  Passaros  ;  mas,  seja  como  for,  nao 
se  pode  deixar  de  ter  sympathia  por  elle.  A 
vinganga,  quando  proporciona  azado  ensejo  a 
pratica  de  algum  acto  nobre  que  aproveite  a 
innocentes,  nobilita-se  por  isso.  No  caso  do 
Caldeira,  cresce  a  minha  sympathia  ao  pensar 
que  elle,  para  libertar  patativas,  teve  de  ferir 
um  pobre  homem  e  foi  esbarrar  no  xadrez. 
Eterna  ligao  aos  libertadores,  eterna  e  incom- 
prehendida.  .  .  O  libertador  nunca  pode  ati- 
rar  aos  grandes  ventos  do  mundo  um  principio 
de  Uberdade  sem  ferir  a  propriedade  de 
muitos.  Ora,  o  maior  crime  que  ha  para  a  so- 
ciedade  conservadora  e  a  violagao  da  proprie- 
dade. O  codigo  admitte  attenuantes  para  o 
homicidio  ;  mas  matar  para  roubar  e  crime  que 
so  tem  aggravantes,  ainda  quando  o  homicida 
chegue  a  provar  que,  no  momento  do  seu  cri- 
me, estava  hallucinado  pela  fome  ou  desespe- 
rado  por  ver  famintos  os  seus  filhos.  Quando 
aquelle  homem  chamado  Spartacus  tentou 
libertar  os  escravos  de  Roma,  o  seu  primeiro 
crime  foi  attentar  contra  a  propriedade  dos 
senhores  sobre  os  escravos.  Quando  aquelles 
outros  da  Revolu9ao  Francezaproclamaram  os 
Direitosdo  Homem,  o  seu  primeiro  crime,  ao 
menos  na  opiniao  dos  realistas,  era  attentar 
contra  a  propriedade  que  tinha  o  Rei  sobre  as 
terras  e  mais  bens  dos  seus  subditos.  Quanda 


272  VERDADKS   INDISCRETAS 

agora,  nos  nossos  dias,  os  revolucionarios  exi- 
gem  mais  equitativa  distribuigao  da  riqueza, 
nao  exigem  nenhum  absurdo :  mas  sao  per- 
seguidos,  porque  o  burguez,que  ajuntou  o  seu 
dinheiro  e  metalisou  o  seu  coragao,  so  estima 
no  mundo  o  seu  ouro  e  pouco  se  Ihe  da  que 
haja  famintos,  comtanto  que  se  respeitem  os 
seus  sacratissimos  direitos  de  propriedade. 
Assim,  Manoel  Caldeira,  soltando  os  passaros 
de  Olympio,  attentou  contra  a  propriedade 
deste  ;  e  foi  por  isso  que  a  policia  o  perseguiu; 
e  o  povileo,  com  a  sua  multisecular  incon- 
sciencia,  correu-lhe  ao  encal^o  para  defender 
urn  direito  que  as  massas  respeitam  por  ata- 
vismo. 

Quanto  aos  passaros,  nao  os  condemne- 
mos  por  nao  terem  ido  ainda  ao  xadrez  agra- 
decer  ao  Caldeira  a  sua  liberdade.  Dos  nove 
leprosos  que  Jesus-Christo  curou,  parece  que, 
por  emquanto,  so  um  se  lembrou  de  agrade- 
cer-Ihe  tamanho  prodigio.  Os  passaros  sao 
distrahidos,  como  os  homens.  Entre  uns  e  ou- 
tros  a  differen9a,  salvo  exterioridades  eviden- 
tes,  nao  e  das  mais  profundas :  apenas,  em- 
quanto OS  passaros  cantam  sem  saber  musica, 
OS  homens  cantam  por  musica ;  mas  em  m|i- 
teria  de  gratidao,  uns  e  outros  se  parecem .  .  . 


Brule  e  o  seu  publico 


A  Noticia^  sempre  excellente,  consolava 
liontem  a  todos  n6s  de  um  desastre  immenso: 
a  companhia  Brule  representou  no  Municipal 
uma  pe9a  excessivamente  tragica  de  grao- 
guinhol ;  e  durante  as  passagens  maistragica- 
mente  guinholescas,  o  publico  ria-se,  diverti- 
dissimo.  Senhores  barrigoidos  e  portanto  res- 
peitaveis  sentiam  arrebentar-se-lhes  os  cos  das 
calgas  quando  alguma  das  actrizes,  em  caretas 
bem  francezas,  intentava  traduzir  angustia. 
Damas  da  mais  alta  representagao  mundana 
sentiam  derreter-se-lhes  nos  rostos  os  unguen- 
tos  que  a  Providencia,  sempre  boa,  suggeriu  d 
imagina9ao  humana  contra  as  rugas.  Senhoras 
elegantissimas  tinham  que  recorrer  ao  p6  de 
arroz  das  bolsinhas  caras,  para  recompor  o 
rosto  desfeiado  por  alegres  lagrimas,  alegres 
e  estrepitosas  lagrimas  arrancadas  por  Brule 
quando,  em  esgares  inimitaveis,  gragas  ao  seu 

18 


274  Y^RDADES    INDISCRETAS 

estrabismo  celebre,  interpretava  tortures  mo- 
raes.  Porque  Brule  e,  antes  de  tudo,  irresistivel 
como  actor  comico.  E'  um  dos  maiores  humo- 
ristas  dos  boulevards.  Ja  me  havia  dito  um  fre- 
quentador  do  Municipal,  ha  dias,  que  o  nossa 
publico  se  ri  de  bon  coeur  quando  Brule  falla  ; 
quando  Brule  se  cala ;  quando  Brule  anda  \ 
quando  Brule  limpa  com  o  len90  a  poeira  dos 
sapatos;  quando  Brule  colloca  no  bolsinho  a 
seu  lengo  branco,  digno  de  Desdemona;  em- 
fim  acabou-se,  quando  Brule  apparece  no  pal- 
co  do  Municipal,  derrota  em  comico  o  nossa 
popularissimo  Brandao,  gloria  nacional  coma 
o  sempre  chorado  Joao  Caetano. 

—  Mas  porque  ?  —  perguntei. 

—  Nao  sei,  respondeu-me  elle.  O  que 
sei  dizer  e  que,  muitas  vezes,  phrases  escriptas. 
apenas  para  fazer  sorrir  de  leve,  ditas  por 
Brule  ou  por  alguem  do  seu  grupo,  sao  fabri- 
cas  de  gargalhadas.  Em  Paris  geralmente  a 
publico  sublinha  com  sorrisos  certos  parado- 
xes ditos  em  scena.  Aqui  toda  a  gente  se  ri 
desbandeiradamente.  Porque  serd  ? 

Estudei  dia  e  noite  esse  phenomeno  pa-^ 
tho-mundano.  Consultei  os  autores.  Meditei 
como  um  touro  inglez  quando  rumina  a  sua 
alfafa  a  um  canto  do  curral.  E,  como  Archime- 
des, eureka  /  Achei  a  chave  do  enigma  e  vem. 


BRCI,:fe    E   O   SieU   PUBI<ICO  275 

a  ser  que  :  o  publico  ri,  porque  nao  entende^ 
mas  quer  mostrar  que  entendeu. 

A  capacidade  mental  desse  publico  pode 
rcduzir-se     arithmeticamente     ao    seguinte : 
50  %  do  publico  nao  comprehendem  francez ; 
30%  comprehendem  francez,  mas  naotem  agi- 
lidade  mental  que  Ihes  permitta  apanhar  no  ar 
OS  floculos  fugidios  de  um    paradoxo,  coma 
um  falcao  agarra  uma  pomba  no  meio  do  seu 
voo  ;  ou  tomar  de  repente  uma  idea  qut  es- 
voa^a,  e  alar-se  com  ella  no  espa90,como  uma 
gaivota    marinha    apanha    o     peixinho   que 
descuidoso  se   embala  na  onda  que  foge    .  . 
Restam  20  %  de  espectadores  capazes  de  en- 
tender  as  intengoes  paradoxaes  do  autor,  caso 
o  actor  tenha  talento  para  sublinhal-as  com  um 
sorriso,  com  uma  inflexao  de  voz  appropriada 
a  phrase,  com  uma  simples  contrac9ao,  leve,  de 
musculos  faciaes ;  mas,  destes  vinte  especta- 
dores aptos  para  entender  uma  comedia  fina, 
ha  dezoito  que  estao   distrahidos,   pensando 
na  costureira  da  mulher,  em  negocios,  em  le- 
tras  por  veneer,  ou  entao   dormindo  pezada- 
mente,   no  trabalho  brutal  da  digestao .    De 
sorte  que,  contas  feitas,  sobre  cada  cem  espe- 
ctadores do   Municipal,  apenas  dous  haverd 
que  estejam  comprehendendo  a  pega;  destes 
dous  bemaventurados,  um,  discreto,  sorri  com- 
sigo  mesmo,  sem  inter^esse  por  que  outros  o 


VBRDXDBS  IND1SCRETA5 


•       n  nutro   embora  intelUgente, 
^ejam  ^-^^^V^isinhos    revels  a  sua 

sorri  para  ^^J^^i^^^^^      Ora.  os  visi- 
aeudeza  e  o  seu  PO^Ys  .  or  sua  vez, 

Zs  destes  d°«  ^^^-^.Tbem tnt'endem.  que 
para  mostrarem  que  ^""""^^hem  bebem  do 
Lmbem  percebem,  ^"^^  J^^m  mais  alto, 
fino;  o-visinhosdosuhmosne    ^^  ^^^^^ 

^^  '^^  "^tdistVo  de  Io.st; mens  intelU- 
ou  menos  '»f  ^^^^^  ftada  relinchante  de 
gentesampUa-senag^s  ^,  gexo. 

noveuta  e  <»;;,f;- ^^  ser  em  Pansum 
Eis  porque  B"^"'^'  ^^^  <jeve,  a  meu  ver,  pen- 
actor  de  terceira  ordem.de     , 

sar  da  pl-t^^^"'°'^:  ,t%o  respeitavel  pu- 
larissimo  pensou  certa  vez  ao       v 

bUco  de  Pin<i»«°"^Sao  popularissimo  no 

Kepresenma  B  anda°  P^  urn  drama  no- 

palco  scemco  d  aquella  ci  ^  g^^ 

drama  e  uma  das  obras  ^^^f^^^^^,  po- 
theatro  portuguez.  ^^^'J  „  bUco  numa 
pularissimo  arremett.a  contra  op  ^^  ^9 

^'aquellas  emoc.onant.ss.m^^  W  ^^^^^ 

contra  o  capOao  ^^^^  °^' "^r       pu,arissimo  erj 
convencidodequeBrandaop  P  ^ 

o  primeiro  com.co  b-;J^°.  ^„  ,  aizer  bai 

S^pa^'oTfe^s^impanheiros  de  scena 


BRUL^   E   O   SEU   PUBLICO  277 

—  Mas  que  grandes  burros !  Que  gran- 
dessissimos  burros ! 

Brule,  la  com  o  seu  lencinho  cosmopolita, 
esse  lencinho  que  tern  sido  a  perdi^ao  de  tan-- 
tas  Desdemonas  de  Montmartre  e  do  tropica 
de  Capricornio ;  Brule,  la  com  a  sua  melin- 
drosa  gardenia  de  guerra  (que,  felizmente  para 
a  Civilisagao,  nunca  foi  as  linhas  do  Marne)> 
deve,  repetindo  insconscientemente  Brandao 
popularissimo,  dizer  a  seus  comparsas : 

—  Mais  Us  sont  betes  tout  de  meme,  ces 
rastas  /  Ah  /  les  goujats  / 

* 

O'  Publico !  Publico  amigo !  Eu  nao  sei 
bem  o  que  pensas  de  Brule  e  de  ti  mesmo, 
porque,  dizendo  a  verdade,  nem  sei  si  pensa- 
rds.  Mas  o  que  Brule  pensa  de  ti,  Publico  ado- 
ravel,  deve  estarmaisou  menos  nessas  poucas 
linhas  em  francez  que  acabo  de  offerecer-te . 
Entretanto,  6  Publico  do  meu  cora9ao,  o  que 
deverias  pensar  de  ti  mesmo  e  o  seguinte  : 

ccEu  nao  devia  estar  aqui  no  Municipal 
todos  OS  dias  para  ver  as  casacas  de  Brul^  ha 
tres  annos  consecutivos.  Brule  em  Paris  6 
actor  de  terceira  ordem.  BruM  diz  que  esti 
fazendo  propaganda  da  Franca  e  no  emtanto 
nos  vem  dar,  em  recita  official,  Le  Traite 
d'Auteuil,  vodevil   patife,  em  que  a  Fran9a, 


278  VERDADES  INDISCRETAS 

ou,  melhor  dizendo,  a  alma  franceza,  apparece 
de  tal  sorte,  que  justifica  tudo  quanto  os  alle- 
maes  dizem  da  corrupgao  parisiense.  Por  can- 
seguinte,  Brule  6  mau  francez.  Ora  eu,  na  mi- 
nha  qualidade  de  Publico  burguez,  pacato  e 
aliiado,  nao  posso  prestigiar  com  aminha  pre- 
seuga  a  philaucia  de  um  francez  que  vem  fazer 
propaganda  da  Fran9a  com  o    Traite  d'Au- 
teuil  e  com  as  Demi-  Vierges  do  detestavel  en- 
genheiro  Prevost.  Demais  a  mais,  eu  nao  en- 
tendo   o   que  dizem  Brule  e  essas  raparigas 
decotadas  que  eu  cuido  ja  ter  visto  ali  na  Con- 
feitaria  Colombo  asseis  datarde.  Eu,  que  sou 
o  respeitavel  Publico,  ji  ouvi  algum  dia  fallar 
na  Sabine  Landray  e  nas  outras?   Nao.  Os 
jornaes  e  que  andaram  ahi  adizer  que  a  Lan- 
dray e  a  Fabry  eram  grandes  actrizes.  E  eu, 
como  um  alarve,  acreditei.  Acreditei  e  vim, 
paguei,  vi  e  applaudi ;  mas  nao  entendi ;  por 
consequencia,  revelei-me  parvo  ;  ora  o  papel 
de  parvo  e  incompativel  com  a  minha  alta  e 
pan^uda  posigao  de  respeitavel  Publico.  Eu  so 
posso  applaudir  o  Cid,  Shy  lock  y    Cinna,  Es- 
ther, Luiz  XI,  Rormersholm,  Os  Espectros,  Le 
monde  ou  I  on  sennuie  e  Le  Voyage  de  Mon- 
sieur Perrichon,  porque  sao  pegas  ja  consa- 
gradas  pelos  applausos  dos  entendidos.  E  eu 
sou  entendido  em  theatro  ?  Nao.  Eu  sou  en- 
tehdido  em  manganez,  jogo  do  bicho,  arren- 


BRDI.fe  E  O   SEU   PUBI^ICO  279 

damento  de  navios,  oscillagoes  bancarias,  fei- 
jao,  arroz,  trigo,  construcyoes  de  predios, 
fornecimentos  a  ministerios,  estradas  de  ferro 
«  manifesta96es  conservadoras.  O  meu  logar 
^  nos  bancos,  na  Bolsa,  nos  escriptorios  de 
commissoes  e  consigna^oes,  nas  assembleas 
industriaes,  nos  centres  de  commercio,  nas 
irmandades,  nas  directorias  de  hospitaes,  na 
Magonaria,  nas  ligas  patrioticas  situacionistas, 
nos  conselhos  deliberativos  de  sociedades  fi- 
nanceiras  e  nas  recep9oes  de  gente  rica  e  cheia 
de  callos,  jogando  bridge  e  bocejando,  ou  en- 
tao  fazendo  gyrar  o  poUegar  da  mao  direita 
em  torno  do  pollegar  da  mao  esquerda  e  vice- 
versa.  Eu  so  devo  ir  a  theatros  onde  repre- 
sentem  companhias  portuguezas  e  brasileiras. 
A  bella  chala9a,  o  pontape  na  espinha,  o  guarda 
nocturno  da  zona,  o  compadre  da  revista,  a 
apotheose  fulgurante  de  latilhas  e  luz  de  ma- 
^nesio,  isso,  sim,  esta  ao  alcance  da  minha 
vasta  inteliigencia.  Mas  o  theatro  francez  mo- 
derno,  esse  nao  o  entendo  eu;  e,  nao  o  enten- 
dendo,  exponho-me  a  esse  ridicule  deapplau- 
dir  Brule,  actor  de  terceira  classe,  como  si 
applaudisse  Zacconi,  e  de  bater  palmas  a 
pegas  que,  si  eu  e  minhas  filhas  entendesse- 
mos,  nao  teriamos  approvado,  porque  sao 
immoraes.  E'  por  isso  que  Roberto  Gomes, 
segundo  dizem,  vae  explicar  no  Municipal  o 


280  VERDADES   INDISCRETAS 

que  seja  Pelleas  et  Melisande,  antes  do  espe- 
ctaculo.  Brule,  que  sabe  que  eu  nao  entendo 
nada  de  theatre,  pediu  a  Roberto  que  me 
viesse  dizer  que  Pelleas  et  Melisande  e  diffe- 
rente  do  Forrobodo,  e  que  Maetterlinck  nao 
e  bem  egual  a  Eduardo  Garrido ;  e  Roberto, 
sempre  benigno,  vae  explicar-me  todas 
essas  coisas  transcendentes.  Ora,  Roberto 
ficaria  livre  dessas  fadigas  intellectuaes  e  vo- 
caes,  si  eu  entendesse  de  theatro  o  sufficiente 
para  ver  que  Brule  e  um  bom  Arsene  Lupin  e 
nada  mais.  Portanto,  o  que  eu  devo  fazer  e 
nao  ir  ao  Municipal,  onde  me  sinto  deslocado^ 
onde  so  devem  ir  os  competentes  e  onde  eu 
rio  quando  e  hora  de  chorar  e  choro  quando  e 
hora  de  rir.» 

Eis  ahi,  6  Publico  amavel,  o  que  devias 
dizer  a  ti  mesmo;  e,  depois  de  dizer  tudo  isso 
a  ti  proprio,  devias  pratical-o,  abandonan- 
do  o  Municipal  e  indo  ao  S.  Jose,  onde  te 
sentes  tao  a  tua  vontade .  .  . 


Brasileiros  e  estrangeiras 


Segundo  se  affirma,  ha  na  nova  reforma 
do  Ministerio  do  Exterior  uma  disposigao  hos- 
til  ao  casamento  entre  diplomatas  brasileiros 
e  mulheres  estrangeiras.  Por  esse  dispositivo 
nao  ficam  terminantemente  prohibidos  taes 
enlaces,  mas  qualquer  diplomata  brasileiro, 
que  desejar — como  diria  o  sr.  Ruy  Barbosa — 
fazer  maridanga  com  mulher  forasteira,  tera  de 
solicitar  licenga  ao  ministro  do  Exterior. 

Ha  queni  affirme  ser  perfeitamente  inu- 
til  semelhante  artigo,  sobre  o  seguinte  funda- 
mento  :  a  menos  que  se  trate  de  alguma  actriz 
malafamada,  ou  de  alguma  prostituta  celebre, 
que  tenha  seduzido  algum  dos  nossos  diplo- 
matas, estes  sempre  obterao  licenga  para  casar 
com  estrangeiras.  Por  exemplo:  um  diplomata 
nosso  pede  e  obtem  licen^a  para  casar-se 
com  uma  ingleza  ;  como  negara  o  ministro 
licen^a  a  outro  que  deseje  tomar  por  esposa 


282  VERDADES   INDISCRKTAS 

uma  argentina,  que  esteja  em  egualdade  de 
^ondigoes  moraes  e  sociaes  com  a  ingleza? 

Admittamos  aindaahypothese  em  que  o 
ministro,  por  antipathia  para  com  certo  diplo- 
mata,  Ihe  negueuma  licenga,  embora  egual  ja 
tenha  sido  concedida  a  outros.  O  caso  e  perfei- 
tamente  possivel.  Nada  mais  natural  do  que 
haver  animadversoes  entre  o  ministro  do  Ex- 
terior e  seus  subordinados,  principalmente  si 
o  ministro  houver  sido  tirado  da  carreira  di- 
plomatica.  .  .  Bem  pode  ser,  com  effeito,  que, 
entre  o  ministro  e  o  diplomata  em  questao, 
haja  havido  outrora  algum  incidente  por  amor 
de  alguma  transferencia  ou  de  alguma  promo- 
^ao  em  que  um  tenha  sido  supplantado  pelo 
outro.  O  ministro,  pois,  aproveita-se  da  situa- 
^ao  para  vingar-se  do  seu  antagonista,  fazen- 
do-lhe  picuinhas  em  materia  delicada,  como  e 
o  casamento.  Chega  a  negar-lhe  a  licen^a  pe- 
dida,  embora  se  trate  de  senhora  digna  de 
casar-se  com  qualquer  dos  mais  gravibundos 
diplomatas. 

Que  fazer  num  caso  desses  ?  Como  agir 
para  com  semelhante  ministro  ?  Mandar  ami- 
gos  fallar  a  S.  Ex.  ?  Mas  S.  Ex.  podera  dizer 
a  esses  amigos,  limpando  com  o  lengo  as  suas 
lunetas : 


BRASII^EIROS    E   ^TRANGEIRAS  283 

—  Nao  pensem  voces  que  eu  queira  per- 
seguir  o  homem.  Si  Ihe  neguei  a  licenga,  foi 
porque  tinha  motivos.  .  . 

—  Mas  n5o  pode  ser,  sr.  ministro.  Sabe- 
mos  que  se  tratade  umasenhora  honesta.  Nos 
a  conhecemos  de  Paris,  de  Londres,  de 
Haya.  .  . 

—  Mas  nao  podem  conhecel-a  tanto 
quanto  eu,  que  alias  nunca  a  vi.  Sei  que  ella 
nao  merece  a  mao,  por  tantos  titulos  illustre, 
do  nosso  amigo.  Tenho  informagoes  dos  agen- 
tes  confidenciaes .  .  . 

Desolados,  escrevem  os  amigos  ao  diplo- 
mata : 

(nCaro  F .  —  O  seu  caso  sentimental,  que 
/,  como  V.  sabe,  tambem  o  nosso  caso,  compli- 
ca-se  cada  vez  mais.  Estivemos  eu  e  B.  com  o 
ministro,  que  se  mostrou  inconciliavel  a  esse 
respeito.  Deve  haver  por  ahi  intrigantes  inte- 
ressados  em  molestal-o,  porque,  conkecendo  como 
conhecemos  a  sua  noiva  e  a  V.  tambem,  que 
jamais  commetteria  a  leviandade  de  dar  o  seu 
nome  a  mulher  que  o  nao  merecesse,  passamos 
pela  surpresa  de  ouvir  declarar  o  ministro  que 
0  fundamento  da  recusa  da  licenga  eram  in- 
formagoes  desfavoraveis  a  Madame  Tres  Es- 
trellas,  informagoes  que — la  o  disse  S.  Ex .  — 
Ihe  for  am  mandadas  por  agentes  confidenciaes! 


284  VERDADES   INDISCRETAS 

Veja  si  ha,  entri  os  nossos  agentes  confiden- 
ciaes  aki,  algum  que  tenha  motivo  de  resenti- 
mento  contra  V..  Mande-me  suas  or  dens  e  creia 
que  OS  seus  amigos  tudo  farao  pela  sua  felici- 
dade,  so  desejando  todos  desmascarar  os  inimi- 
gos  occultos  da  sua  noiva.  Procure  V.  indagar 
do  grau  de  relagdes  que  por  ventura  existam 
entre  a  familia  de  sua  7ioiva  e  o  ministro  da 
Hollanda  aqui.  Ndo  set  porque,  ando  mHo  des- 
confiado  deste  fidalgo .  .  .    Sempre  seu  —  /4 .  » 

Ora,  o  diplomata  sabe  perfeitamente  que 
o  ministro  da  Hollanda  nada  tern  que  ver  com 
a  attitude  do  ministro  do  Exterior ;  que  na 
s6de  da  sua  iegagao  nao  ha  agentes  confiden- 
ciaes  do  Brasil ;  e  que  ^ua  noiva  e  respeitadis- 
sima ;  pelo  que,  urra  de  la  aos  amigos  pelo 
cabo  submarino  :  a.  Ministro  mentiu  :  nenhum 
confidencial  aqui ;  Hollanda  innocente.y> 

Supponhamos  agora  que  o  diplomata  seja 
o  que  se  chama  homem  de  genio  forte,  e  veja 
sua  noiva  emmaranhada  pelo  ministro  nesse 
labiryntho  de  infamantes  insinua96es.  A  tal 
homem  so  Ihe  resta  uma  saida :  pedir  licen9a, 
ou,  ainda  sem  licenga,  vir  ao  Rio  de  Janeiro, 
correr  ao  Itamaraty,  cair  como  um  raio  no  ga- 
binete  do  sr.  ministro  e  partir  a  murros  uns 
tres  ou  quatro  dentes  a  S.  Ex.,  caso  os  tenha. 
A  saida  nao  sera  das  mais  finamente  diploma- 


BRASILEIRO   K  BSTRANGBIRAS  285 

ticas,  mas,  para  casos  desses,  nao  vislumbro 
outra.  E  os  senhores  vao  ver  que  o  future  tal- 
vez  me  d^  razao :  esse  dispositive  da  reforma 
ainda  nos  proporcionara  bons  pratinhos .  .  . 

Ha  quern  ja  tenha  suggerido  adoptar  o 
que  se  pratica  na  Inglaterra :  prohibi9ao  abso- 
luta,  para  qualquer  agente  diplomatico,  de 
casar-se  com  mulher  que  nao  seja  ingleza. 

A  isto  se  responde,  dizendo  que: 

Primeiro  —  nao  se  pode  por  freio  ao  co- 
ragao  de  ninguem; 

Segundo  —  a  Inglaterra  ja  pode  es- 
tabelecer  limitagoes  nesse  sentido,  ao  passo 
que  n6s  ainda  nao  estamos  em  condi96esde 
fazel-o. 

Com  effeito,  a  Inglaterra  tem  abundan- 
cia  de  mulheres  bellas  e  aptas  a  serem  b6as  e 
leaes  companheiras  do  homem  que  eleger  o 
seu  cora9ao;  nos  ainda  nao  temos  o  necessa- 
rio .  .  .  O  diplomata  inglez  que,  em  todo  o 
Reino  Unido  e  no  Imperio  Britannico,nao  en- 
contrar  uma  mulher  a  sua  feigao,  ou  nao  tem 
sorte  nenhuma,  ou  entao  e  exigente  de  mais. 

No  Brasil,  ja  o  caso  e  mais  complicado. 
O  rapaz  que  segue  a  carreira  diplomatica  pas- 
sa  geralmente  tres  a  quatro  e  mais  annos  no 
estrangeiro.  Por  la  trava  elle  suas  rela^oes  fa- 
miliares;  portanto,  nada  mais  natural  que  se 
embeice  por  alguma  das  m69as  do  paiz  e  se 


286  VBRDADKS  INDISCRETAS 

case  com  ella.  Demos,  entretanto,  de  barato, 
que  o  rapaz,  depois  de  quatro  annos  de  au- 
sencia,  volte  solteiro  para  o  Brasil  e  queira 
casar-se  com  uma  patricia.  O  diplomata,  ge- 
ralmente,  nao  conhece  as  m69as  do  interior; 
e,  embora  venhaaconhecel-as,  provavelmente 
nao  querera  tomar  por  mulher  uma  rapariga 
bisonha.  inexperiente  e  talvez  refractaria  ao 
viver  que  Ihe  destina  seu  marido.  Assim,  elle 
tem  de  escolher  esposa  por  aqui  mesmo. 

Diz  o  dictado  que  quern  imagina  nao 
casa;  ora,  quem  imagina  alguns  momentos  a 
respeito  das  meninas  do  Rio,  fica  sem  saber  si 
casa  ou  nao  casa.  Ha  de  haver  com  certeza 
por  ahi  muita  menina  que,  sendo  intelligente 
e  interessante,  seja  tambem  honesta;  mas  ne- 
nhuma  dellas  traz  estrella  na  fronte  para  dis- 
tinguir-se  das  que  nao  osao.  E  que  pensar  da 
moralidade  domestica  dominante  numa  cida- 
de  em  que,  aos  primeiros  rebates  do  Carna- 
val,  saltam  para  a  rua  as  md^as  todas,  com 
suas  maes  e  sens  paes,  com  seus  irmaos  e  seus 
noivos,  com  as  suas  irmas  menores,  a  berrar 
despejadamente  dentro  de  caminhoes,  e  a 
cantar  coisas  tao  torpes  que  o  jornaes  se 
veem  obrigados  a  chamar  a  atten^ao  da  poli- 
cia  ?  Ninguem  quer  que  as  md^as  e  as  meni- 
nas se  vistam  de  burel  e  passem  os  dias  em 
jejuns  e  cilicios;  mas    tambem  nao  se  p6de 


BRASII,BlROS  B  ESTRANGEIRAS  287 

permittir  que  lev  em  a  sua  liberdade  ao  ponto 
de  entoar  cantigas  tao  iicenciosas,  que  nao  se 
usam  nem  em  assembleas  de  meretrizes,  a 
nao  ser  que  se  trate  de  rebombeiras  da  mais 
baixa  extracgao.  De  maneira  que,  ao  ver  uma 
menina  e  ao  pensar  em  casar-se  com  ella, 
deve  o  rapaz  interrogar:  «Tera  esta  pequena. 
feito  o  Carnaval  ?  Tera  cantado  o  Na  minka 
cdsa  nao  se  raclia  lenha  ?»  (1) 

Grave  erro  sera  suppor  que  os  rapazes  bra- 
sileiros,  na  suamaioria,  desejem  casar-se  com 

(1)  Entre  as  canfoes  mais  em  voga  durante  o  ulti- 
mo Carnaval  (1920),  uma  havia  cuja  letra  era  a  seguinte 

CAVALHEIROS 

Na  minha  casa  nao  se  racha  lenha  ! 

DAMAS 

Na  minha  racha  !  Na  minha  racha  ! 

CAVAI^HEIROS 

Na  minha  casa  nao  ha  falta  d'agua  ! 

DAMAS 

Na  minha  abunda  !  Na  minha  abunda  ! 

DAMAS 

Na  minha  casa  nao  se  pica  fumo  ! 

CAVALHEIKOS 

Na  minha  pica  !  Na  minha  pica  ! 

K  assim  por  deante. . . 

f^stas  torpezas,  em  que  a  ausencia  de  espirito  se^ 
consnbstancia  com  a  mais  repugnante  falta  de  gram- 
matica,  eram  cantadas  i.  porfia  por  mo90s  e  mopas  que 
se  presumem  de  bdas  familias.  A  policia  interveio  ^ 
tempo  de  impedir  que  se  generalisassem  esses  miasmas- 
moraes. 


288  VERDADES   INDISCRETAS 

meninas  carnavalescas  e  levianas.  A  essas 
apreciam-nas  os  rapazes  como  companheiras 
de  troga;  quando,  por^m,se  trata  de  casamen- 
to,  buscam  outras.  .  . 

Tenhamos  a  coragem  precisa  para  re- 
conhecer  o  seguinte:  o  systema  de  educagao 
adoptado  para  as  meninas  cariocas,  assim 
como  para  as  de  outras  cidades  gran- 
des  do  nosso  paiz,  e  pessimo.  Essa  educa- 
gao  consiste  num  pouco  de  musica  (piano  e 
canto),  algumas  lambugens  de  lingua  patria  e 
de  francez,  dansa,  futebol  e  arte  de  cagar  ma- 
ridos.  A  mo^a  estrangeira,  sem  saber  musica 
e  entendendo  mediocremente  de  futebol,  sa- 
bendo  theoricamente  muito  menos  do  que  a 
brasileira  de  beiramar,  que  e  a  mais  civilisada 
das  brasileiras;  a  m69a  estrangeira,  como  nas- 
ceu  e  foi  educada  no  trabalho  em  outros  cen- 
tros  de  cultura  e  civilisa9ao,  sabe  trabalhar, 
sabe  defender-se  na  lucta  pela  vida  e  sabe  ser 
esposa  seria,  grave,  solidamente  compe- 
netrada  assim  dosseus  deveres  como  dos  seus 
direitos.  D'ahi,  a  preferencia  que  vao  tendo 
as  estrangeiras  (francezas  e  italianas  poucas, 
inglezas,  um  pouco  mais,  argentinas  ja  algu- 
mas, e  principalmente  as  allemans)  perante  jo- 
vens  brasileiros.  A  muitos  conhe90  eu  casa- 
dos  com  estrangeiras  e  dao-se  a  maravilha 
com  ellas  e  ellas  com  elles.  De  varios  sei  eu, 


BRASII.B1ROS  B    ESTRANGKIRAS  289 

rapazes  de  b6as  familias  e  de  b6as  prendas, 
bem  educados,  bem  apessoados,  alguns  ate 
com  dinheiro  de  seu,  que  aguardam  opportu- 
nidade  para  ir  i.  Europa,  onde  pensam  em  ca- 
sar-se,  de  preferencia  com  allemans,  que  as 
ha  lindissimas,  e  sao  geralmente  mulheres 
muito  calmas,  muito  b6as  donas  de  casa  e  ha- 
bituadas  a  ver  o  mundo  atravez  das  pupillas 
de  seus  maridos.  As  nossas  patricias,  pois,  es- 
tao,  no  terreno  sentimental  e  domestic©, 
amea^adas  de  perigosa  concorrencia .  .  . 

O  que  aqui  digo  6  o  que  observo  e  o  que 
0U90  a  amigos  e  conhecidos  dignos  de  marca. 
Nao  se  trata  da  mulher  do  interior,  a  mdga 
brasileira  authentica,  muito  santa,  b6a  engom- 
madeira,  mae  maravilhosa,  esposa  adoravel 
como  enfermeira,  mas  enfermeira  muito  in- 
sipida  para  esposa ...  A  mulher  de  que  aqui 
se  trata  e  a  brasileira  civilisada.  Ora,  esta,  na 
concorrencia,  tem  de  ser  derrotada  pela  es- 
trangeira;  porque  a  estrangeira  medianamen- 
te  educada  e  necessariamente  mais  intelli- 
gente,  mais  fina  e  mais  civilisada  do  que 
a  brasileira  finamente  educada,  que  traz  para 
o  lar,  juntamente  com  a  sua  educa^So,  uma 
serie  in6ndavel  de  preconceitos  arices- 
traes  contra  os  trabalhos  caseiros  e  coritra 
a  submissao  que  todas  devem  a  seus  msiridos 
em  virtude  do  direito  natural  do  mais  forte  so- 

19 


290  VERDADES    INDISCRETAS 

bre  a  mais  fraca.  Ha  excepgoes,  mas  ninguem 
pode  argumentar  com  excepgoes,  porque  es- 
tas  s6  servem  para  confirmar  a  regra  geral. 
Ahi  esta  porque  muitos  rapazes  de  fina  edu- 
ca^ao  se  temem  de  casar-se  com  as  patricias, 
porque  nao  sabem  o  que  esta  do  outro  lado 
do  veo ...  E  as  mogas,  que,  com  a  sua  desen- 
voltura  e  o  seu  desbragamento  carnavalesco, 
suppoemarranjar  bons  parti dos,  v6am  linda- 
mente,  alegremente,  para  a  sua  propria  ruina» 
visto  que  OS  rapazes  serios,  graves,  que  dese- 
jam  formar  o  seu  lar  honestamente,  sem  re- 
ceio  de  serem  victimas  do  ridiculo  e  aponta- 
dos  na  rua,  a  dedo,  como  capricorneos,  esses 
nao  se  casam  com  meninas  assanhadas;  mas, 
como  nao  e  facil  distinguir  entre  levianas  e 
virtuosas,  vao  elles,por  seguro,  preferindo  es- 
trangeiras;  ate  porque,  no  caso  de  engano, 
muito  menos  doloroso  sera  para  qualquer  ho- 
mem  ser  trahido  por  estrangeiras  do  que  por 
patricias.  Isto  para  os  simples  mortaes,  que 
nao  fazem  parte  da  carreira  diplomatica. 

Que  diremos  entao  dos  diplomatas,  que 
passam  annos  longe  das  patricias  ?  Direriios 
/que  nao  se  Ihes  p6de  cercear  o  direito  de  es- 
colher  esposas  entre  as  mulheres  honestas  dos 
paizes  em  que  servirem.  Demais,  o  casamen- 
to  entre  brasileiros  e  estrangeiras  s6  nois  p6- 
de  trazer  vantagens,  uma  das  quaes  e  nao  das 


BRASILBIROS  K  ESTRANGEIRAS  291 

menos  apreciaveis,  e  a  de  melhorar  a  nossa 
triste  raga ... 

Claro  esti  que,  quando  eu  digo  mulkeres 
estrangiiras,  entendo  alludir  a  ra9as  fortes  e 
bellas,  como  a  germanica,  a  anglo-saxonica,  a 
slava  e  a  italica.  Em  materia  de  mulheres, 
como  em  materia  de  industrias  texteis,nao  po- 
demos  ainda  ser  proteccionistas,  porque,  em 
ambos  estes  pontos,  o  estrangeiro,  por  em- 
quanto,  produz  e  ainda  durante  muito  tempo 
produzira  mais,  melhor  e  mais  barato  do  que 
nos.  Em  questoes  de  mulheres,  so  podemos  e 
devemos  ser  livrescambistas .  .  . 


Vinte  e  um  de  abril 


Nao  ha  necessidade  de  dizer  quern 
haja  sido  o  alferes  Joaquim  Jose  da  Silva 
Xavier,  o  Tiradentes.  Toda  a  gente  sabe  que 
esse  glorioso  compatriota  foi  um  sonhador  que 
a  tyrannia  portugueza  mandou  enforcar  e  es- 
quartejar  por  ter  querido  libertar  a  sua  patria 
de  um  jugo  infame  e  infamante.  Mas  o  que 
nem  toda  a  gente  sabe  (porque  poucos  sac 
ainda  os  que  se  dao  aos  estudos  da  nossa  His- 
toria)  e  que  essa  conspira^ao  do  Tiradentes, 
tao  exemplarmente  castigada  pelo  colonisa- 
dor  tyrannico  e  bronco,  era  um  simples  epi- 
sodic do  permanente  espirito  de  revolta  que  a 
tyrannia  portugueza  mantinha  em  Minas, 
como  em  todo  o  Brasil,  mas  principalmente 
em  Minas. 

Jd  tinha  havido  a  guerra  mineira  entre 
paulistas  e  emboabas  (como  eram  conhecidos 
OS  portuguezes),  a  qual  durou  de  1710  a  1715. 


294  VSRDADES   INDISCRETAS 

Ja  tinha  havido  a  subleva;9ao  de  Philippe  dos 
Santos  em  Villa  Rica,  no  anno  de  1720,  sen- 
do  Philippe  dos  Santos,  consoante  os  estylos, 
enforcado  e  esquartejado  por  ordem  do  fero- 
cissimo  conde  de  Assumar,  governador  da 
Capitania.  Outras  sublevagSes  se  tinham  dado 
em  outros  pontos. 

A  corte  de  Lisboa  nunca  pensou  num 
so  beneficio  a  conceder  aos  povos  das  Minas. 
Para  as  Minas  eram  man  dados  como  gover- 
nadores  (salvo  rarissimas  excepgoes,  como  o 
esclarecido  dom  Rodrigo  de  Menezes)  fidal- 
gos  arrebentados,  devassos,  concussionarios, 
ladroes  averiguados,  verdadeiros  degenera- 
dos  e  desclassificados  que  Lisb6a  afastava  de 
si  para  o  Brasil  como  si  atira  o  lixo  no  mon- 
turo.  Quem  qufzer  ter  idea  do  que  foi  a 
colonisagao  portugueza,  principalmente  em 
Minas,  leia  a  Historia  Antiga  das  Minas,  de 
Diogo  de  Vasconcellos,  as  Memorias  do  Dis- 
TRiCTo  DiAMANTiNO.deJ.Felicio  dosSantos,as 
Ephemerides  Mineiras,  de  Jose  Pedro  Xavier 
da  Veiga.  Sao  livros  feitos  exclusivamente  de 
documentos. 

Querem  conhecer  algumas  amostras,  co- 
Ihidas  nas  Ephemerides  ?  Pois  ahi  vao... 

A  12  de  outubro  de  1758,  ordensr^gias 
prohibiam  a  abertura  de  estradas  na  capitania 


VINTB  B  UM    DB   ABRII,  295 

de  Minas,  para  evitar  o  extravio  do  ouro  e  dos 
diamantes.  A  carta  regia  de  25  de  mar90  de 
1725  e  a  ordem  de  29  de  abril  de  1727  ja 
tinham  mandado  suspender  a  abertura  de  ca- 
minhos  de  Minas  para  Matto  Grosso.  As  or- 
dens  de  30  de  abril  del727  e  15  de  setembro 
de  1730  tinham  j a  prohibido  a  abertura  deu ma 
nova  estrada  de  S.  Paulo  para  Minas. 

O  alvara  real  de  27  de  outubro  de  1733 
prohibiu  abrir  novas  picadas  para  as  minas 
descobertas  ou  por  descobrir. 

A  ordem  regia  de  9  de  abril  de  1745 
prohibiu  uma  estrada  de  Ayuruoca  para  o  rio 
Parahyba. 

Que  systemaintelligente  de  colonisagao  ! 
Realmente  Joao  de  Barros  tem  razao  para 
vir  aqui  convencer-nos  daenergia  civilisadora 
da  sua  raga .  .  . 

Impossibilitados  de  viver  da  extracgao  do 
ouro,  porque  este  pertencia  quasi  todo  ao  rei 
de  Portugual,  deliberaram  os  mineiros  recor- 
rer  a  agricultura,  a  industria  e  ao  commercio 
para  poderem  viver. 

Entre  outras  coisas  que  fizeram,  come9a- 
ram  a  plantar  canna  de  assucar  e  a  levantar 
engenhos  para  beneficial-a.  Pois  a  18  de  no- 
vembro  de  1715  uma  carta  regia  ordenava  ao 
governador  da  capitania,  dom  Braz  Balthazar 


296  VERDADES   INDISCRETAS 

da  Silveira,  que  prohibisse  o  levantamento  de 
mais  engenhos  de  assucar  em  Minas  «porque 
occupavam  grande  numero  de  negros,  que  de- 
viam  estar  occupados  na  extracgao  do  ouro ! » 
Hurrah !  pela  intelligente  raga  colonisa- 
dora ! . .  . 

Os  brasileiros  sempre  foram  amigos  da 
leitura.  Entretanto  era  prohibida  a  entrada  de 
livros  no  Brasil !  Livros  aqui  so  entravam  de 
contrabando  e ,  .  .  ai  de  quern  fosse  encon- 
trado  a  ler  livro  que  nao  fosse  o  das  Horas 
Marianas  !  Nao  contente  a  corte  de  Lisboa 
com  isso,  uma  carta  regia  de  6  de  julho  de 
1747  ainda  prohibiu,  sob  penas  severissimas 
(agoites,  confisco,  degredo  para  a  India,  etc . ) 
que  se  estabelecesse  imprensa  no  Brasil,  sen- 
do,  em  virtude  da  mesma  carta  regia,  destrui- 
da  a  unica  tentativa  de  officina  typographica 
existente  no  Rio  de  Janeiro ! 

Carta  regia  de  30  de  julho  de  1766  man- 
dou  destruir  todas  as  officinas  de  ourives  exis- 
tentes  em  Minas,  prohibindo  que  taes  opera- 
rios  se  installassem  na  capitania  e  ordenando 
que  todos  os  officiaes  e  aprendizes  desse  offi- 
cio assentassem  praga  nos  regimentos  colo- 
loniaes. 

Por  aviso  da  mesma  data  ao  governador 
da  capitania,  mandava  o  Conselho  Ultrama- 


VINTJS  E  UM   D15  ABRIL  29T 

rino  dar  a  Onofre  da  Foiiseca  Neves  o  em- 
prego  de  tocador  de  foUes  da  Casa  de  Fundi^ 
9ao  de  Villa-Rica.  Ate  um  simples  tocador  de 
folles  tinha  de  ser  nomeado  em  Lisboa!  A^ 
tyrannia,  quando  se  afasta  do  tragico,  tern* 
desses  aspectos  grotescos .  .  . 

Em  1756  (1  de  agosto),  come9ou  em  Mi- 
nas  a  arrecada9ao  do  chamado  subsidio  litte- 
rario,  destinado  a  reconstruir  Lisboa,  devas- 
tada  pelo  terremoto  do  anno  precedente.  Fi-^ 
cou  expressamente  declarado  que  essa  arre- 
cadagao  seria  apenas  por  dez  annos.  Pois  ate 
pouco  antes  da  nossa  Independencia,  apezar 
dessas  declara96es,  ate  o  principio  do  secula 
XIX,  ainda  se  arrecadava  em  Minas  o  subsi- 
dio  litterario  para  reconstruir  Lisboa!  \5vn 
quadro  parcial,  de  que  tratam  as  Ephemeri- 
DES,  demonstra  que  so  no  periodo  de  1758  a. 
1779  foi  arrecadada  e  remettida  para  Lisboa 
a  importancia  ouro  de  1.030:705$366. 

Ahi  estao  alguns  dos  motivos  historicos^ 
que  todos  temos  (principalmente  nos  os  mi- 
neiros),  para  sermos  amicissimos  dos  nosso& 
irmaos,  os  portuguezes.  A  elles  devemos^ 
tudo  :  a  industria,  a  agricultura,  a  instrucgao, 
o  commercio,  a  imprensa,  tudo,  tudo.  Joao  de 
Barros  e  o  curiboca  dissorado  Joao  do  Rio  saa 
dessa  opiniao .  .  . 


Incidente  litterario 


(Aossrs.  Roberto  Gomes  e  Goulartde  Andrade) 


AmigosI  —  Voces  sao  ambos  immensos ! 
Conseguiram  arranjar,  em  plena  guerra,  um 
incidente  litterario ! 

Desculpem-me  intrometter-me  nessapen- 
dencia  d'honra.  Nao  posso  sentir  barulho  na 
Republica  das  Letras,  sem  entrar  tambem 
nelle.  Nisto  sou  um  pouco  como  aquelle  Joao 
Foga9a,  o  capitao  do  matto  das  Minas  de 
Prata,  o  qual,  ouvindo  retinir  de  espadas  num 
recanto,  certa  noite  de  ciumada,  parou,  escu- 
tou  um  pouco  e  grunhiu  :  « Ahn !  Briga-se  por 
aqui  ? .  .  . »  E  brigou  tambem,  apenas  para 
distrahir-se ...  K'  o  meu  caso  :  entediado  de 
patriotismo,  resolvi  conversar  com  Voces  a 
respeito  do  incidente  litterario.  Si  Roberto 
plagiou,  no  Declinar  do  Dia,  o  Assump^ao 
de  Goulart,  isto  nao  interessa  nem  ao  paiz 
nem  ao  Paraguay.  O  que  interessa  aos  psy- 


300  VERDADES  INDISCRKTAS 

chologos  e  a  candura  de  ambos :  Roberto,  de- 
fendendo-se  de  ter  plagiado  Goulart ;  Goulart, 
achando  que  Roberto,  si  nao  o  plagiou,  teve 
comelle  a  urn  encontro  nasituagao  dramatica» 
das  pegas  d'ambos;  afeliz,  alids,  continua 
Goulart,  com  ver  que  o  meu  notavel  confrade 
houvera  dado  a  mesma  solugao  ao  conflicto 
psychologico  deque  trataramos.»  Apenas, ne- 
nhum  de  Voc^s  ignora  que  esse  conflicto  psy- 
chologico, que  ambos  resolveram,  jatinha  sido 
resolvido  ha  muito  tempo,  quer  na  theoria,. 
quer  na  pratica.  .  . 

Voces  precisam  de  deixar  de  tomar  a  lit- 
teratura  a  serio.  Fagam  como  Bilac,  que 
adheriu  as  phalanges  patrioticas,  e  assim 
vae  vivendo  optimamente,  louvado  Deus^ 
apezar  de  ter,  segundo  opiniao  corrente,  pla- 
giado Stecchetti.  Fagam  como  o  commenda- 
dor  Paulo  Barreto,  que  tem  sido  accusado  de 
plagiar  a  vida  inteira  Jean  Lorrain,  e  nunca 
se  defendeu — o  que  nao  o  impede  de  ganhar 
a  sua  vida  maravilhosamente  bem,  e  ate  de 
ser  amigo  intimo  do  Sultao  da  Turquia.  Fa- 
gam  como  o  conselheiro  Ruy  Barbosa,  presi- 
dente  da  Academia,  accusado  de  plagiar  o 
diccionario  de  Larousse,  sem  nunca  procurar 
defender-se.  Tantos  outros,  tantos...  S6  nao 
ponho  aqui  Shakespeare,    Goethe,  Racine  e 


INCIDENTS  LITTEKARIO  301 

Moli^re,  porque,  sendo  eu  profundo  respeita- 
dor  dos  genios,  nao  me  atrevo  a  mistural-os 
com  a  litteratura  nacional ;  e  nao  ponho  aqui 
escriptores  portuguezes,  porque,  sendo  eu 
profundo  respeitador  da  litteratura  nacional, 
nao  ouso  confundil-a  com  a  lusitana. 

Isso  de  dizer  que  os  outros  nos  plagiam 
e  ridiculo.  E'  balda  de  Hermes  Pontes.  Este 
microscopico  cravo  das  ferraduras  do  Pegaso 
esta  convencido  de  que  voce,  6  Goulart,  e 
todos  OS  demais  poetas  nacionaes  nao  fazem 
mais  nada  sinao  plagial-o.  Imagine,  6  Goulart, 
a  sua  Ballada  de  Pierrot .  .  .  imitada  do  so- 
neto  do  Bromill 
^  E  agora,  filhos,  adeus !  Sejam  felizes  e 
tenham  juizo.  Deus  os  abengde.  Fagam  as 
pazes,  porque  nao  e  serio  estarem  os  amigos 
empenhados  nesse  conflicto  singular  em  que 
um  se  defende  de  ter  plagiado,  num  drama 
que  ninguem  viu,  um  romance  que  ninguem 
leu . .  . 


O  descobrimento  do  Brasil 


Hontem,  no  pardieiro  intitulado  Theatro 
Republica,  perante  numerosa  assistencia  com- 
posta  exclusivamente  de  patricios  seus,  o  feste- 
jadissimo  poeta  portuguez,  sr.  Joao  de  Barros, 
descobriu  mais  uma  vez  o  Brasil. 

Dos  portuguezes  que  por  ca  tem  vindo, 
desde  o  infausto  anno  de  1600  ate  hoje,  o 
unico  que  verdadeiramente  nao  descobriu  o 
Brasil  foi  Pedro  Alvares  Cabral . 

Por  duas  especies  de  motivos  digo  eu 
que  Cabral  nao  descobriu  o  Brasil :  por  moti- 
vos historicos  e  pela  significa9ao  moderna  da 
locugao  descobrir  o  Brasil. 

Quanto  aos  motivos  historicos,  e  sabido 
que  Gabral  foi  no  seu  tempo  um  dos  ultimos  a 
conhecer  o  Brasil .  Antes  delle  ca  haviam  es- 
tado  Diogo  de  Leppe,  Solis,  Yanez  Pinzon  e 
outros  que  infelizmente  nao  tiveram  a  inicia- 
tiva  de  tomar  posse  da  nova  terra  para  a  cd' 


304  VERDADES    INDISCRKTAS 

r6a  da  Franga  ou  para  a  cor6a  da  Hespanha . 
Nessa  nao  caiu  Cabral,  que,  capitaneando  um 
punhado  de  corsarios,  que  iam  entregar  se  a 
lucrativa  industria  da  pirataria  nas  costas  india- 
nas,  tanto  que  avistou  terra,  mais  que  depressa 
desceu  e  aqui  plantou  o  marco  portuguez.  E' 
este  o  seu  unico  merito ;  pelo  que,  si  os  portu- 
^uezes  devem  venerar  a  memoria  de  Cabral, 
que  Ihes  deu  no  passado  uma  rica  possessao, 
<ie  cujos  recursos  ainda  hoje  exclusivamente 
vivem,  os  brasileiros  nao  tern  nenhuma  razao 
para  tanto.  Nos  brasileiros  so  devemos  vene- 
rar a  memoria  dos  nossos  heroes:  Calabar, 
trucidado  pelos  portuguezes  em  1635;  Phi- 
lippe dos  Santos,  esquartejado  em  Villa  Rica, 
por  ordem  dos  portuguezes,  no  anno  de  1720; 
Tiradentes,  enforcado  e  esquartejado  no  Rio 
de  Janeiro,  no  anno  de  1792,  em  virtude  da 
sentenga  da  al9ada  portugueza :  Frei  Caneca, 
o  padre  Miguelinho,  o  padre  Roma  e  outros 
patriotas  fusilados  pelos  portuguezes  em  Per- 
nambuco  e  na  Bahia,  no  anno  de  1817 ;  Clau- 
•dio  Manoel  da  Costa,  assassinado  na  prisao 
{Inconfidencia  Mineira)  entre  1789  e  1790; 
OS  que  morreram  nas  masmorras  do  Limoei- 
TO  e  da  Junqueira,  assim  como  nos  d^gre^ios 
da  Africa,  expiando  o  crime  de  terem  amado 
a  sua  patria.  A  memoria  destes  e  que  deve- 


O  DESCOBRIMENTO  DO  BRASII,  305 

mos  venerar,  e  mais  a  dos  vencedores  da  In- 
dependencia  e  da  Regencia :  Gongalves  Ledo, 
Antonio  Carlos,  Martim  Francisco,  Jose  Bo- 
nifacio, Evaristo  da  Veiga  e,  acima  de  todos, 
o  grande  padre  Diogo  Feijo,  o  Regente 
de  Ferro,  verdadeiro  plasmador  da  unidade 
nacional,  cuja  memoria  deve  seragitada  como 
uma  bandeira  de  guerra.  Veneremos  no  mes- 
mo  piano  em  que  estiver  Diogo  Feijo  o  ma- 
rechal  Floriano  Peixoto,  cuja  espada  e^uja 
serena  energia  souberam  manter  a  unidade 
nacional  nos  agitados  primeiros  tempos  da 
Republica.  .  .- 

Voltemos,  porem,  ao  nosso  intento.  His- 
toricamente,  Cabral  nao  descobriu  terra  ne- 
nhuma  por  aqui ;  apenas  apoderou-se  de  um 
territorio  incluido  entre  os  descobrimentos  de 
Colombo  (por  ter  sido  este  o  descobridor  de 
todo  o  continente  americano)  e  positivamente, 
directamente  ja  descoberto  por  outros,  como 
Solis,  Pinzon,  Leppe,  etc. 

Em  virtude  da  significa9ao  moderna  da 
locugao  descobrir  o  Brasil,  tambem  e  evidente 
que  Cabral  nao  nos  descobriu. 

Cabral,  com  effeito,  depois  de  tomar 
posse  do  Brasil  e  de  ter  ido  a  India,  (onde 
praticou  a  bravura  de  destruir  com  artilharia 
grossa  algumas  chalanas  malabares,  feitas  de 

20 


306  VERDADES    INDISCRETAS 

vime  e  de  madeira  fragillima)  voltou  a  Portu- 
gal, onde,  depois  de  receber  alguns  premios,. 
viveu  e  morreu  tao  obscuramente,  que,  so  de- 
vido  a  esforgos  de  um  brasileiro  (o  dr.  Al- 
berto de  Carvalho),se  descobriu  o  seutumula 
no  seculo  XX.  De  sorte  que  o  Brasil  pouco 
aproveitou  ao  navegador.  Nao  e  isso,  pois,. 
que  se  chama  descobrir  o  Brasil,  como  se  vae 
ver. 

Descobrir  o  Brasil  e  fazer  como  Malhei- 
ro  Dias,  que,  depois  de  insultar-nos  no  seu 
livro  A  MuLATA  e  de  terfugido  para  Portugal,, 
para  ca  voltou  annos  depois,  estabeleceu-se 
com  fabrica  de  unguentos  e  pomadas,  de  so- 
ciedade  com  uma  polaca  sua  amiga,  e  toca  a 
levar  vida  regalada  ! 

Os  irmaos  Monjardino,  medicos,  aquf 
vieram  em  visita,  diziam  elles.  Foram  recebi- 
dos  na  Sociedade  de  Medicina  ;  tiveram  ban- 
quetes,  discursos  e  retratos  nos  jornaes.  Apa- 
nhado  esse  vasto  e  excellente  reclamo  feito  a 
custa  da  ingenuidade  dos  seus  coUegas  brasi- 
leiros,  que  pensavam  estar  rendendo  home- 
nagens  a  simples  visitantes  illustres,  um  dos 
Monjardinos  voltou  para  Lisboa,  mas  o  outro, 
mais  pratico  e  esperto,  gostou  tanto  deste 
paiz,  que  resolveu  ca  montar  consultorio  e  fez 
muito  bem,  pois  como  ja  dizia  o  seu  patricia 


O  DBSCOBRIMENTO  DO  BRASIIv  307 

Pero  Vaz  Caminha,  a  a  terra  he  em  tal  maney- 
ra  graciosa  que  em  se  querendo  nella  se  dari 
tudo»,  inclusive  a  arvore  das  patacas.  .  . 

Descobrir  o  Brasil  e  finalmente  fazer 
como  o  dr.  Joao  de  Barros,  que  nos  conta,  a 
respeito  da  nossa  terra,  coisas  de  que  nunca 
ouvimos  fallar.  Ainda  hontem  nos  dizia  elle , 
com  o  seu  sibilante  sotaque  alfacinha,  que  no 
Rio  de  Janeiro  «a  intelligencia,  o  talento  e  o 
genio  tomam  as  mais  fascinantesf6rmas».  Ora 
ahi  esta  uma  grande  novidade  para  nos,  por- 
que  a  intelligencia  aqui  e  relativa,  como  em 
toda  a  parte  ;  o  talento  e  rarissimo ;  quanto  ao 
genio,  ainda  esta  por  apparecer,  a  nao  ser  que 
o  sr.  Barros  nos  tenha  trazido  ahi  um  pouco 
da  mercadoria  nalgum  barrilote  d'ovos 
moll's  d'Aveiro. 

Nao  contente  com  isso,  disse  ainda  o 
consagrado  litterato,  que  no  Rio  de  Janeiro 
«o  mar  tem  o  riso  fresco  das  boccas  novas  das 
mulheres  e  a  eterna  alegria  do  riso  alacre  dos 
deuses  pagaos)).  Isto  agora  e  asneira  e  grossa. 
Pode  ser  que  em  Lisb6a  esse  palavreado  so- 
noro  ainda  seja  muito  b6a  litteratura,  mas 
aqui  no  Rio,  nao.  Mar  que  parece  bocca  de 
mulher  e  riso  dos  deuses  ao  mesmo  tempo, 
isto  e  mar  androgyno,  macho  e  femea  simul- 
taneamente,  mar  Ganymedes,  cujos  recondi- 


308  VERDADES    INDISCRETAS 

tos  mysterios  so  o  dr.   Joao  do  Rio  nos  po- 
dera  explicar .  .  . 

Finalmente  mestre  Joao  de  Barros  en- 
cerrou  a  festanga  com  dois  berros  a  portu- 
gueza :  Pelo  Brasil  /  Por  Portugal!  A  mim 
quer-me  parecer  que  esses  senhores  adeptos 
da  recolonisagao  do  Brasil  pelos  portugue- 
zes  (pelourinho,  forca,  fusilamentos,  esquar- 
tejamentos,  prohibi^ao  de  abrir  estradas,  es- 
colas,  bibliothecas,  etc.)  esses  senhores  estao 
exaggerando  as  coisas  com  essa  gritaria  Por 
Portugal!  Nosnao  ^^^^vcios^xxx.'ax  Por  Portu- 
^^/,porque  amanha  pode  um  italiano  exigir  que 
gritemos  Pela  Italia!  Um  allemao  pode  querer 
que  gritemos  Pela  Allemanha!  E  qualquer 
prostituta  franceza  do  becco  dos  Carmelitas, 
com  eguaes  direitos  a  nossa  approxima9ao, 
podera  pedir-nos  um  Pour  la  Frrrance  !  e  nao 
havera  quem  Ih'o  negue ... 

Quanto  a  nos,  os  que  conhecemos  ahis- 
toria  dos  martyres  da  nossa  liberdade;  que 
temos  sempre  presente  a  memoria  dos  agou- 
tados,  dos  roubados,  dos  degredados,  dos 
empobrecidos,  dos  fusilados,  dos  enforcados 
e  dos  esquartejados  por  ordem  dos  portugue- 
zes,  nos  e  que  nunca  havemos  de  gritar  Por 
Portugal ! —  nem  que  nos  rachem  ao  meio  ! 


Guiiherme  Ilea  psychologia 
do  heroismo 


Quern  olha  de  relance  para  a  tragedia 
europea  tern  a  impressao  hallucinante  de  assis- 
tir  a  resurreigao  de  todo  o  paladinismo  medie- 
val. A  figura  de  Guiiherme  II  culmina  no 
scenario  gigantesco.  O  phenomeno  nao  e 
inexplicavel.  No  meio  de  tantos  reis  que  se 
combatem  e  de  tantos  heroes  puros  que  torn- 
bam  sob  as  cupolas  dos  fortes,  ou  nas  anfra< 
ctuosidades  dos  desfiladeiros,esmagados  pelas 
cargas  de  cavallaria,  ou  pulverisados  pela  gra- 
nada,  cada  um  de  nos  so  parece  divisar,  como 
uma  visao  tremenda,  o  capacete  reluzente  do 
Kaiser.  E'  que  a  Allemanha  se  interpoz  entre 
o  sol  e  o  planeta ;  e  todas  as  aspiragoes,  to- 
das  as  virtudes,  todos  os  defeitos,  todas  as  fa- 
Ihas  e  todas  as  grandezas  da  ra9a  germanica 
repontam  nessa  figura  extraordinaria,  que,'  no 
caso,  representa  uma  synclinal. 


310    GUILHERMB  II  E  A  PSYCHOI.OGIA  DO  HEROISMO 

Dizem  que  os  allemaes  o  adoram.  O 
facto  e  comprehensivel.  Elle  nao  e  apenas  um 
imperador,  mas  antes  de  tudo  um  homem  com- 
pleto  para  o  seu  meio  e  para  a  sua  ra^a.  Con- 
substanciam-se  nelle  todas  as  estratificagoes 
ethiiicas  qije  formam  o  patrimonio  de  f6r9as 
inalienaveis  do  seu  povo.  Esse  idealismo  quasi 
morbido,  que  tern  o  seu  maior  expoente  no 
transcendentalismo  de  Kant ;  esse  espirito  de 
universalidade,  de  amplidao  mental,  de  vasta 
capacidade  psychologica,  tendendo  para  a  in- 
tegragao  da  alma  germanica  na  alma  humana, 
que  se  corporifica  no  Fausto,  de  Goethe ;  a 
hallucinagao  grandiosa,empolgante,dos  heroes 
wagnerianos,  no  que  elles  possuem  de  mais 
assustador  para  as  aggremia^oes  ethnicas  or- 
ganicamente  fracas  e  incompletas  como  nos; 
esse  mysticismo  messianico  a  Klopstock;  essa 
ausencia  absoluta  de  escrupulos  quando  esta 
em  jogo  o  que  para  os  allemaes  e  2i  grandeza 
da  p atria  \  —  tudo  isso,  que  forma  as  linhas 
geraes  da  sensibilidade  germanica,  sae  da  es- 
phera  das  abstrac^oes  e  recebe  um  corpo,  uma 
figura  e  uma  realidade  na  pess6a  de  Guilher- 
me  II.  E'  um  espelho  onde  se  mira  cada  alle- 
mao.  E'  um  espelho  e  uma  synthese,  synthese 
grandiosa,  mas  excessivamente  dramatica  e 
infinitamente  perigosa  para  o  mundo.  Porque 


VERDADES   INDISCRETAS  311 

o  mundo  e  tambem  uma  synthese  onde  con- 
correm  muitas  qualidades  que  naose  ajustam 
«,  pelo  contrario,  se  contrapoem  a  synthese 
^ermanica.  Nao  podem,  pois,  coexistir  no 
mesmo  ambiente  duas  syntheses  que  se  con- 
tradizem.  Uma  tern  de  desapparecer,  e  de 
certo  nao  sera  a  synthese  universal  que  ha  de 
ceder  o  terreno  a  synthese  individual .  .  . 

Mas  sera  um  Heroe  ?  No  tempo  de  Car- 
los, o  Temerario,  ou  de  Ricardo,  Coragao  de 
Leao,  Guilherme  II  teria  sido  a  personificagao 
mais  vivaz  do  paladinismo.  Hoje,  em  vez  de 
encontrar  na  Borgonha  a  espada  victoriosa  do 
Temerario,  elle  encontra  tropas  republicanas, 
que  fazem  a  guerra  corajosamente  mas  pro- 
testam  contra  ella  em  nome  da  Paz.  E  na  In- 
^laterra,  em  vez  de  um  Cora9ao  de  Leao,  en- 
contra Jorge  V,  filho  de  Eduardo,  o  Pacifico. 
<^ue  faz  a  guerra,  mas  protesta  tambem  em 
nome  da  Paz.  O  proprio  Tzar,  o  autocrata,  o 
chefe  dos  cossacos  e  das  hostes  ruthenas,  tam- 
bem protesta  contra  a  guerra  em  nome  da 
Paz !  Da  Franga,  finalmente,  onde  governa 
um  que  nao  foi  armado  cavalleiro,  partem 
protestos  em  nome  da  Paz.  Presidente  da 
Franga,  Rei  da  Inglaterra,  Imperador  da  Rus- 
sia, Rei  da  Belgica,  todos  a  uma  atiram  contra 
Guilherme  a  responsabilidade  da  guerra.    E 


312   GUILHERME  II  E  A  PSYCHOI.OGIA  DO  HEROISMO 

Guilherme,  que  nao  tern  mede  de  exercitos, 
amedronta-se  deante  de  uma  abstrac9ao  —  a 
Paz,  e  deante  de  uma  creagao  da  imaginativa 
humana  —  o  juizo  da  Historia.  E'  um  herde, 
mas  heroe  incomplete  no  sentido  militaresco . 
Sob  a  accusagao  de  ter  provocado  a  guerra  (e 
por  emquanto  e  difficil  fazer  com  equanimi- 
dade  uma  exacta  distribuigao  de  responsabili- 
dades)  Guilherme  da-se  pressa  tambem  em 
mandar  pedir  a  baciade  Poncio  Pilatus  e  lavar 
as  suas  imperiaes  maos .  .  .  Isto  quer  dizer 
que  nenhum  desses  paladinos  tem  ja  a  guerra 
em  grande  estimagao.  Todos  elles,  que  sao 
de  nascenga  generaes  e  almirantes,  desesti- 
mam  as  batalhas.  Sao  todos  pacifistas  incuba- 
dos,  o  que  quer  dizer  que  o  heroismo  militar 
estci  morto.  Ha  dias  notava  isto  o  sr.  Teixeira 
Mendes  num  artigo-pastoral.  Que  differenga 
entre  Jorge  V  e  o  rei  Arthur !  Alguns  seculos 
atraz,o  actual  rei  da  Inglaterra  seria  tido  como 
menos  digno  de  fazer  parte  da  nobre  compa- 
nhia  dos  Cavalleiros  daTavola  Redonda.  Nao 
e  um  paladino :  e  um  legista.  Guinevra  nao 
se  dignaria  de  ser  a  estrella  dos  seus  comba- 
tes.  .  . 

E  Guilherme?  Que  distancia  immensa 
entre  os  seus  avoengos  scandinavios  e  este 
her6e  cujo  cerebro,  de  permeio  com  imagens 


VKRDADSS  INDISCRETAS  313 

de  batalhas  e  sangueiras,  tern  dentro  de  si  o 
cortejo  das  abstracgoes  aprendidas  na  convi- 
vencia  dos  sabios !  Badur,  rei  de  Upsal,  dizia: 
«Nada  espero  dos  idolos.  Corri  a  minha  parte 
paizes  varies ;  encontrei  espiritos  e  gigantes 
que  nada  puderam  contra  mim ;  e,  pois,  nas 
minhas  f6r9as  que  confio  unicamenteU  Lod- 
brog,  prisioneiro  do  saxonio  OElla,  langado 
numa  caverna  cheia  de  viboras,  ent6a  altiva- 
mente  o  seu  canto  de  mortem  que  os  Eddas 
nos  conservaram !  Morrendo,  elle  exclama  na 
sua  alegria  barbara:  «EisasDysasque  Odino 
enviou  para  me  conduzirem  ao  seu  reino . 
Alegre  me  vou  com  os  Ases  beber  o  hydromel 
nos  cimos  supremos.  Passaram  as  horas  da 
minha  vida  e  eu  sorrio  a  morte  !>> 


Jnvitant  me  deae 
Quas  ex  Othini  aula 
Othinus  misit  mihi. 
Lsetus  cervisiam  cum  Asis 
In'  summa  sede  bibam. 
Vitae  elapsae  sunt  horae, 
Ridens  moriar . . . 


Siegfried,  de  todos  os  heroes  de  Wagner 
o  que  mais  amava  Nietzsche,  e  o  heroe  com- 
plete, G  admiravel  desprendido,  que  nunca 
sentiu   as  suggestoes  do   medo.  Guilherme, 


314     GUILHERMB  II  E  A  PSYCHpLOGiA  DO  HEROISMO 

que  affronta  legioes  e  desafia  povos,  estre- 
mece  ao  lembrar-se .  .  .  de  que?  De  um  ca- 
lamo,  de  um  estylete  com  que  um  homem 
tranquillo,  no  silencio  da  sua  mansarda,  tera 
de  commentar  um  dia  os  altos  feitos  de  Gui- 
Iherme.  Ve  se  a  larga  distancia  que  separa 
dosseus  avos  este  neto  de  deuses.  E'  possivel 
que  Wottan  nao  o  reconhecesse  e  que  Siglinda 
nao  o  distinguisse.  Brunhilda  talvez  nao  qui- 
zesse  ser  despertada  por  elle ,  .  . 

Os  pensadores  devem  estar  consolados 
no  seu  ponto  de  vista,  apezar  dos  horrores 
desta  guerra.  Todos  os  que  a  fizeram  de- 
clararam-na  uma  calamidade.  Detestam-na. 
Mas  fazem-na,  dirao !  Sim,  mas  amanha,  quan- 
do  o  espirito  dos  chefes  dos  povos  estiver  bem 
saturado  das  novas  philosophias  e  ardente- 
mente  convencido  dessa  transforma9ao  de  va- 
lores  pela  qual  a  Paz  sera  o  titulo  mais  glo- 
rioso  das  nagoes,  quem  sabe  si  as  guerras  nao 
cessarao  ?  O  ultimo  heroe  militar  germano  foi 
o  velho  Moltke,  que  dizia  ser  a  guerra  «uma 
santa  instituigaoB !  Guilherme  II,  quarenta 
annos  depois,  acha-a  tao  detestavel,  que  afasta 
de  si,  e  com  razao,  a  responsabilidade  della 
perante  a  Historia.  Daqui  a  mais  quarenta 
annos,  si  houver  ainda  reis,  talvez  sejam  muito 


VBRDADES   INDISCRBTAS  315 

maiores  os  esforgos  que  envidarao  para  evitar 
as  guerras.  Porque  a  maior  gloria  do  futuro  sera 
poder  augmentar  a  riqueza,  o  conforto  e  a 
grandeza  das  patrias  pelos  instrumentos  da 
Paz  e  do  Trabalho. 


A  crapula 


Terminado  no  jornal  o  meu  trabalho  de 
orientador  da  opiniao  a  tanto  por  dia,  fui  do- 
mingo  passado  a  um  club.  Nao  se  esque9am 
de  que  o  domingo  passado  foi  de  Carnaval . 
Eram  quasi  duas  horas  da  manha  e  chovia  a 
cantaros,  uma  chuva  barbara,  dessas  que  de- 
vem  castigar  as  cidades  malditas,  inundando- 
as  a  trombas  diluvianas  e  transforman do-as 
em  lagos  de  orgulho  e  lama .  .  . 

Subi.  No  salao,  banhado  de  uma  luz 
crua  de  meio  dia  tropical,  e  que  habitual  e  si- 
multaneamente  serve  de  salao  de  baile,  de 
restaurante  e  de  espelunca  de  jogo,  premiam- 
se  pares  afrancezadamente  cynicos,  que  dansa- 
vam  tangos  argentinamente  acanalhados  e 
maxixes  nacionalmente  debochados.  Pierrots 
de  cara  branca,  deixando  adivinhar,  por  debai- 
xo  do  creme  de  que  tinham  rebocada  a  epi- 
derme,  o  cansa90  moral  de  uma  gente  pollu- 


318  VKRDADES   INDISCRETA-S 

cionalmente  exgottada  antes  de  attingir  a  pu- 
berdade,  dansavam  com  pierrettes  cansadas 
como  ladras  que  correram  um  kilometro  per- 
seguidas  pela  policia,  ou  com  abandalhadas 
colombinas  que  traziam  estampada  na  flacidez 
do  sorriso  mercenario  a  fadiga  das  insomnias 
estereis  e  das  orgias  remuneradas .  .  . 

Cinco  ou  seis  ratoes  vestidos  de  verme- 
Iho,  espremidos  entre  um  piano  e  a  turba,  exe- 
cutando  maxixes  puramente  intencionaes  ou 
tangos  hypotheticos,  de  facto  imitavam  nas 
cordas  dos  sens  violinos  vozes  de  animaes 
de  especie  varia.  Os  violinos,  que  nas  maos 
de  Kubelick  ou  de  Vecsey,  sao  fontes  de  emo- 
goes  ethereas  e  irmanam  as  almas  nas  regioes 
niveas  do  Ideal,  nos  gadanhos  de  zingaros  de 
clubs  perdem  as  suas  virtudes  estheticas  e 
adquirem  singulares  propriedades  de  guelas 
felinas.  Nessa  noite,  por  exemplo,  si  os  zin- 
garos estivessem  occultos  por  detraz  de  uma 
simples  cortina,  eu  jurara  que  a  malta  dos  fo- 
lioes  dansava  ao  som  de  miados  de  gatas  no 
cio  e  de  rugidos  de  hyenas  esfaimadas  e  en- 
raivecidas. 

Pelo  ar  empestado  corriam  ruidos  de  en- 
sandecer  e  odores  fulminantes,  desde  aquelle 
cheiro  que  Fialho  d' Almeida  chamava/<?w^/«a 
que  e  «o  alcaloide  sexual  da  femea  avulsas, 


A   CRAPUI^A  319 

ate  as  exhalagoes  varias  e  intoxicantes  com 
que  a  industria  permitte  a  humanidade  embo- 
tar  a  pituitaria,  comtanto  que  se  disfarce  o  far- 
turn  prenunciador  dos  feditos  inadiaveis  da 
decomposigao ,  .  . 

Todas  as  mesas  estavam  occupadas.  Fin- 
gindo-se  ^^^^^z^r^.exteriormente  despreoccupa- 
dos  de  tudo,  mas  intimamente  combinando  o 
prego  da  pandega  com  a  capacidade  de  resis- 
tencia  das  carteiras,  alguns  fidalgos  de  sangue 
suspeito  e  arrebentados  pagavam  cervejapara 
Manons  sedentas  e  sanduiches  para  Phryneas 
famintas  da  Lapa,  Gloria  e  Russell.  Em  tres 
mesas  apenas  bebia  se  champagne.  Essas  tres 
mesas  eram  occupadas  por  illustres  cavalhei- 
ros  que  devem  orgar  pelos  sessenta  e  cuja 
unica  celebridade,  perante  os  vertebrados  em 
geral  e  a  especie  humana  em  particular,  con- 
siste  nas  passadas  fa9anhas  amorosas  das  es- 
posas,  hoje  aposentadas  em  avos  que  distri- 
buem  pelos  netinhos  as  lambugens  de  caricias 
que  OS  amantes  de  outr'ora  Ihes  deixaram  nos 
coragoes  desilludidos,  mas  nao  saciados... 

Passei  pelo  meio  da  farandulagem  maxi- 
xante  como  uma  penna  da  ave  Melancolia 
levada  ao  leo  por  um  tufao.  Acotovelado  e 
acotovelando,  abalroado  pela  esquerda  e  abal- 
roando  pela  direita,  aos  boleos  e  trambulhoes. 


320  VBRDJIDBS    INDISCR^AS 

dando  umbigadas  em  rebolantes  nalgas,  e  ca- 
nelladas  acutilantes  emcadeiras  desgarradas, 
sempre  consegui  chegar  ao  fundo  da  sala,  a 
parte  propriamente  destinada  a  servir  de  es- 
pelunca  de  ladroes.  O  jogo  estava  esmorecido. 
Os  pharoes  nao  conseguiam  seduzir  papalvos. 
Entre  a  sota  e  a  mulher  o  imbecil  verdadeiro, 
o  imbecil  integral,  deixa-se  apanhar  sempre 
pela  ultima.   Ora,  naquella  noite  as  mulheres 
esvoa9avam  como  cardumes  de  vespas  em 
tardes  estivaes,  atrevidas  e  picantes.  Alem  do 
mais  a  attrac9ao  do  maxixe  e,  entre  nos,  su- 
perior a  attracgao  do  baccarat.  O  jogo  e  vicio 
de  decadencia.  Comprehende-se  o  dominio 
da  batota  na  Europa,  onde  a  civilisa^ao  ja  co- 
mega  a  deseer  a  outra  vertente  da  montanha, 
onde  boceja  uma  raga  saturada  de  crapula,  de- 
vastada  por  guerras,  exhausta  por  orgias  se- 
culares.    fatigada  de  aventuras,  raga  que  ja 
inventou  tudo,  viu  tudo,  fez  tudo  quanto  se 
pode  fazer  de  bem  ou  de  mal,  sentiu  tudo 
quanto  se  pode  sentir  de  delicioso  ou  de  des- 
agradavel,  raga  velha  e  gasta,  que  esta  a  de- 
lir-se  como  as  carnes  de  um  cadaver  numa  cal- 
deira  ardente,  de  onde  sairao  apenas  os  ossos 
a  servirem  de  objecto  de  estudo  para  a  moci- 
dade  nos  amphitheatros  de  anatomia. 


A  CRAPUi:.A  321 

Nas  terras  ainda  Barbaras  como  a  nossa 
o  JGgo  6  grandeseduc9ao  quando  nao  existem 
seducgoes  maiores.  No  dia  em  que  reina  o 
maxixe  debilitam-se  os  creditos  da  jogatina . 

Ainda  nao  somos  dissipados,  por  nos 
minguar  a  moeda,  e  ainda  nao  somos  devassos, 
porque  nossobeja  juventude.  A  devassidao  e 
mais  da  velhice  do  que  da  mocidade.  A  mo- 
cidade  e  precipitada  e  gozadora.  Nao  precisa 
de  ser  devassa,  porque  traz  ainda  no  sangue  a 
idrqa  e  o  impeto  das  profundas  sensualidades. 
Agradam-lhe  todos  os  estrepitosos  e  audazes 
prazeres  da  vida  destra :  o  desporto,  o  baile, 
as  corridas,  o  maxixe  e  todas  as  choreas  des- 
bragadas.  Diversao  que  nao  fatiga  nao  alegra 
a  mocidade.  Explica-se  dest'arte  a  seducgao 
physiologica  do  maxixe  sobre  o  brasileiro, 
povo  mo90.  As  distensoes  musculares  dos 
membros  inferiores;  os  movimentos  quasi 
arythmicos;  os  passos  accelerados  pela  ca- 
dencia  lesta  da  canalhesca  musica  afro-ameri- 
cana ;  o  desregramento  das  attitudes  fecundas 
tm  imprevistos ;  a  possibilidade  de  ostentar 
aos  olhos  de  tanta  gente  uma  mulher  em  po- 
si^oes  pouco  plasticas  e  muito  equivocas — 
tudo  isso  nos  encanta  ao  mesmo  tempo  que 
nos  satisfaz  o  appetite  de  ruido  e  ostentagao. 

21 


322  VERDADES   INDISCRKTAS 

A  nossa  ausencia  de  bom  gosto  enquadra-se 
admiravelmente  dentro  da  canalhice  barbara 
do  maxixe. 

Si  nao  existisse  nem  um  so  documento- 
historico  da  epoca,  bastava  um  miniiete  para. 
reconstituir  toda  a  pbysionomia  social  do  se- 
culo  XVIII.  Si  se  perdessem  todos  os  monu- 
mentos  historicos  do  Brasil  actual  (e  o  prejuiza 
nao  seria  grande),  bastaria  a  copia  de  um  ma- 
xixe e  a  photographia  de  um  carro  carnava- 
lesco  para  que  se  reconstituisse  a  nossa  pby- 
sionomia reles,  tal  como  por  uma  synclinal  se 
reconstitue  todo  um  periodo  geologico. 

O  maxixe  da  bem  a  idea  das  nossas  bai- 
xas  tendencias  musicaes  e  choreographicas . 
Um  carro  carnavalesco  e  a  medida  precisa  da 
nossa  ausencia  de  imaginagao  e  da  monstruo- 
sidade  carthagineza  do  nosso  mau  gosto .  Si 
contarem  la  f6ra  que  no  Rio  de  Janeiro  uma 
popula^ao  inteira  vem  para  a  rua  applaudir 
phreneticamente  carros  que  so  valem  pelo  ta- 
manho  desproporcionado,  hediondos  como 
cavernas  paleontologicas,  representando  sem- 
pre  OS  mesmos  dragoes  mambembes,  as  mes- 
mas  conchas  de  ha  cincoenta  annos,  as  mesmas 
moedas  de  ouro...  de  papelao  dourado,  e  os- 
tentando  annualmente,  com  rigor  mathema- 
tico,  as  mesmas  toneladas  de  niulheres  gordas 


A    CRAPUI^A  323 

como  polacas  de  exportagao,  feitas  de  propo- 
sito  para  excitar  a  cubiga  conimercial  dos  a9ou- 
gueiros  e  o  appetite  profissional  dos  magare- 
fes,  difficilmente  acreditarao  que  tal  cidade 
tenha  a  pretensao  de  passar  por  civilisada  e 
queira  ser  tomada  a  serio  pelo  estrangeiro  ci 
vilisado,  orgulhoso  e  suspicaz. 

Mas,  depois  de  vinte  minutos  de  club,  a 
cabega  nos  anda  a  roda,  como  si  tivessemos 
turbinas  no  craneo.  Affrontei,pois,  novamente 
a  onda  revolta  dos  bailarinos,  atravessei-a  em 
lucta  corpo  a  corpo,  trazendo,  nos  tympanos, 
echos  desencontrados,  e  nas  retinas,  fulgores 
intermittentes  e  relampagos  violaceos.  Ganhei 
a  rua  alagada  pela  chuva,  e,  meditando  coisas 
truculentas  contra  a  Humanidade  e  invecti- 
vando  mentalmente  August©  Comte,  seu 
Propheta,  comecei  de  chapinhar  novamente  a 
lama  carnavalesca  da  Avenida .  .  . 


Um  caso  de  poticia 


Chama-se  a  attengao  da  Policia  para  os 
factos  que  se  passa  a  relatar : 

Ha  poucos  dias,  no  Caes  do  Porto,  um 
pobre  homem  comprou  um  jornal;  assentou- 
se  a  um  pedral  e  comegou  a  ler ;  de  repente 
poz-se  a  tremer  e  a  espumar,emquanto  os  olhos 
pareciam  querer  fugir-lhe  das  orbitas.  Estando 
elle  nesse  estado,  acertou  de  passar  por  ali  um 
rapaz  que  Ihe  perguntou  o  que  elle  tinha;  o  ho- 
mem fitou  o  seu  interlocutor,  agarrou-o  pelo 
pescogo  e  provavelmente  o  enforcaria  si  prom- 
pta  intervengao  da  patrulha  policial  nao  ata- 
Ihasse  opportunamente  tao  grande  desatino . 

Durante  todo  o  tempo  em  que  travou 
luta  corporal,  berrava  o  pobre  homem  para  a 
sua  victima : 

—  Voce  e  o  Austregesilo !  Voc6  e  o  dou- 
tor  que  escreve  nos  jornaes !  Eute  mato,  ban- 


326  VBRDADBS   IMDISCRSTAS 

dido !  Pelo  sangue  dos  meus  filhos,  eu  te  en- 
force !  Eu  quero  matar  o  dr.  Austregesilo ! 

A  muito  custo  foi  subjugado  e  conduzido 
at^  i.  delegacia  proxima,  de  onde  nao  se 
sabe  que  destino  Ihe  terao  dado;  mas  e  pro- 
vavel  que  esteja  a  estashoras  no  Hospicio,tal 
a  violencia  do  seu  accesso  de  loucura. 

Ahi  tern  o  dr.  Chefe  de  Policia  o  que 
pode  produzir  a  liberdade  com  que  certos  in- 
dividuos  abusam  do  direito  de  ser  nocivos. 

O  dr.  Antonio  Austregesilo  e  um  desses 
criminosos,  dignos  nao  s6  das  masmorras  como 
de  um  violento  requisitorio  do  senador  Ruy 
Barbosa.  O  caso  aqui  citado  de  loucura  san- 
guinaria  nao  6  o  unico  ate  agora  provocado 
pelos  artigos  do  eminente  professor.  De  ou- 
ttos  sei  eu  qiie  t^m  ficado  escondidos  por 
anlor  das  victimas,  que  pertencem  a  familias 
de  destaque.  A  in  da  ha  poucos  dias,  duas  se- 
nhoritas  residentes  em  Copacabana  foram, 
logo  depois  do  jantar,  acommettidas  de  coli- 
cak  tao  terriveis,  que  toda  a  gente  aventou 
logo  ahypbthese  de  um  envenenamentb.  Qu^- 
riiam  at^  responsabilisar  o  cosinheiro  da  casa 
e  6  vendeiro  portuguez  em  que  se  fornece  a 
familia.  Afinaj,  chamada  a  Assistencia,  verifi- 
cou  o  medico  da  ambulancia  nao  se  ti^atar  de 
nenhum  envenehamento.  Examinados  os  ge- 


UM   CASO  DE  POUCIA  327 

Tleros  alimenticios  que  havia  na  dispensa,  fi- 
-cou  provado  serem  de  b6a  qualidade ;  e  o  seu 
prepare  nada  deixava  a  desejar.  Alids,  si  a 
intoxica9ao  proviesse  da  ingestao  de  ali- 
mentos  deteriorados,  naturalmente  toda  a  fa- 
milia  teria  manifestado  os  mesmos  symptomas 
de  doen^a  que  as  senhoritas. 

—  E'  exquisite,  pensava  o  medico.  Os 
alimentos  estao  perfeitos.  Estas  meninas  cos- 
tumam  ter  destas  colicas  ? 

—  Nao,  doutor,  e  a  primeira  vez,  res- 
pondeu  a  mae  das  pequenas. 

—  E .  . .  insistiu  o  medico,  concertando 
OS  oculos  severos  e  fusilantes  de  sciencia: 

"^^  •    •    • 

Aqui  elle  fez  a  mae  uma  pergun^  em 
voz  baixa,  a  qual  respondeu  a  digna  senhora, 
^nrubecendo  levemente : 

—  Ah  1  nao,  senhor !  Sao  at^  muito  re- 
Sfulares .  .  .  Sao  muito  sadias  estas  meninas . 
Este  mez  ja  tiveram ... 

—  E'  extraordinario.  Nao  posso  sXimr:.. 
Caso  grave .  .  .  Nao  me  parece  nada  mau  cha- 
mar  um  gynecologista.. . 

Pensando  e  repensando,  cairam  os  olha- 
res  do  medico  sobre  um  diario  que  estiiva  es- 
tendido  em  cima  da  mesa  grande  da  sala  de 


328  VERDADES   JNDISCKBTAS 

jantar.  La  estava  um  artigo  intitulado  —  O 
Silencio  —  e  subscripto  pelo  dr.  Austregesilo^ 

—  Ah!  exclamou  o  doutor.  Aqui  esta 
a  causa.  Jd  podemos  fazer  a  etiologia  do  maL 
Fa9amos  o  diagnostico  e,  si  for  o  que  eu  pen- 
so,  o  prognostico  pode  ser  severo.  Estas  pe- 
quenas  sabem  ler? 

—  Oh !  doutor !  De  certo   que  sabem  \. 

—  Leram  este  artigo  ? 
Interrogadas,  responderam  as  pequenas 

que  o  nao  tinham  lido  todo,  mas  em  parte. 

—  Pouco  importa,  disse  o  illustre  facui- 
tativo.  Com  muito  menos  do  que  isto  morreu 
Madame  Bovary.  Vou  receitar-lhes  um  pur- 
gante  fresco  e  uma  fomentagao  para  a  regiao 
umbilical. 

E  com  effeito,  tomado  o  purgante  e  es- 
coado  o  effeito  do  mesmo,  come^aram  as  gen- 
tis  enfermas  a  melhorar;  e  ficaram  inteira- 
mente  boas  depois  da  fomentagao  nos  genti- 
Hssimos  umbigos. 

Ahi  tem  o  dr.  Chefe  de  Policia  o  periga 
social  que  representa  um  artigo  de  Austre- 
gesilo. 

No  tal  artigo,  que  provocou  as  colicas  nas 
senhoritas,  ha  trechos  assim : 

O  silencio  d  uma  voz  em  perspeUiva^ 
como  qualquer  idea  constitue  um  acto  nascente . 


UM   CASO   DK  POI^ICIA  329 

Em  torno  delle  gyra  um  mundo  infinito 
de  pequenos  sons,  como  as  diminutas  linhas  re- 
das  que  formam  a  circumferencia. 

Como  e  que  podera  haver  uma  voz  ep 
perspectiva  ?  E  um  mundo  de  pequenos  sons 
a  gyrar  em  torno  do  silencio  ?  E  a  circumfe- 
rencia formada  por  pequenas  linhas  rectas  ? 

Vejam  o  que  elle  diz  da  morte : 

Dizem  que  a  morte  e  o  symbolo  exact o 
do  silencio.  Mas  morte  e  o  microbio  e  o  verme, 
a  desagregagdo  molecular. 

A  alma,  affirmam,  voa  ;  voa  por  longe; 
mas  alguemy  no  mundo,  Ike  percebe  o  ruflar, 
pelo  murmurio  da  dor  dentro  dos  coragoes,  pelos 
presagios  telepathic os  cujos  soidos  quasi  insensi- 
veis  constituent  as  nenias  das  saudades,  a  har- 
monia  dos  soffrimentos,  a  dogura  das  reli- 
gions. 

Este  sujeito,  segundo  ja  esta  verificado, 
tem  a  exquisita  mania  de  insultar  a  morte . 
Para  elle  a  morte  e  o  microbio,  e  a  alma  voa, 
mas  toda  a  gente  Ihe  percebe  o  ruflar  das  azas 
pelos  presagios  telepathicos  que  sao  as  nenias 
das  saudades,  etc.,  etc.. 

Tudo  que  ahi  fica  demonstra  a  saciedade 
que  este  clinico  e  ummalfeitor  publico,  «cari- 
franzido  e  barbilongos  como  diria  o  senador 
Ruy. 


330  VBRDADBS  INDISCRETAS 

Naio  queremos  citar  mais.  Si  houvesse 
policia  no  planeta,  o  dr.  Austregesilo  ]i  teria 
sido  ha  muito  tempo  trancafiado  num  xadrez 
cheio  de  chismes,  palavra  que  vimos  pela  pri- 
meira  vez  no  ultimo  discurso  dosr.  Ruy  e  que 
significa  percevejos.  Ate  quando,  6  Polida, 
deixards  impune  o  dr.  Austregesilo,  o  grande 
delinquente  das  letrias  patrias? 


O  coronel  Roosevelt 


Morreu   Theodore  Roosevelt,  dizem  os 
telegrammas. 

Grande    estadista,  commentam    os  jor- 
naes. 

Grande   cabotino,  opinam  homens  sen- 
satos. 

Doutor  em  direito,  vaqueiro,  deputado, 
presidente  da  Republica,  cagador  de  feras,  co- 
ronel de  cavallaria,  este  cidadao  foi  antes  de 
tudo  um  virtuoso  norte-americano,  isto  6,  um 
cabotino  feliz.  Foi  o  maior  fiteiro  do  seculo. 
Nos  nos  orgulhamos  do  sr.  Nilo  Pe9anha 
como  fabricante  de  fitas  de  grande  metragem; 
mas  o  sr.  Nilo  6  um  ingenuo,  comparado  com 
Roosevelt.  .  .  Ha  entre  um  e  outro  a  distan- 
cia  e  a  differenga  que  vao  de  Campos  a  Nova- 
York.    .  ^ 

Roosevelt  nao  deixava  de  ter  certas  ana- 
logias  de  caracter  com  Guilherhie  11.  Eram 


332  VBRDADES    INDISCRETAS 

ambos  estupendos  exemplares  de  hypertro- 
phia  do  Eu,  Guilherme  queria  dominar  o 
mundo ;  Roosevelt  teria  dominado  toda  a 
America,  si  tal  Ihe  fosse  possivel.  Ambos  ti- 
nham  a  paixao  das  viagens,  das  cagadas,  do 
palco  scenico  perante  o  universo,  avidez  insa- 
ciavel  de  reclamos.  Viviam  para  as  exteriori- 
dades.  Apenas,  Guilherme  era  fidalgo  de 
raga ;  Roosevelt  era  plebeu ;  mas  ambos  se 
egualavam  pelas  attitudes  de  arrivistas.  O 
desejo  immoderado  de  gloria  facil  nivelava 
perante  a  consciencia  humana  o  neto  de  Fre- 
derico  II  e  o  neto  dos  pelles-vermelhas. .  . 

Tendo  mais  liberdade  individual  do  que 
o  imperador,Roosevelt  organisava  cagadas  aos 
tigres  da  India,  aos  leoes  da  Africa  e  as  ongas 
do  Brasil ;  tendo  menos  liberdade  individual 
do  que  o  ex-presidente,  Guilherme,  nao  po- 
dendo  ir  cagar  em  dominios  inglezes,  organi- 
sou  essa  formidavel  cagada  de  animaes  huma- 
nos  da  qual  Ihe  adveiu  a  ruina. 

Roosevelt  esteve  a  cagar  no  Brasil.  Ca- 
90U  doUares  e  ongas.  Os  d611ares  cagou-os  e 
ganhou-os  elle  no  Rio,  fazendo  no  Institute 
Historico  uma  conferencia  sem  o  menor  valor, 
pela  qual  exigiu  cerca  de  sessenta  contos  I 
Nunca  pagamos  tao  caro  um  pensador  medio- 
cre. Mas,   que  querem  ?  Esse  homem  tinha 


O    CORONEI.  ROOSEVELT  333 

atraz  de  si  os  Estados  Unidos  com  o  seu  Ca- 
pital, com  a  sua  Industria,  com  a  sua  Esqua- 
dra  e  com  a  impulsividade  collectiva  da  sua 
populagao  sadia  e  rica.  Nao  seria  prudente 
ratinhar  quanto  ao  pre90  da  sua  philosophia, 
embora  ella  fosse,  por  natureza  e  por  eviden- 
cia,  muitissimo  barata.  Imaginemos  um  va- 
queiro  (cow-doy  yComo  la  dizem)  phantasiado  de 
Emerson  e  teremos  a  synthese  mental  do  pen- 
sador  Teddy. 

Quanto  as  ongas,  esse  professor  de  ener- 
gia  foi  ca9al-as  no  Amazonas.  Dizem  que  elle 
nunca  tremeu  deante  dos  tigres  de  Bengala ; 
mas  ha  quem  affirme  que  o  Nemrod  yankee 
ficou  horrorisado  quando  se  viu  no  Inferno 
Verde. 

Eu  acredito  em  ambas  as  versoes.  Nao 
ha  que  temer  os  tigres  da  India.  Sao  tigres 
creados  pelos  inglezes  especialmente  para  li- 
sonjear  a  vaidade  matadora  dos  Tartarins  po- 
derosos  como  Roosevelt.  Sao  animaes  civili- 
sados.  Creio  que  alguns  ate  pertencem  a  Alta 
Egreja  Anglicana.  Moram  a  beira  de  rios  ex- 
ploradissimos,  cujas  margens  estao  saneadas, 
vigiadas,  incorporadas  definitivamente  ao  dis- 
ciplinado  Imperip  de  SuaGraciosa  Majestade. 

Ja  nao  succede  o  mesmo  com  as  nossas 
on9as  e  os  nossos  jacaresda  Amazonia.  Esses 


334  VKRDADKS   INDISCRBTAS 

nSo  vivem  na  doce  companhia  de  Hindus 
pantheistas,  que  aspiram  ao  Nirvana,  como 
felicidade  suprema;  vivem  em  florestas  dan- 
tescas,  na  companhia  do  indio  astuto  e  do  se- 
ringueiro  feroz.  Por  isso  Roosevelt,  que  sd 
mantinha  rela96es  com  feras  britanisadas,  arre- 
piou-se  ao  travar  conhecimento  com  authenti- 
cas  feras  brasilicas.  E,  durante  todo  o  tempo 
em  que  durou  a  sua  ca9ada  na  Amazonia,  elle 
s6  alimentou  e  loucamente  um  desejo :  o  de 
fugir,  o  maisdepressapossivel,  d'aquelle  som- 
brio  e  espantoso  inferno,  onde,  quem  nao 
morre  da  setta  hervada  do  indio,  nas'garras 
da  cangussu,  entre  os  anneis  constrictores  da 
sucury,ou  triturado  pelasmandibulas  do  jacar^r 
ainda  tem  deante  de  si  um  inimigo  mais  sub- 
til e  perigoso :  o  impaludismo.  E'  preciso  ser 
cearense  para  affrontar  a  Amazonia;  ora,  Roo- 
sevelt era  apenas  um  norte-americano  habi- 
tuado  a  Quinta  Avenida  e  que,  vaqueiro  na 
sua  mocidade,  campeara  o  seu  gado  cavalgan- 
do  muito  bons  cavallos  e  por  campos  de  doce 
clima,  apto  a  travar  amizade  com  todas  as  de- 
licias  da  Civilisa9ao.  Haretratos  de  Roosevelt 
matando  tigres  de  Bengala ;  mas  nunca  vi  re- 
trato  d'elle  a  luctar  com  a  nossa  onga  pintada 
nem  com  um  modesto  jacare,  desses  em  que 


O    COROMBI.    ROOSBVKI.T  335 

OS  indios  at^  chegam  a  montar  para  a  atraves- 
sar  o  rio  Amazonas. 

Homem  sympathico  pela  sua  robustez  or- 
ganica  e  pela  alegria  com  que  sabia  viver,  foi 
um  cabotino  do  mais  alto  bordo  e,  como  de- 
cidiram  em  Paris,  em  cerco  concurso  aberto 
por  um  jornal,  eratambem,  com  as  suas  con- 
ferencias  mediocres  e  suas  ligoes  de  energia 
muito  bem  pagas.  o  primeiro  cacete  do  mun- 
do.  .  . 


Que  e  uma  offensiva  ? 


Chama-se  offensiva  o  acto  pelo  qual  um 
exercito  se  atira  contra  outro.  Exercito  e  uma 
multidao  de  hoinens  que,  esquecidos  de  que 
sao  homens,  obedecem  a  toques  de  cornetas, 
a  rufos  de  tambores  e  a  ordens  de  outros  ho- 
mens, tambem  por  egual  esquecidos  da  sua 
hominidade.  Entre  um  exercito  e  um  rebanho 
a  differen^a  e  nominal ;  porquanto,  si  os  reba- 
nhos  nao  raciocinam,  muito  menos  os  exerci- 
tos ;  no  dia  em  que  os  rebanhos  raciocinarem, 
deixarao  de  ser  rebanhos ;  no  dia  em  que  os 
exercitos  raciocinarem,  tambem  deixarao  de 
ser  rebanhos ;  porque,  no  dia  em  que  cada 
homem  se  convencer  de  que  outro  homem  nao 
tem  o  direito  de  perturbar-lhe  a  do9ura  da 
vida,  para  transformal-o  em  machina  de  matar 
■e  de  morrer,  esse  outro  homem,  por  sua  vez, 
nao  tera  coragem  para  Ihe  propor  que  deixe 
a  fabrica,  a  famiHa,  o  gado,  ou  a  charrua,  afim 

22 


338  VBRDADBS  INDISCRBTAS 

de  ir  matar  a  oiitros  homens  que,  como  elle^ 
tambem  possuem  teares,  filhos,  gado  e  char- 
ri^as.  D'onde  se  conclue  que  os  exercitos  sSo 
producto  da  inconsciencia  humana  explorada 
pelo  Capital.  Exercito  e  Capital,  que  sao  hoje 
alliados,  serao  algum  dia  inimigos  como  o  cao> 
e  o  gate .  Porque  ?  Porque  a  primeira  victima 
do  Capital  6  o  proprio  Exercito.  Os  soldados 
morrem  para  que  ?  Para  sustentar  os  capitalis- 
tas  que  se  escondem  sob  a  abstra9§o  —  Pa- 
tria.  Quanto  ganha  um  general  ^  Dois  contos 
por  mez.  Quanto  ganha  um  capitalista  ^  Cen- 
tenas  de  contos,  por  mez.  Quando  morre  uni 
soldado  raso,  com  quanto  fica  ao  mez  a  sua 
viuva,  caso  o  Estado  a  sustente  ?  Com  algu- 
mas  dezenas  de  mil  reis.  E  a  viuva  do  capita- 
lista }  Com  algumas  centenas  de  contos . 

Mas  como  se  faz  uma  offensiva  ?  Assim  t 
reunem-se  muitos  mil  homens ;  outros  homens^ 
que  saibam  fallar,  arengam  deante  d'elles,  in- 
vocando  a  Patria,  o  Direito,  a  Civilisa9ao  e  a 
Humanidade.  Depois  de  embriagal-os  com 
palavras,  esses  oradores,  que  geralmente  saa 
commandantes,  fazem  soar  as  trombetas.  A 
trombeta  e  um  instrumento  diabolic©  que,  so- 
prado  com  certa  arte  e  calor,  actiia  sobre  a 
systema  nervoso  dos  individuos,  tirando-lhes 
a  capacidade  de  pensar  e  de  sentir  outra  coisa 


QUE  ft  UMA   OFFENSIVA?  339 

sin^o  barbarias  gothicas.  Os  commandantes 
dSo  ordem  de  avan9ar,  e  os  homens  avan9am; 
OS  proprios  cavallos,  excitados  pelos  tangeres 
bellicosos,  avangam  heroicamente ;  os  ho- 
mens dao  tiros  de  canhoes,  metralhadoras  e 
carabinas  sobre  outros  homens,  que  tambem 
ouviram  discursos,  inebriaram-se  com  o  clan- 
gor das  trombetas  e  dao  tiros  de  canhoes^ 
metralhadoras  e  carabinas.  Privados  de  senti- 
dos  e  de  intelligencia,  intoxicados  pela  elo- 
quencia  dos  generaes  e  pelo  som  das  tubas 
canoras,  combatem;  grande  parte,  num  e  nou- 
tro  campo,  morre;  milhares  de  outros,  que 
escapam,  ficam  estropiados,  cegos,  surdos, 
inutilisados,  mas  contentes,  porque  recebem 
uma  tirinha  de  panno  e  uma  cruzeta  de  qual- 
quer  metal,  que  nem  ao  menos  e  ouro.  No 
fim  de  tudo,  uns  consideram-se  vencedores ; 
OS  outros,  vencidos,  mas  nao  convencidos  da 
derrota,  preparam  novo  ataque,  que  se  chama 
contra-offensiva ;  mas  offensiva,  defensiva  e 
contra  offensiva  vem  dar  tudo  no  mesmo :  e 
meio  de  perder  a  vida  em  beneficio  dos  fome- 
cedores  dos  exercitos,  quer  de  um  quer  de 
outro  campo.  De  maneira  que  offensiva  quer 
dizer :  morte  injusta  ;  e  a  principal  arma  offen- 
siva e  a  palavra  humana;  tanto  assim  que 
Ajax,  filho  de  Oileu,  dizia:  «Antigamente  eu 


340  VERDADES    INDISCRETAS 

suppunha  que  a  primeira  arma  era  a  acgao ; 
agora  vejo  que  a  primeira  arma  e  a  palavra»  . 
Quanto  ao  fim  da  offensiva,  e  defender  a  Pa- 
tria,  isto  e,  a  riqueza  dos  ricos  e  a  liberdade 
dos  povos,  por  hypothese .  .  . 


Christo  ou  Christa  ? 


Tem-se  visto  no  Rio  de  Janeiro  muita 
coisa  extranha.  Faltava-nos,  entretanto,  assis- 
tir  ao  que  esta  annunciado  para  a  Semana 
Santa:  o  papel  de  Christo,  no  Martyr  do  Cal- 
vario,  feito  no  Recreio  por  uma  mulher,  a 
sra.  Italia  Fausta ! 

Dizem  que  a  sra.  Italia  Fausta,  quando 
representava  ali  no  Campo  de  Sant'Anna,  era 
admiravel  no  papel  de  Antigona,  o  que  eu  por 
mim  mesmo  nao  affirmo,  porque  nao  o  vi. 
Dizem  que  S .  Excellencia  e  admiravel  na  Rd 
Mysteriosa — o  que  eu  tambem  nao  affirmo,  por 
nao  o  ter  visto.  Dizem  ainda  que  S.  Excellen- 
cia e  admiravel  em  tudo — o  que  eu  mais  uma 
vez  deixo  de  affirmar,  porque  nao  conhe9o  a 
illustre  senhora  nem  em  tudo  nem  em  nada . 
Para  evitar  discussao,  admitto  que  ella  seja 
estupenda  em  scena  e  f6ra  de  scena,  quer  no 
palco,  quer  nos  bastidores;  mas  representando 


342  VSRDADES   INDISCRETAS 

o  papel  de  Jesus-Christo  ? ! .  .  .  Nao  se  deve 
julgar  do  que  ainda  nao  se  viu ;  mas,  franca- 
mente,  nao  ha  emo9ao  de  espectador  que  re- 
sista  a  estes  pensamentos :  «Aquelle  Christo 
que  ali  vae,  de  cruz  is  costas,  ajudado  pelo 
dr.  Gomes  Cardim,  quero  dizer,  por  Simao,  o 
Cyreneu,  e  uma  linda  senhora;  aquelles  cabel- 
los,  porem,  melhor  diriam  em  Magdalena 
do  que  no  Salvador;  aquella  garganta  6 
tudo  quanto  ha  de  menos  masculino;  e  si  des- 
cermos  pela  garganta  abaixo,  verificaremos 
que  aquillo  nao  pode  ser  Christo  nem  a  mao 
de  Deus  Padre)) .  .  . 

Assim  pensando,  iremos  acompanhando 
OS  passos  do  Redemptor  at^  o  momento  em 
que  elle  houver  de  ser  pregado  na  cruz.  Ahi  en- 
tao  6  que  hao  de  resaltar,  com  evidencia  scien- 
tifica,  a  luz  forte  das  gambiarras,  entre  relam- 
pagos  de  breu  e  trovoes  de  bombo,  todas  as 
differengas  anatomicas  que  ha,  que  pelo  menos 
devia  haver,  entre  Jesus-Christo  e  a  mulher  de 
Pilatus.  E  quando  Maria  Magdalena  se  ajoelhar 
junto  a  Cruz,  contrita,  arrependida  e  lacry- 
mosa,  como  Christo  e  femea,  ficaremos  nos  a 
conjecturar  si  por  ventura  aquella  Magdalena 
nao  sera  macho,  para  nao  perturbar  o  equili- 
brio  do  mundo .  .  . 


CHRISTO   OU   CHRISTA?  343 

Nao,  minha  senhora,  tenha  paciencia. 
T^m-se  visto  homens  a  fazer  de  mulheres, 
mas  mulher  transformar-se  em  homem,  e 
ainda  mais  —  Homem-Deus,  isso  nunca  se 
viu,  embora  se  digam  por  ahi  certas  coisas .  .  . 
O  nosso  sexo  6  privilegiado.  A  quantidade  de 
linhas  curvas  que  abunda  nas  mulheres  bella§ 
permitte  logo,  a  primeira  inspecgao,  distin- 
guil-as  immediatamente  dos  homens;  portanto 
a  sra.  Italia  Fausta,  quando  for  pregada  na 
cruz  (felizmente  com  cravos  posti^os),  ha  de 
revelar-se  mulher  ate  ao  candido  olhar  dos 
impuberes.  E  si  quizer  ser  tida  e  havida  por 
Jesus-Christo,  ha  de  recorrer  a  antiquissimos 
«  obsoletos  processos  de  carpintaria  theatral . 

No  tempo  de  Shakespeare,  como  a  arte 
scenographica  ainda  nao  existia,  quando  em 
scena  se  queria  mostrar  ao  publico  uma  flores- 
ta,  coUocava-se  no  logar  proprio  um  letreiro : 
Floresta.  Quando  se  queria  figurar  a  lua,  pen- 
durava-se  numa  trave  uma  lanterna,  com  um 
letreiro :  Lua.  Assim,  a  sra.  Italia  Fausta,  si 
nao  quizer  ser  confundida  com  a  mae  de  Sao 
Pedro,  devera  apparecer  em  scena  com  um 
letreiro  na  testa:  Jesus-Christo.  Ora,  Jesus- 
Christo,  que  nunca  foi  reo  mysterioso,  quando 
apparece  no  theatro,  mesmo  no  Rio,  traz  na 
<cabe9a  a  sua  famosa  cor6a  de  espinhos,  que 


344  VKRDADES   INDISCRETAS 

provavelmente  deve  ser  incompativel  com 
qualquer  letreiro,  ainda  luminoso.  Alem  disso, 
esse  letreiro,  por  cima  da  cor6a  de  espinhos, 
e  uma  crueldade  tao  inutil,  que  os  proprios 
judeus  nao  a  praticaram . 

Resumindo,  cara  sra.  Italia  Fausta,  sup- 
plico-lhe,  tao  humildemente  como  se  fallasse 
ao  proprio  Jesus-Christo,  o  seguinte :  va  ter 
com  o  empresario  e  declare-lhe  muito  positi- 
vamente  que  Vossa  Excellencia,  por  motives 
anatomicos,  nao  p6de  ser  Christo ;  podera  ser, 
quando  muito,  Mae  de  Deus,  mas  nunca  Fi- 
Iho  d'Elle.  E  si  Vossa  ExcellenM  persistir 
nessas  intengoes,  que  eu  reputo  contrarias  a 
natureza  e  ao  bom  senso,  irei  ao  theatro,  na 
Sexta-feira  Santa,  de  gravata  vermelha  e  bar- 
rete  phrygio,  e  farei  berreiro  para  exigir  que 
Magdalen  a  seja  o  sr.  Paulo  Barreto. 


Do  leite,  sua  natureza  e  effeitos 
na  economia 


Chama-se  leite  certo  veneno  de  cor 
branca  com  que  se  matam  crian9as  em  ten- 
ra  edade  e  velhos  em  edade  avangada.  Em- 
pregado  em  alta  dose,  pode  ser  de  effeito 
fulminante.  Esta  provado  que  os  allemaes, 
durante  a  offensiva  na  Belgica,  nao  emprega- 
vam  contra  criangas  e  velhos  outra  arma 
sinao  o  leite  do  Brasil,  de  que  tinham  com- 
prado  grandes  partidas  antes  da  guerra.  O 
leite,  logo  que  e  assimilado  pelo  organismo, 
age  directamente  sobre  todas  as  visceras .  O 
estomago  do  paciente  dissolve-se ;  os  intesti- 
nos  desapparecem  sob  a  acgao  corrosiva  de 
certos  acidos,  ainda  desconhecidos,  que  o  leite 
desenvolve  no  organismo  humano;  o  coragao, 
os  rins,  o  figado  e  o  bago  liquefazem-se.  Algu- 
mas  vezes,  tanto  na  clinica  hospitalar  coma 
na  clinica  civil,  tem-se  procurado  salvar  taes 


346  VBRDADBS   INDISCRETAS 

doentes,  empregando,  quer  por  via  gastri- 
ca,  quer  em  injecgoes  endovenosas,  solugoes 
de  bi-chloreto  de  mercurio,  ou  de  cyaneto 
de  potassio  em  agua  raz,  a  95  % ;  mas,  apezar 
disso,  sobre  cem  casos  de  intoxicagao  pelo 
leite,  noventa  e  oito  sao  quasi  sempre  fataes. 
Na  Santa  Casa,  logo  que  se  tern  noticia  ou 
simples  suspeita  de  que  um  doente,  desillu- 
dido  de  cura,  conseguiu  ingerir  is  escondidas 
uma  colher  de  leite,  applicam-se-lhe,  caso  o 
permitta  a  sua  tensao  arterial,  injec^oes  intra- 
musculares,  consecutivas,  de  uma  solu^ao  de 
sulfato  de  cobre  misturado  com  chloreto  de 
zinco,  ou  arseniato  de  chumbo,  na  propor9ao 
de  600  por  1000. 

Ultimamente  quiz  a  Hygiene  Municipal 
prohibir  o  commercio  desse  activissimo  ve^ 
neno,  ou  ao  menos  regulamental-o  como  re- 
gulamentou  o  da  cocaina,  do  opio  e  da  mor- 
phina,  permittindo  o  seu  uso  clandestino  so  a 
adultos  de  ambos  os  sexos  que  nao  tenham 
muito  interesse  em  viver;  mas  o  juiz  da  1^ 
Vara  Federal  garantiu  por  sentenga  a  liber- 
dade  desse  nefando  commercio.  De  sorte  que 
o  leite  continua  a  ser  vendido  as  escancaras, 
em  plena  cidade  do  Rio  de  Janeiro !  Nao  ha 
a  menor  providencia,  nem  de  caracter  hygie- 
nico  nem  de  caracter  meramente  policial,  con- 


DO  I.BITE,SUA  NATU.  K  EPFElTOS  NA  ECONOMIA      347 

tra  a  disseminagSo  desse  toxico  destruidor, 
tanto  mats  perigoso  quanto  mais  suavemente 
se  faz  a  sua  ingestSo,  havendo  at6  medicos  tao 
levianos  e  ignaros,  que  chegam  a  prescrevel-o 
como  alimento  a  doentes  submettidos  a  dieta ! 
Dito  perante  qualquer  sociedade  medica  de 
qualquer  paiz  medianamente  civilisado,  nao 
seria  acreditado  por  ninguem.  Houve  um  pro- 
fessor allemao  que,  discorrendo  sobre  as  pro- 
priedades  da  agua,  declarou  a  seus  alumnos 
pasmados :  aExistem  povos  barbaros  que  be- 
bem  protoxydo  de  hydrogenio !  »  Entretanto 
isso  nada  e,  embora  a  agua,  principalmente 
no  Rio  de  Janeiro,  tenha  propriedades  extra- 
ordinariamente  nocivas.  Nao  sei  o  que  diria 
esse  homem  de  sciencia,  si  soubesse  que  os 
cariocas  nao  so  bebem  leite  como  ate  o  dao  a 
seus  filhos  e  aos  enfermos. 

Esse  amor  dos  cariocas  pelo  leite  e  al- 
guma  cousa  como  a  paixao  dos  chinezes  pelo 
opio,  salvo  OS  effeitos  soporiferos,  immediatos 
e  deprimentes,  do  opio,  que  sao  muito  menos 
nocivos  a  saude.  Aindaassim  o  commercio  do 
opio  decresceu  muito  desde  que  a  Inglaterra, 
de  commum  accordo  com  outras  grandes  po- 
tencias  europeas,  resolveu  perseguil-o,  como 
perseguiu  o  nosso  trafico  de  negros  escravi- 
sados .  Quando  se  dispora  alguma  das  gran- 


348  VERDADES   INDISCRETAS 

des  potencias  europeas  a  perseguir  o  com- 
mercio  do  leite  entre  nos  com  a  mesma  effi- 
ciencia  com  que  se  combateu  o  consumo  do 
opio  na  China  ? 

Necessario,  entretanto,  se  faz  dizer  que 
o  leite  e  nocivo  em  alto  grau  aqui  no  Rio. 
Em  Minas  e  no  Rio  Grande  do  Sul,  por  exem- 
plo,  gragas  a  paradisiaca  innocencia  do  meio, 
o  veneno  nao  tern  tanta  virulencia.  Demais, 
nao  se  podem  negar  ao  leite,  desde  que  che- 
gue  ao  Rio,  certas  propriedades  therapeuticas 
bastante  uteis .  Por  exemplo :  empregado 
como  antidoto  do  veneno  ophidico,  nao  deixa 
de  ter  efficacia.  O  veneno  da  urutu,  para  so 
citar  o  mais  pegonhento  dos  nossos  ophidios, 
raramente  resiste  a  uma  injec9ao  endovenosa 
de  leite  que  tenha  quatro  horas  de  permanen- 
cia  no  Rio  de  Janeiro.  Ainda  meia  hora  de- 
pois  do  paciente  ter  sido  picado  pela  urutu, 
pode  ser  salvo  com  uma  ampola  de  um  cen- 
timetro  cubico  de  leite .  No  caso  de  pi- 
cadas  de  algum  insecto  venenoso,  como  o  es- 
corpiao,  a  centopeia,  o  carangueijo  e  outros, 
basta,  para  por  a  victima  fora  de  perigo,  uma 
simples  fricgao  local,  sobre  a  mordedura,  ten- 
do,  entretanto,  o  paciente  o  cuidado  de  nao 
levar  a  bocca  a  parte  friccionada,  para  evitar 


<? 


DO  I^EITK,  SUA  NATU.  E  EFFEITOS  NA  ECONOMIA  349 

accidentes  dolorosos,  como  gengivites  e  ou- 
tros  semelhantes . 

Mas  essas  propriedades  therapeuticas, 
sem  duvida  preciosas,  nem  por  isso  dei- 
xam  de  ser  extremamente  perigosas,  quan- 
do  mal  applicadas,  motivo  por  que  o  governo, 
para  evitar  a  degenerescencia  da  nossa  ra9a, 
deve,  ou  prohibir,  ou  ao  menos  regulamentar 
a  vendado  leite,  como  se  regulamentou  a  da 
morphina. 


O  anno  humoristico,  litterario  e  social 


Resumir  em  tao  breves  linhas  o  que 
houve  de  comico  no  anno  de  1919  e  tao  diffi- 
cil  como  resumir  a  tristeza  de  um  cemiterio. 

Em  1919  tivemos  circos  de  cavallinhos, 
dr.  Delphim  Moreira,  Joaquim  Osorio,  festas 
nacionaes,  dr.  Austregesilo,  F'linto  d' Almeida^ 
Teixeira  Mendes,  etc.,  etc. 

A  dizer  a  verdade,  esses  homens  e  factos 
nos  fizeram  sorrir  por  um  instante,  mas  naa 
nos  desopilaram  o  figado. 

O  dr.  Joao  do  Rio,  capacho  em  que  todas 
as  manhans  alimpa  os  seus  tamancos  a  colonia 
portugueza,  teve  tres  banquetes. 

Medeiros  e  Albuquerque  ficou  em  oppo- 
si9ao  ao  governo,  depois  de  ter  sido  redactor- 
chefe  de  um  matutino  —  O  Imparcial — du- 
rante  quarenta  e  oito  horas. 

A  professora  Daltro  andou  com  o  seu 
grupo  de  obuzeiros  de  saias  ahi  pelas  ruas  er 


352  VERDADES  INDISCRETAS 

no  dia  da  chegada  do  Presidente  Epitacio, 
promoveu  um  conflict©  junto  ao  portao  do 
Arsenal  de  Marinha. 

O  dr.  Nilo  Pe9anha  fez-se  cada  vez  mais 
agricultor. 

O  dr.  Antonio  Carlos  fez-se  cada  vezme- 
nos  financista;  e  o  sr.  Bressane,  cada  vez  mais 
coronel,  tornou-se  cada  vez  mais  fervoroso 
adepto  do  genio  politico  do  senador  Francisco 
Salles .  ,  . 

Tudo  isso  sao,  ou  melhor,  foram  pilhe- 
rias.  Nao  o  sao  mais.  O  que  nao  sei  e  de  que 
lado  estara  a  incapacidade,  isto  e,  si  seremos 
nos  OS  incapazes  de  rir  com  ellas,  ou  si  ellas  e 
que  serao  incapazes  de  nos  fazer  rir. 

Em  verdade,  rimos  cada  vez  menos.  As 
mulheres  cariocas  riem  pouco  para  nao  preju- 
dicar  a  pintura  do  rosto,  ou  melhor,  para  que 
nao  se  Ihes  estale  o  verniz  do  carao. 
Quanto  aos  homens,  ai  de  n6s!  Como 
havemos  nos  de  rir,  de  dar  uma  b6a  garga- 
Ihada,  daquellas,  ja  nao  digo  dos  deuses  de 
Homero,  mas  ao  menos  do  tempo  de  dom 
Joao  VI ? 

E'  que  as  preoccupagoes  materiaes  nos 
absorvem.  Nao  temos  tempo  nem  para  rir  nem 
para  ficar  extacticos  deante  de  uma  bella  mu- 
iher.  Mai   vamos  descerrando  os  labios  para 


O    ANNO    HUMORISTICO,    LITTERARIO   E   SOCIAL    353 

uma  risada  e  ja  nos  chegam  noticias  apavo- 
rantes :  sao  os  russos  que  continuam  a  amea- 
^ar  o  mundo  com  o  incendio  maximalista ;  sac 
OS  italianos,  que  querem  tomar  Fiume ;  sac  os 
francezes,  que  nao  nos  querem  restituir  os 
navios  que  tomamos  aos  allemaes;  sao  os  ja- 
ponezes,  que  querem  nao  somente  invadir  a 
Siberia  como  ainda  vir  trabalhar  no  Brasil,  o 
que  representa  para  nos  um  dos  maiores  peri- 
gos  contemporaneos ;  sao  os  operarios  que  se 
declaram  em  parede ;  sao  os  anarchistas  es- 
trangeiros  que  nos  ameagam  a  bombas ;  e  o 
cambio  que  sobe  num  dia  para  descer  no  ou- 
tro  e  tornar  a  subir  no  dia  seguinte ... 

Havera,  no  meio  de  todas  essas  catastro- 
phes, tempo  para  rir  ? 

Grandes  foram  os  esforgos  feitos,  durante 
a  legislatura  de  1919,  pelodeputado  Joaquim 
Fagundes  {ne  Osorio)  para  nos  proporcionar 
gargalhadas.  O  deputado  Joaquim  e  innega- 
velmente  um  grande  humorista .  Um  grande 
humorista  e  um  santo.  Admiro-o  e  venero-o. 
Joaquim  combateu  tudo  quanto  nao  fosse  pa- 
cifista  e  positivista.  Joaquim  gritou,  berrou,es- 
murrou  a  carteira,  urrou,  zurrou  e  azurrou. 
Joaquim  e  Clothilde.Joaquim  e  August©  Com- 
te.  Joaquim  e  Borges  de  Medeiros.  Joaquim 
e  Teixeira  Mendes.  Joaquim  e  espantoso.  Em 


354  VBRDADES   INDISCRETAS 

summa,  Joaquim  e  feliz,  como  Marcolino  Bar- 
reto,  como  Joao  Menezes,  como  Bressane. 
Umaflor  de  humorismo!  Numa  bancada  de 
humoristas,  como  e  indubitavelmente  a  do 
Rio  Grande  do  Sul,  Joaquim  conseguiu  der- 
rotar  o  proprio  dr.  Carlos  Maximiliano,  que 
6  o  grande  mestre  do  humorismo  applicado 
ao  direito  constitucional.  Pois  apezar  de  to- 
dos  OS  seus  esfor9os  para  nos  matar  de  rir^ 
Joaquim  Praxedes  nao  conseguiu  mais  que 
nos  fazer  sorrir  uns  sorrisos  amarellos  e  ver- 
des,  como  a  bandeira  nacional    .  . 

E  a  litteratura,  asempre   respeitavel  lit- 
teratura  nacional  ? 

A  litteratura  no  Brasil  e  uma  coisa  que 

Austregesilo  cultiva  e  Afranio  Peixoto  illustra. 

Austregesilo  e  o  medico-physico  espon- 

taneo  das  meninas  anemicas  que  ainda  nao 

apprenderam  a  ler  por  cima .  .  . 

Afranio  Peixoto  e  o  Marcel  Prevost  de 
oleo  de  ricino,  asso  oxygenado,  que  alinhava 
periodos  de  cascalho  e  se  esquece  das  ori- 
gens  ethnicas  do  seu  sangue,  gragas  as  mara- 
vilhas  do  Henne  e  do  Diplozon  applicado  aos 
cabellos  e  aos  bigodes.  Ainda  espero  vel-o  de 
cabellos  verdes  e  bigodes  azues,  que  a 
Sciencia  para  tudo  tem  recursos.  O  seu  ul- 
timo romance  Truta  do  Mattos  tem,  logo  as 


O   ANNO    HUMORISTICO,    UTTBRARIO   B  SOCIAL   355 

primeiras  paginas,  a  descrip^ao  de  uma  mu- 
Iher,  que  6  um  prodigio  de  humorismo.  Basta 
dizer  que  a  rapariga  do  dr.  Afranio  tern  a  bei- 
9orra  dependurada  na  ponta  do  nariz,  bem  na 
ponta,  diz  elle.  E,  para  nao  pensarem  que  in- 
vento,  vou  transcrever  textualmente  da  Truta 
DO  Mattos,  paginas  6  e  7,  o  que  diz  essepsy- 
chologo  de  azeite  de  dende:  aOsbastos  cabel- 
los  atados  num  coque  pezado,  a  linha  direita 
da  testa,  o  nariz  pequeno  e  na  ponta,  bem  na 
ponta,  arregagado  com  tanta  gra9a/a  saliencia 
dos  labios,  entreabertos  para  a  palavra  que 
a  lingua  molhava  a  miudo  num  gesto  faceiro, 
o  queixo,  o  mento,  o  pescogo  roligo,  o  collo- 
cheio  sem  demasia,  mas  com  altivez,  esvain- 
do-se  na  cintura  delgada.»  Que  synthese  lu- 
rainosa !  Que  clareza  aryana  !  A  regular  pelo 
estylo,  o  dr.  Afranio  e  aryano  puro,  o  unico 
aryano  pur  sang  que  existe  no  universo.  Fi- 
gurem  a  idea  que  este  infusorio  da  litteratura 
faz  de  uma  mulher  bonita:  ella  deve  ter  a  sa- 
liencia dos  labios  na  ponta,  bem  na  ponta  do 
nariz,  como  as  argollas  de  ferro  que  os  selva- 
ge ns  costu  mam  trazer  nos  delles!  E  o  collo 
esvaindo-se  na  cintura  ?  Que  descrip9ao  !  Mas 
nao  e  descripgao:  e  um  inventario.  O  dr.  Afra- 
nio, avido  de  pecunia  e  ambicioso  de  posi- 
9oes  como  todos  os  albinos,  deve  entrar  para 


3S6  VERDADES   INDISCRETAS 

um  cartorio.  SuaSenhoria,  commaisum  pou- 
co  d'agua  oxygenada  nos  bigodes,  daria  um 
bom  escrivao.  O  dr.  Afranio  tern  ma  vista  — 
o  que  e  commum  entre  assos:  acha  bonita  uma 
mulher  que  tem  os  bei^os  pendurados  na 
ponta  do  nariz,  mas,  apezar  de  tudo,  e  um 
grande  humorista.  E'  um  Swift  double  de  um 
George  Ohnet,  combinado  com  Tristan  Ber- 
nard e  com  influencias  de  Perez  Escrich.  O 
seu  estylo  e  o  de  um  Cervantes  que  nao  tives- 
se  escripto  o  Dom  Quixote,  e  ao  mesmo  tempo 
o  de  um  Joaquim  Manoel  de  Macedo  antes  do 
Mogo  LouRO.  As  suas  tendencias  psychicas 
accusam  influencias  ancestraes  do  poeta  Luiz 
da  Gama.  quando  escreveu  a  Bodarrada,  e 
tragos  recentes  de  Hemeterio  Jose  dos 
Santos.  . . 

Outro  facto  de  grande  alcance  humoris- 
tico  em  1919:  o  dr.  Joao  do  Rio  veiu  da  Eu- 
ropa  condecorado  frealmente  somos  cada  vez 
mais  desconhecidos  dos  europeus  ! )  e  procla- 
mado  o  maior  psychologo  da  Grande  Guerra. 

O  dr.  Joao  do  Rio  e  o  Lavisse  brasileiro, 
quero  dizer,  e  um  Lavisse  double  de  um  W. 
Stead, com  influencias  de  Jules  Huretegrandes 
predilecgoes  por  Stephane  Lauzanne.  Nota-se 
no  seu  estylo  a  tortura  de  um  Michel  George 
Michel  em  amalgama  com  Jean  Lorrain  e  ten- 
dendo  um    pouco  para  a  forma  superior  de 


# 


O    ANNO   HUMORISTICO,   LITTERARIO    K  SOCIAL   357 

Manuel  de  Souza  Pinto,  depois  de  ler  uma 
pagina  de  Gomez  Carrillo . 

O  dr.  Joao  do  Rio,  pois,  chegado  Jda  Eu- 
ropa,  recebeu  um  banquete  da  laboriosa  colo- 
nia  portugueza,  por  ser  amigo  de  Portugal, 
e  isto  mostra  que  elle  sabe  viver ... 

Logo  a  seguir,  como  e  amigo  pessoal  de 
D'Annunzio,  atravez  das  informagoes  do  em- 
baixador  Souza  Dantas,  recebeu  tambem  um 
banquete  da  activa  colonia  italiana.  Vae  dahi, 
por  ter  tido  um  banquete  da  laboriosa  e  outro 
da  activa,  recebeu  tambem  um  outro  da  resi- 
gnada  colonia  brasileira  neste  vasto  Hotel  dos 
Estrangeiros,  que  e  o  Rio,  o  delicioso  Rio  de 
Janeiro,  este  suavissimo  Rio  de  Joao.  De  sor- 
te  que  chegamos  a  isto:  por  se  dizer  amigo 
de  Portugal,  recebeu  Joao  um  banquete  dos 
portuguezes;  por  ser  amigo  de  D'Annunzio, 
recebeu  outro  dos  italianos;  e  por  ter  rece- 
bido  estes  dois,  ganhou  mais  um,  offerecido 
por  brasileiros  I  Isto  e  que  me  deixa  um  tanto 
perplexo:  ver  um  gentilhomem  receber  um 
banquete  so  pelo  simples  facto  de  haver  rece- 
bido  anteriormente  dois  outros .  .  . 

Creio  que  nao  vale  a  pena  insistir  nesses 
melancholicos  aspectos  de  humorismo  que  sao 
OS  srs.  F'linto  d' Almeida,  Teixeira  Mendes, 
Reis  Carvalho,  Francisco  Bressane,  Joao  Me- 


358  VBRDADSS  INDISCRETAS 

nezes  e  outros  notaveis  escriptores  da  antiga 
geragao.  Deixemol-os  em  paz.  Em  1920,  si 
Deus  me  der  tinta  e  saude,  pretendo  cuidar 
de  outros  assumptos.  Ja  tenho  os  dados  can- 
sados  de  brincar,  durante  tantos  mezes,  com 
Austregesilos,  Afranios  e  Hermes  Pontes, 
esses  innumeraveis  Hermes  Pontes  de  que 
se  compoe  a  poesia  nacional.  Adeus,  pois,  6 
genios !  Boas  entradas,  6  amigos  humoristas 
do  Parlamento,  dasLetras,  das  Religioes  e  da 
Vida  Elegante!  Deusvos  demuitaveiacomica 
para  nos  divertirdes  na  imprensa,  e  muito  aci- 
do  urico  para  vos  divertirdes  a  vos  mesmos  e 
a  vossas  esposas  na  intimidade,  nessa  intimi- 
dade  doce  em  que  a  mulher  escova  as  unhas, 
€  o  marido  apara  os  callos,  ambos  felizes, 
contemplando  a  prole  futurosa  e  aguardando 
o  libertador  ataque  de  uremia  que  os  ponha 
ao  abrigo  de  folliculados  impertinentes  como 
este  sujeito  que,  com  todo  aprego,  se  subscre 
ve 


Vosso  admirador  e  amigo, 

Antonio  Torres 


# 


Indiee 


INDICE 


PAGS. 

Prefacio ^^^^ 

A'  maneira  de  Pangloss 1 

A  Gentileza  Britannica 5 

Litteratura    Hermista 9 

Moeda  falsa   e  paradoxo 15^ 

Zodiac© ^9 

A  castidade  do  nii 25 

O  Bacillus  Lyricus 31 

O  paradoxo  legal 37 

Homens    e   abelhas '*3 

A   f esta  da  Melancolia   ^^ 

Carne  para  canhao ^^ 

Edouard  Drumond *3 

A  Academia  em  sessao 5/ 

A  morte   da  peccadora 61 

O  paradoxo  da  lei 6* 

O  quinto  mandamento ^7 

O  14  de  Julho •  •  6^ 

Quelque  chose  de  vierge 73 

Amizade   criminosa '  ^ 

As  crianpas 77 

A  tortttra  do  perfume '9 

Uscandalo  ! •  •  ^^ 

Destempero  de  Linguagem •  85 

O  nil  symbolico ^' 

Amor  e  Poesia ^1 

O  mal  existe  ? ^^ 

Bodas  e  Pezames ^ 

EJlogios J03 

Paz  aos  id61atras ^"^ 

A  tyrannia  democratica ^^7 

Commentarios  ao    «Binoculo» ^*^ 

Os  bigodes  do  Exercito ^^^ 


362 


PAGS 


Exigencias  do  minuete 119 

Ruido  e   Solidao 123 

O  P090  maldito 125 

As  mulheres  na  politica 129 

Verhaeren 133 

Heresia  orthographica 137 

A  princeza  Arminda 141 

ly'homme  qui  assasina 143 

Os  crimes  de  Amor 147 

O  jogo  franco 151 

Preconceitos  de  linguagem 155 

O  Feiticeiro 159 

Bailarinas 161 

O  jogo  6  vicio  ? 165 

A  elegancia  masculina 169 

A  elegante  e  o  mendigo 171. 

L/e  Roi    s'amuse 173 . 

Casamentos  por  annuncios 175 

Amores  hediondos 179 

Como  fazer  a  paz 181 

A  Irlanda 185 

A  Mttlher  e  a  Mentira .)  189 

Odio  de  rafa '.  i-^  191 

Stiicidios 195 

O  feminismo  periga 197 

Pacifismo 201 

A  policia  e  o  espiritismo 203 

Lopes  Trovao 207 

No  caf6 209 

Dois  bons  amigos 211 

Casadas  e  solteiras 213 

A  desvantagem   do  nome 215 

Agitando  um  pello 222 

Numa  Exposi9ao  de  Caes 229 

Considera9oes  actuaes 237 

O  cabe9a  de  turco 245 

Uma  semana  alegre 255 

O  vendedor  de  passaros 265 

Brul^  e  o  seu  publico 273 

Brasileiros  e  Estrangeiras 281 

Vinte  e  uni  de  abril 293 


363 


PAGS. 

Incidente  litterario 299 

O  decobrimento    do  Brazil 303 

Gttilherme  II  e  a  ssychologia  do  heroism© . .  309 

A  Crapula 317 

Urn  caso  de  policia 325 

O  Coronel  Roosevelt 331 

Que  6  uma  off ensiva  ? 337 

Christ©  ©u  Christa  ? 341 

D©  leite,  sua  natureza  e  eff eitos  na  economia  345 

O  ann©  humoristico,  litterari©  e  s©cial 351 


-^ 


*rB-7200-4 
C 


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DiAi,OGAis   (edigao  critica).   Reproduc^ao 

fiel  da  1'  edi9ao  de  1721 .   No  prelo. ...... 


Typ-  Baptista  da  Souza  —  Rua  da  Misericordia,  5'  —  -^io 

(3       ^ 


AN.ONIO  TORRES 


VERDflDES 


2^.  ediQao 
(5.°  Milheiro) 


% 


RIO  DE  JANEIRO 
l.B¥aARlA    CASTII.HO 

A.  .T.  PE  CASTILHO  -  Editor 

RUA  S.   Josfe,  114